escorpião, libra

O declínio do Império Escórpio-Líbrio

O jardim das delícias terrenas (detalhe, c. 1510) | Hieronymus Bosch

Os estudos acadêmicos na área de humanidades geralmente envolvem uma abordagem comparativa de seus objetos, acionando um jogo de semelhanças e diferenças em que esses vetores se alternam ou mesmo se confundem em algum momento da brincadeira. A literatura comparada, por exemplo, pode primeiro apontar distinções entre duas obras, para em seguida expor-lhes uma unidade de fundo; ou, então, notar pequenos desvios à norma ou à tradição em um corpus de textos similares, nos quais são notáveis as parecenças. De um modo geral, onde as familiaridades são evidentes, o crítico tende a buscar pontos de colisão; e, onde dois discursos mal dialogam, trata-se de buscar pontos de contato. Algo semelhante pode ser dito da signologia comparada, um ramo dos estudos astrológicos que eventualmente exerço aqui neste espaço, e ao qual será parcialmente dedicado também o presente texto, em uma perspectiva interdisciplinar, tal como exposto a seguir.

Estamos agora naquela época do ano em que o Sol deixa o signo de Libra e ingressa no signo de Escorpião. Este tipo de trânsito costuma servir para a explicação de diferenças entre os dois arquétipos do zodíaco, na medida em que é presumida uma mudança de energias através das quais as forças solares se manifestam. Tudo muito certo até aí, e de fato essa transição deve ser tão perceptível como, digamos, a mudança entre a época de Áries e a época de Touro. Mas, com base em descobertas recentes da arqueologia dos conhecimentos astrológicos, gostaria de propor agora um exercício a vocês. Vamos supor que não existissem Libra e Escorpião, não como signos isolados. Vamos supor que formassem um só arquétipo, depois dividido por conta de um movimento de separatista ainda a ser investigado pelos historiadores sígnicos, aos quais cabe a pesquisa de importantes aspectos políticos das relações interzodiacais.

Pois bem: é exatamente isso que aconteceu durante parte da antiguidade greco-romana, quando, entre finais de setembro e meados de novembro, durante um intervalo particularmente longo, entendia-se que o Sol percorria apena um signo. Este signo era Escorpião. Libra só veio a existir depois, ou, como já observei em outro texto: Libra até então nem era signo, e nem existiam librianos na época, exceto por alguns indivíduos muito à frente de seu tempo. Por outro lado, isso me faz supor que “Escorpião” tal como o entendemos hoje tampouco podia ser distinguido, pois suas características se confundiam com as do arquétipo com o qual constituía um só corpo na trama celeste, formando talvez uma espécie de escaravelho elegante e indeciso, ou uma balança vingativa com pinças cortantes no lugar dos pratos.

Mas essas soluções híbridas padecem de anacronismo. Estamos concebendo com recursos modernos aquilo que na antiguidade provavelmente era bem diferente. Para preservar o rigor acadêmico, deveríamos tentar imaginar o Librião (ou a Escobra) como uma verdadeira unidade, e não a mera adição de duas partes. Isso pode nos ajudar a compreender o movimento que culminou no divisionismo. Pois uma coisa é certa: diante dessa criatura, estaríamos lidando com uma espécie de força infalível nas artes do amor, cujos talentos para a sedução teriam um componente arcaico e instintivo que impediria o surgimento de qualquer tipo de dúvida em seu espírito de conquista. Pensem bem. Na época em que este monstro sagrado dos jogos amorosos desfilou sobre a Terra, você não tinha nenhuma chance se topasse com um deles em seu caminho. Ia direto para a alcova, atraído por algo que não dava para entender bem o quê.

