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Sem esperança nem desespero

O cambista (1627) | Rembrandt

Existem diferentes caminhos para falar do zodíaco a partir da obra de William Shakespeare. A gente pode até brincar de separar as peças dele por signo, tamanha é a riqueza de suas tramas e a diversidade de seus personagens. Sonho de uma Noite de Verão, por exemplo, é uma peça pisciana; Hamlet tem alguma coisa de Sagitário, o Próspero de A Tempestade lembra Capricórnio, algumas comédias são bem librianas, e outras participam do arquétipo de Gêmeos. É claro que cada texto deve ter lá seu mapa com todas as nuances possíveis, e eu diria que Rei Lear, por exemplo, deve ter o Sol em Leão na casa 12, em quadratura com um Marte em Escorpião na 09 e talvez Vênus e Urano conjuntos sobre o Ascendente. Mas quando vamos falar do próprio autor não há como fugir do fato histórico fundamental com que nos deparamos em uma simples conferência na Wikipedia. Shakespeare era de Touro.

Tenho que confessar que isso é para mim motivo de um leve desconcerto. Shakespeare foi um autor que conseguiu transitar por diferentes modos narrativos, parecia mudar de ideia toda hora em suas visões de mundo e da humanidade, e tampouco nos legou um conjunto consistente de proposições a respeito do que quer que seja. Touro, por sua vez, não é conhecido por sua flexibilidade, costuma manter-se firme em um ponto de vista, e tem na constância uma de suas grandes virtudes. Um autor taurino que não surpreende por ser taurino, por exemplo, é o israelense Amós Oz. Afinal, por mais inteligente e talentoso que seja, Oz parece ter escrito basicamente o mesmo romance de umas dez maneiras diferentes. O pragmatismo pacifista e o bom senso com que ele sustenta suas posições políticas só reforçam esse ponto.

Já no caso do dramaturgo inglês, estamos diante de um aparente paradoxo. Sua obra artística é o contrário da insistência em um conjunto reduzido de temas e tipos, e não me lembro de qualquer característica evidente que remeta àquela predisposição ao monótono. Uma solução para o impasse é simplesmente dizer que a astrologia não tem fundamento algum, que esse negócio de signo não existe, por isso a discrepância; outra resposta é afirmar que a astrologia vai muito além do signo solar. Como não estou contente com nenhuma das duas, cabe-me defender a causa da taurinice shakespeariana.

De modo que vocês podem ficar tranquilos: não vou apelar para casas ou quadraturas ou asteroides para explicar a obra de Shakespeare por critérios astrológicos. Talvez fizesse isso em outro contexto, mas neste proponho-me a tarefa mais difícil de reduzi-la à expressão do um único arquétipo, ao invés de recorrer a um conjunto maior de planetas e pontos de seu mapa. A propósito, existe um asteroide chamado Shakespeare, o número 2985 segundo a Nasa, de modo que todo mundo tem Shakespeare no mapa. Em último caso, poderíamos até falar de Shakespeare a partir do Shakespeare de Shakespeare (em Aquário). No entanto, o procedimento nos enredaria num buraco de minhoca astrológico do qual não sairíamos sem graves sequelas para a tessitura do espaço-tempo.

Ficamos com a questão do signo solar, portanto. O primeiro problema que se apresenta é de como um taurino pôde escrever peças tão diferentes entre si e ter sido tão igualmente sensacional na comédia e na tragédia. A resposta mais imediata seria: para ganhar dinheiro. Este diagnóstico crítico seria consequência de uma abominável caricatura de Touro, mas eu não o descartaria de imediato. Shakespeare, de fato, ganhou muito dinheiro com as peças que escreveu. O historiador Stephen Greenblatt calcula que no fim da vida ele possuía investimentos suficientes para se aposentar na condição de cavalheiro, e inclusive identifica em diferentes momentos da obra shakespeariana os ecos de um “sonho de reabilitação”, financeira e social, que remeteriam sempre o episódio da falência de seu pai, um comerciante de luvas e objetos de couro cuja derrocada deixou a família no vermelho por logos anos.

Greenblatt argumenta que as necessidades materiais foram um forte estímulo para que Shakespeare estudasse o mercado teatral para obter êxitos de público com suas peças. Nesse sentido, e curiosamente, ele seria séculos depois ecoado por Anton Tchekhov, um autor russo que ganhou dinheiro com seus contos e sustentou a família com suas peças, tendo praticado a medicina por hobby durante boa parte da vida. Mas Tchekhov era aquariano, e não serve como referência comparativa nas demais questões que levantamos.  Quem também era taurino e ganhou uma grana com literatura foi o francês Honoré de Balzac – que, aliás, escreveu um dos parágrafos mais sensacionais sobre comida da história da literatura mundial.

