sagitário

Da natureza dos tebetês

Fenômenos da internet costumam ser intrigantes. Isso de postar fotos antigas na quinta-feira, por exemplo. Por que logo na quinta-feira, um dia tão expansivo, orientado para o futuro, sagitariano? Por que rememorar o passado justamente quando nossos olhos estão voltados para a frente e para o fim de semana? Não faria mais sentido fazer isso às segundas, o dia da Lua, moon day, regente de Câncer e de nossa memória afetiva? E por que essa sacanagem de terem enfileirado os dias da semana em uma monótona sequência numérica (segunda, terça, quarta etc.), quando em tantas outras línguas essa lista faz referência aos planetas e aos mitos associados a eles?

A propósito, Jueves, quinta-feira em espanhol, se refere a Jove, o outro nome romano de Júpiter e de seu equivalente grego Zeus – um deus farrista e que tinha muitos atributos em excesso, mas com certeza não o saudosismo. Thursday é Thor’s day, dia de Thor, o jupiteriano deus nórdico do trovão e do relâmpago, que onde aparecesse chegava chegando e bagunçando a zorra toda, que nem a Ludmilla (a Ludmilla, aliás, tem Júpiter em Sagitário, descobri no astrotheme). Já a quinta-feira do calendário Hindu é Brhaspativaar, ou Guruvaar, sendo que Bhrspatti é Júpiter, o planeta, e também o Senhor do Discurso Sagrado, preceptor dos deuses, conhecedor de basicamente tudo, também famoso como GURU, O CARA. Mais uma vez: por que Throw Back Thursday e não Here We Go Thursday, ou Fuck This Shit Thursday, ou Metendo as Cara e Chutando os Balde Thursday? Porque o arquétipo de Sagitário se encontra tão sub-representado em uma das práticas internéticas mais características do dia que dedicaram ao seu regente?

Bom, tenho duas hipóteses. A primeira é a teoria da compensação dos opostos, segundo a qual o mesmo mecanismo que criou a menos popular Motivation Monday (para distribuir ânimo e esperança no dia em que estes atributos estão mais escassos) teria criado o TBT. Mas nesse sentido estaríamos supondo que a quinta-feira é por natureza um dia tão carregado de expectativas, tão palpitante de possiblidades, que teria sido necessário equilibrá-la com certa nostalgia. Mas acho que não chega a tanto: nem o otimismo das quintas é tão certo, nem a melancolia é parte intrínseca das postagens repetidas. Às vezes elas parecem ter o efeito inverso mesmo. Daí minha segunda especulação.

Porque, não sei se vocês já notaram, mas tem dias que o TBT parece ter sido criado para Sagitário esbanjar as viagens que já fez pelo mundo. E mesmo quem não é sagitariano acaba sendo um pouco na hora de repostar o registro daquele mochilão pelo sudeste asiático.  Esse é um ponto importante: se existe uma relação entre a viagem e o tebetê, existe uma relação entre o tebetê e Sagitário. Porém, especificamente nesses casos, a rememoração de andanças e experiências não me parece motivada pela sensação de uma falta, de uma carência, como acontece com a memória no âmbito canceriano e lunar. Não vejo ninguém nessas horas dilacerado pela saudade do Timbuktu, e a razão é simples: o Timbuktu, arquetipicamente falando, não está nas nossas origens, muito pelo contrário. Ele é justamente um símbolo daquilo que extrapolou nossas origens; ele foi um de nossos destinos.

O TBT é sagitariano, portanto, mas não tem nada a ver com saudade. É sobre a infusão de ânimo que oferecem aquelas memórias de algo que expandiu o horizonte de nossas experiências e a narrativa da nossa vida, desfazendo os limites e fronteiras aos quais parecíamos restringidos em nossa terra natal, por nossa herança familiar ou situação financeira. Mesmo quem não tem o passaporte todo carimbado vai identificar lembranças desse tipo: “TBT do dia em que passei pra universidade federal”, por exemplo, se encaixa nesse registro, assim como “lembrança daquele dia lindo em que lancei meu primeiro livro de poesia”. A pessoa não está lamentando o fato de que esse dia não volta mais; está celebrando o fato de que ele aconteceu, e de que desde então sua trajetória no mundo esteve carimbada por essa entrada em uma terra estrangeira, que a partir daí ela passou a conhecer e desbravar.

Concluo que as rotinas da internet parecem antes reforçar o espírito dos dias do que servir como antídoto para suas inclinações. As mensagens motivacionais de segunda-feira só aumentam a falta de paciência para começar a semana, enquanto a nostalgia tebetista tem sua origem no relativo entusiasmo quinta-feiriano, e o retroalimenta. Por outro lado, em qualquer outro dia que não estivesse reservado especificamente para esse fim, ficar postando coisas antigas pareceria sim uma atitude de lamento diante da perda. Ninguém ia aguentar, por exemplo, se em plena segunda todo mundo entrasse na ladainha de que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá e as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Enquanto na quinta-feira, ninguém vai achar que você está particularmente em estado de banzo simplesmente porque a imagem que você recuperou está um pouco desbotada. As lembranças de quinta não são as lembranças do que se perdeu, e sim a presença do que foi acrescentado.

Em resumo: o TBT não é sobre o lugar de onde partimos, mas sobre um lugar onde um dia chegamos. Tem um efeito estimulante, no sentido de reacender a chama que nos levou a cruzar aqueles mares e arriscar aquele curso, aquela publicação, aquela jornada. A foto aí de cima, por exemplo, é de uma viagem que fiz para Lisboa, Barcelona e Londres com meu filho mais velho. Quando olho para ela hoje, o sentimento não é de maneira alguma melancólico, mas de expectativa pelas viagens que estão por vir, pelos lugares que ainda vou conhecer, pelos conhecimentos que ainda vou conquistar. Não sei exatamente o que aconteceu naquele dia em Portugal, quando tiramos esse retrato. Às vezes parece que o momento em que registramos essa imagem ainda nos aguarda, que ele ainda vai chegar, e que ainda precisamos nos mover para chegar (de novo) até ele.

Dizem que toda imagem vem acompanhada de uma espécie de rótulo com o qual o cérebro de imediato a classifica em um registro temporal. O dejà vu, por exemplo, seria a consequência de um erro desse mecanismo, quando uma cena vista no presente recebe o rótulo de “lembrança”, e gera um pequeno curto-circuito na linearidade com que tentamos organizar os fatos. Estes pequenos embaraços e desconcertos à nossa consciência do tempo são bem-vindos, e o TBT é um deles. Trata-se de uma lembrança cujo desenterrar em um dia específico da semana traz consigo o rótulo de um futuro possível. É como se estivéssemos recordando coisas fantásticas que ainda vão nos acontecer.

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