Ficam poucas dúvidas quanto a saber quem é que realmente dominou o mundo naquele período histórico. Com intensidade diplomática e uso de inteligência nas guerras emocionais, creio que foi possível a criação de todo um império, embora ele tenha sido apagado dos mapas em razão dos movimentos subsequentes. Pois algo me diz que foi exatamente esse caráter de superpotência afetivo-sexual que resultou na bifurcação de Escorpião e Libra em dois países separados: imagino que o inconsciente coletivo tenha se dado conta de que o amor e o poder precisavam de representações arquetípicas distintas, do contrário corríamos o risco de passar o restante do tempo inebriados pela beleza e pelo mistério que coexistiam no espectro da junção entre ambos. Isso deve ter assumido a forma de uma decisão tomada nas mais recônditas catacumbas zodiacais, talvez sem a participação do próprio objeto da questão. Imagino os outros dez signos se reunindo escondidos e abrindo o jogo: isso tem que acabar. Ninguém aguenta mais tantas delícias. Alguém tem que por um fim nesses gozosos suplícios. Do jeito que está, não dá.

As más línguas vão dizer que quem convocou a cúpula com esse tipo de conversa foi Capricórnio (porque àquela altura ninguém trabalhava mais, estava todo mundo largando tudo para ir atrás dos lendários jardins onde reinava o mais refinado e intenso prazer, e até mesmo o senado deveria ser o cenário de agradáveis orgias). Muito justo, e eu como capricorniano tenho que reconhecer essa possibilidade. Porém, convenhamos: independente de quem deu início ao processo, uma ruptura de tal escala jamais teria acontecido sem a participação de inconfidentes de diversas naturezas, capazes de articular toda uma série de movimentos conspiratórios que culminariam na cisão do império Escórpio-Líbrio. Dividir para conquistar, suponho que tenha sido o lema da insurreição. Ou dividir para não ser conquistado, para sempre.

A propósito (vou me permitir aqui um parêntese interdisciplinar de fôlego): quando digo “convenhamos”, não estou apenas forçando uma cumplicidade com o leitor por meio de um truque retórico. O zodíaco tal como o conhecemos é uma convenção, do latim conventio, que significa assembleia, reunião, e acordo, contrato. Isso, por um lado, reforça a ideia de que o fenômeno estudado ganhou corpo em uma espécie de Convenção de Viena astrológica; por outro lado, faz lembrar que divisão da faixa do elíptico solar em doze espaços de igual tamanho é de fato uma convenção, no sentido de ter sido uma resultante de definições e disputas de agentes históricos, e não uma conjunto de leis recebidas dos céus e registradas em tábuas sagradas.

Isso faz com que sua disposição esteja sujeita a diferenças não somente no tempo, como também no espaço: na Índia, por exemplo, utiliza-se hoje o zodíaco sideral, bem mais engastado nas posições das constelações a que os nomes dos signos fazem referência. Já o zodíaco que utilizamos no ocidente desde antiguidade greco-romana é o tropical, vinculado às constelações de modo mais indireto e simbólico, e que nem tenta enganar na hora de parecer que é uma evidência do universo. O acordo tácito que resultou nos símbolos e casas zodiacais que usamos hoje teve seu momento decisivo justamente no século I a.c., em parte por obra e sugestão de Ptolomeu, em parte consolidando tradições advindas da Mesopotâmia e da Pérsia.

Quanto à explicação de como as pessoas acabam ainda hoje se comportando de acordo com as características do signo sob o qual nasceram nesse esquema arbitrário definido dois mil anos atrás, isso deixo para vocês que acreditam nesse negócio de signo. Porque eu mesmo não “acredito”, para ser sincero. Estou tão envolvido no jogo, ele faz tanto sentido para mim, que não se trata de uma questão de crença, mas de experiência. Aceito minha posição capricorniana no plano zodiacal um pouco como aceito minha nacionalidade brasileira no plano internacional, até certo ponto por ter sido condicionado pela cultura e pela política, mas também por ter confirmações diárias de que atuo no mundo como brasileiro e capricorniano em diferentes esferas da existência. Por mais que em ambos os casos estejamos falando de construções convencionais, realizadas no transcurso da história humana, que de maneira alguma estão inscritas na natureza.