Estou me referindo à descrição do restaurante Flicoteaux, no início da segunda parte de As Ilusões Perdidas, um romance inigualável quando se trata da representação dos perrengues amorosos, financeiros e culinários de um jovem interiorano em Paris. Seu protagonista, Lucien de Rubempré, está sempre endividado, enrolado e atarantado com as exigências materiais impostas à vida de um cavalheiro nos círculos elegantes onde transita. Às vezes, está faminto também, e por isso vai sorrateiramente ao Flicoteaux. Lá, tal como anunciado no boca-a-boca dos estudantes, os cartazes prometem e os garçons entregam refeições bem servidas, sem comedimento no tamanho dos potes de molhos e das cestas de pães, ainda que com zelo comedido no que se refere à qualidade dos ingredientes (ao contrário do que acontece em tantos bistrôs de Paris), fazendo de simples e pura quantidade o grande atrativo do lendário muquifo balzaquiano.

Mas Balzac não ficou só na representação dos insucessos deste ou daquele rapaz ambicioso. Estamos, mais uma vez, diante de um escritor taurino cujo espectro de representações da experiência humana atinge extremos bem distanciados, tanto em suas diferentes obras como também em questão de alguns minutos ou poucas páginas de um mesmo livro, nos quais vamos com frequência do sucesso à derrocada e da derrocada para a humilhação e da humilhação para a sorte grande, numa espécie de montanha russa que não parece ter nenhuma regularidade. Cabe observar, por outro lado, que, quando Balzac optou por dar um nome ao conjunto da grande maioria de seus escritos, esse nome foi A Comédia Humana. Portanto, creio eu, é no cômico que devemos buscar o pano de fundo sobre o qual se dão as intensas variações de humor, enredo e fortuna dos personagens de Balzac; ele é o que parece permanecer, apesar de todas as mudanças verificadas.

Vou argumentar que com Shakespeare acontece algo semelhante. Mas antes é preciso enfatizar que a comédia (e o modo cômico de ver o mundo) não tem necessariamente como ponto de partida uma inclinação para o riso e para a hilaridade. Ela pode surgir também de um bom e sólido commom sense, ou seja, uma segurança íntima e inalienável quanto à ação mais sensata em uma determinada situação, tão forte que parece decorrer não apenas de um conhecimento de códigos sociais, mas de um contato silencioso com própria natureza e seus ritmos permanentes. Isso quem tem é Touro, e sobre esse lado mais misterioso do arquétipo já escrevi com mais delongas em outra postagem (essa aqui). O ponto agora é que, embora a comédia seja assunto do âmbito do eixo Gêmeos-Sagitário, é em Touro que ela encontra sua base. É a partir dali que se expande em direção ao infinito.

Dante Alighieri, por exemplo, era geminiano. A gente supõe que ele escreveu a Divina Comédia com base no fato de que existe algo de engraçado no fato das pessoas serem condenadas a todo tipo de sofrimento no Inferno, e para Gêmeos isso pode mesmo fazer sentido. Porém, segundo o crítico Erich Auerbach, Dante não apenas foi responsável pela primeira grande obra em língua vulgar na tradição literária europeia, como também teve sua sensibilidade moldada pela cultura popular da época imediatamente anterior, quando os chamados mistérios medievais davam corpo às histórias bíblicas, trazendo-as para o cotidiano mais simples de camponeses e artesãos. Em uma análise na mesma linha, Auerbach afirma que Dante seria inimaginável sem a existência prévia de um São Francisco de Assis, líder do mais conhecido movimento de back to basics da doutrina cristã, cujo signo não sei, mas que, em suas relações imediatas com o mundo natural e o planeta Terra, foi sem dúvida alguma o mais taurino de todos os santos.

O que quero pontuar aqui é que aquele bom e velho senso comum presume certa simplicidade para servir como fundamento de uma visão cômico-cósmica da existência. Indispensável para conseguirmos ver o mundo como uma nau de loucos, ele não é exatamente o decoro das classes médias letradas e seus manuais de etiqueta, mas a convicção do trabalhador de que a vida não precisa ser mais do que um emprego honesto e um bom prato de comida, ou a certeza do camponês de que há o tempo da colheita e o tempo da semeadura. A partir daí, todo o resto é motivo de riso. A obra de Shakespeare está repleta de passagens nesse sentido, passagens tipicamente tauríneas, como no famoso diálogo entre os dois coveiros que preparam tumba de Ofélia. Fico com a impressão de que, se for para encontrar uma unidade na imensa variedade de suas peças, esse seria um bom caminho.

Stephen Greenblatt parece concordar comigo. Ele termina seu Will in the World (intitulado no Brasil Como Shakespeare se tornou Shakespeare, pela Cia. das Letras) com um capítulo chamado “O triunfo do cotidiano”, onde afirma que “Shakespare foi fascinado por ambientações exóticas, culturas arcaicas e personagens transcendentes, porém sua imaginação estava intimamente ligada ao familiar e ao íntimo. Ou melhor, ele adorava revelar a presença do comum em meio ao extraordinário (…) A imaginação de Shakespeare nunca adentrou os salões da metafísica, fechando as portas ao corriqueiro”. Ou seja, mesmo em seus voos mais altos ele nunca abandonou uma postura pé-no-chão, capaz de perceber o risível em quem anda com a cabeça nas nuvens, e trazer de volta à Terra aquele que se acreditaram ultrapassar os limites deste mundo.