É verdade, entretanto, que os limites territoriais entre as nações podem ser razoavelmente explicados por movimentos históricos onde eles começam e terminam. No caso dos signos, a coisa parece ir um pouco além, e vir de um momento anterior ou de uma dimensão paralela àquilo que concebemos como a História da humanidade, em um plano temporal linear. Em resumo, e como eu vinha dizendo um tanto metaforicamente, podemos sim imaginar algo na natureza humana – ou na natureza do cosmos, manifestando-se por meio de humanos – que optou por fazer as distinções astrológicas. Podemos sim supor uma razão segundo a qual Escorpião e Libra deveriam existir separadamente. Porém, a melhor metáfora para isso talvez não seja a da nacionalidade.

Pois, além de serem resultado de um processo histórico, as nações, tal como existem hoje, representam uma espécie de destino inescapável para o indivíduo que brota em seu território. Ou, como afirmou o escritor Jorge Luis Borges a respeito de si próprio e de seus compatriotas: “Ser argentino é uma fatalidade”. Quer dizer que, se você nasce em tal e tal lugar, e em tal e tal momento, você logo terá imputada à sua identidade (quer queira quer não) um determinada rotulagem que te acompanhará em todos documentos que assinar no decorrer da vida. A relação do sujeito com sua nacionalidade pode nem ir muito além disso, mas dificilmente fica aquém: você precisa ter uma, e aquela que ficou definida por motivo do território onde ocorreu seu nascimento acaba sendo uma solução razoável, na maioria dos casos.

Por outro lado, nunca vi Borges falando que ser virginiano era um destino incontornável, com o qual ele teria que lidar de um jeito ou de outro. Isso por dois motivos. O primeiro, mais evidente, é que o fato de você ser de Gêmeos ou de Leão ou de Peixes muda pouca coisa nos trâmites práticos da vida; normalmente, não te impedem de entrar nos Estados Unidos simplesmente porque o país cortou as relações diplomáticas com Sagitário. Assumir um signo e incorporá-lo à sua identidade pessoal é uma escolha, por mais que você não possa escolher qual signo, assim como não pode escolher ser italiano. A diferença está no fato de que uma nacionalidade, no mundo de hoje, você tem que ter. Signo é só para quem quer mesmo, o que já uma boa margem de manobra, em termos de liberdade individual.

O segundo motivo, mais importante, é que Borges não era apenas virginiano. Ele tinha o Sol em Virgem, é verdade, mas tinha também a Lua em Áries, Marte em Libra e o Ascendente em Câncer, entre vários outros componentes, tão inescapáveis quanto ignoráveis em comparação com seu signo solar. Todos somos assim, do ponto de vista da astrologia: uma combinação única e irrepetível de um conjunto de forças diferentes e dissonantes, que, ao serem mobilizadas por variados canais de manifestações em nós mesmos, acionam processo ininterrupto de conflito e harmonização, cooperação e disputa – pois sempre que um equilíbrio é alcançado de um lado da balança de poder, outro surge e exige nossa atenção em uma área diferente da vida.

A astrologia, portanto, decorre de uma cosmovisão democrática e politeísta de mundo, em que nosso corpo e nosso espírito se tornam o palco dos encontros e colisões entre os deuses, conhecidos também por meio da analogia com os corpos celestes e seus movimentos. Por mais que a gente tente tomar o controle desse jogo, ninguém – nem mesmo nosso Sol, nosso ego – está em condições de assumir poderes imperiais sobre o restante das peças do tabuleiro.  Daí chegamos a uma conclusão muito semelhante à de Carl Jung em seu Símbolos da Transformação, quando fala da coexistência de diversos arquétipos em uma só experiência individual: “O acordo com a libido é hipótese alguma é um simples deixar-se levar, pois as forças psíquicas muitas vezes não têm uma direção única e muitas vezes até se dirigem umas contra as outras (…) Colisões, conflitos e enganos são inevitáveis”.