Ao mesmo tempo, Greenblatt dá a entender durante todo o livro (ele mesmo feito de nuances e variações ensaísticas) que seu objeto de estudos nunca deixou de ser o filho do luveiro falido, que buscou no teatro não somente um de veículo para seus talentos artísticos, mas também um meio de vida, que tornasse possível fazê-lo recuperar a estabilidade perdida na juventude. É aqui que o arquétipo e o estereótipo de Touro se encontram. Pois acredito que, por um lado, a dedicação ao trabalho e a produtividade de Shakespeare no ofício da dramaturgia implicam aquela intimidade com os ritmos da natureza, e que suas incontáveis variações de estilo e de tema só foram possíveis por causa de uma cadência criativa permanente, cujas oscilações e preguiças ele sabia respeitar como só os taurinos sabem. Por outro lado, esse é justamente o ritmo de trabalho que o mantém a salvo das intensas flutuações da fortuna, uma necessidade para quem precisa entregar o trabalho no prazo e garantir o ganha-pão.

Lembro então de uma frase da escritora dinamarquesa Karen Blixen (que era de Áries, mas tinha a Lua e Mercúrio em Touro), quando ela disse que tentava “escrever um pouco todo dia, sem esperança e sem desespero”. Creio que essa é uma fórmula bastante correta e previsível para distinguir o tipo de passo que se espera de escritores taurinos, pelas razões expostas; curiosamente, ela me parece apropriada para descrever também autores de grandes obras cômicas. Nesse caso, estou tratando a comédia como algo capaz de englobar o trágico, um pouco como Joseph Campbell, em O Herói das Mil Faces, onde se lê que “a tragédia é o estilhaçar das formas e de nosso apego às formas, enquanto a comédia, livre e despreocupada, trata da indestrutível alegria da vida invencível”. Uma alegria e uma vida, portanto, que estão por trás das formas individuais que a tragédia vê sendo destruídas, e que as sustentam de maneira incansável e consistente. Como a linha do baixo se oculta sob as variações do grave numa canção, sem nunca deixar de estar lá.

Já o comentarista Northrop Frye lembra que as comédias de Shakespeare nunca perdem totalmente o vínculo com os festivais aos quais o termo komos faz referência. Ele se refere a ritos com que a restituição da fertilidade é aguardada e favorecida no início da primavera, o que torna os casamentos e finais felizes das narrativas cômicas um símbolo do florescimento anual que a natureza nunca deixa de garantir, desde que seu tempo seja respeitado. O “triunfo do tempo”, aliás, é o título do capítulo a esse respeito em A Natural Perspective: the development of shakespearean comedy and romance, que Frye publicou em 1965. Ele mostra que, implicado no prazer com os momentos de felicidade e abundância onde terminam as comédias, está a tristeza com os momentos de luto e de escassez em que elas se iniciam. O tempo sempre triunfa em reverter uma coisa em seu contrário, de tal maneira que sob essas mudanças se instala algo de invariável, que é ele próprio, o tempo.

“Neither hope, nor despair”: essa foi também, vale acrescentar, a fórmula que a filósofa feminista Donna Haraway encontrou para propor uma atitude frente ao pesadelo de uma tragédia climática em um de seus últimos trabalhos. O feminismo e o taurinismo têm vínculos que se explicam pelo próprio arquétipo, e Haraway pode até não ser taurina, mas o título de seu livro é. Staying with the Trouble dá uma boa ideia de como um realismo pragmático pode se articular com uma agenda ecológica pé-no-chão, que busca eficácia mesmo diante de um cenário apocalíptico, até porque o medo do apocalipse é uma questão de ponto de vista. “Nem a esperança nem o desespero” – ela afirma – “estão sintonizados com os sentidos, com a matéria consciente, com os rebentos da terra em sua massiva coexistência”. Ou seja: o cosmos e a Terra não padecem de preocupação nem de entusiasmo com o destino da humanidade, não porque sejamos desimportantes, mas porque tais sentimentos não estão entre seus hábitos. E os hábitos do cosmos e da Terra são os hábitos do tempo, que por sua vez são os hábitos de Touro, se quisermos encontrá-los em sua manifestação entre os humanos.

Nesse sentido, enfim, a própria fertilidade criativa de Shakespeare ao longo dos anos seria taurina em sua constância, fazendo do ritmo de trabalho que ele conseguiu manter a base sobre a qual surgiriam suas criações e improvisações mercuriais. Não que ele estivesse preocupado com a salvação do planeta, dadas suas aflições mais imediatas com o orçamento doméstico; mas, ao conceder sua atenção ao que é mais simples e concreto, Touro sem querer acaba se salvando de uma série de complicações desnecessárias, pelo menos do ponto de vista das necessidades do corpo, que precisa sempre cuidar antes daquilo que está ao alcance da mão. Shakespeare, de fato, nunca adentrou os portões da metafísica, mas ficou na entrada cobrando o ingresso de quem queria entrar. E, ao cuidar de seus negócios com eficácia, ele deu um bom exemplo de como devemos nos portar diante da catástrofe: sem esperança, sem desespero, e sem nunca esquecer de separar uns trocados para nos dias difíceis ir jantar no Flicoteaux.

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