Ou seja: é como se o mapa astral de cada um de nós representasse uma espécie de mapa-múndi individual, no qual as nações não são externas ao indivíduo e maiores do que ele, mas sim agentes internos em confronto e diálogo, que ao mesmo tempo encontram equivalência naquilo que conhecemos de mais afastado de nós (as estrelas). Por isso não temos um único signo (ou mesmo de dois, considerando o ascendente), como temos só uma ou duas nacionalidades. Somos uma determinada composição de todos os agentes dessa geopolítica fantástica, com suas negociações multilaterais, órgãos multinacionais, localismos exacerbados e expatriados em trânsito, sem que identificação com um só desses fatores seja possível. Mas somos também uma possibilidade única de coordenação e acordo entre eles, pois, como afirmou o próprio Borges naquele mesmo texto que mencionei antes, “nosso patrimônio é o universo”.

Voltando então ao problema de onde partimos, fica evidente que, se durante um período da história surgiu a ameaça de que um signo adquirisse supremacia sobre os outros, ela precisou ser evitada por um movimento de dissipação de seu poderio imperial. Esse é um modo de entender os acontecimentos. Outro é supor uma capacidade do próprio espírito do cosmos de localizar e corrigir as carências que identifica em sua manifestação humana. Ou seja: se houve um momento específico em que a alma decidiu que precisava de Libra para representar um faixa importante do prisma de sua experiência, é porque realmente estava faltando um símbolo para dar conta dessa parte de sua cartografia interna, que calha de ser também a cartografia dos céus.

Não restam dúvidas, hoje, que, se Libra não existia antigamente, devia fazer uma falta danada. No final das contas, Libra é sobre equilíbrio – mas é também sobre a oposição, sobre a percepção da oposição, a compreensão da oposição, isto é, das dualidades que atravessam o espírito e criam separações onde a unidade é só aparência. O genuíno amor libriano é uma tentativa de aproximação entre o que é diferente e distante, não um espelho narcísico onde só importa o encontro com o igual – mas para isso é preciso um olhar agudo para a dessemelhança. No jogo comparativo que a astrologia propõe, o eixo libriano é o do afastamento, que confere uma nova perspectiva ao olhar, e cria chances de negociação onde a pressuposição de uma unidade levaria à catástrofe. Na falta desse afastamento (e dos questionamentos que ele proporciona), supõe-se que facilmente rumávamos em direção ao abismo sem grandes hesitações.

Assim, se Libra surgiu de uma costela de Escorpião, pode muito bem ter sido porque um mergulho nas profundezas da psique revelou verdades que tornaram necessário esse tipo de distância. O jardim de delícias que imaginei ao supor a fusão dos dois signos pode ter se tornado um inferno, e só Deus sabe como deter todo o poder do mundo nas mãos é no mínimo um transtorno, talvez uma tortura. É verdade também que o “inferno” da lenda tem lá suas qualidades quentes e úmidas, e que sem conhecermos o caminho para esse lugar nossa experiência estaria igualmente destituída de uma faceta radicalmente transformadora. Onde Libra trata do discernimento intelectual, Escorpião sugere uma fusão corporal, gerando uma tal concentração de energias que deve mesmo resultar em uma espécie de orgasmo, que é sempre um pequeno apocalipse.

Enfim, parece que até mesmo o fim do mundo é uma experiência possível nos mundos que carregamos dentro de nós. Por isso é possível desdobrar esses raciocínios comparativos em direção ao infinito. Tanto melhor que seja assim, e que tenhamos todos esses signos e arquétipos para enriquecer a vida com símbolos e histórias e narrativas, assim como a comparação interna entre eles enriquece nossa compreensão de cada um. De semelhanças e diferenças se fazem todas as abordagens comparativas: e precisamos de Libra e de Escorpião para conhecer as separações e fusões possíveis que existem dentro de nós. Por isso nos livramos de seu domínio, embora tenha ficado uma doce lembrança de quando éramos subjugados por seus deliciosos prazeres.

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