Todos os signos

Filmes e signos

Amor à Flor da Pele (2000) | Dir. Wong Kar-Wai

Deve ser saudade de ir ao cinema e sentir que o tempo que passei lá dentro mudou ou enriqueceu minha percepção do mundo lá fora: daí que decidi fazer uma lista afetiva de filmes e signos. As associações se baseiam mais na lembrança do impacto que os filmes tiveram em mim do que em uma avaliação crítica deles, embora uma coisa esteja vinculada à outra, naturalmente. Entraram basicamente títulos dos anos 1990 em diante, porque foram os que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez no cinema. Acho que não incluí quase nenhum filme recente porque sou capricorniano, e as coisas para mim precisam resistir ao teste do tempo para consolidar seu valor. São três filmes em cada categoria. Ficou assim:

ÁRIES

Começando com Um Céu de Estrelas (dir. Tata Amaral, Brasil, 1996). Uma pancada. Rápido, forte, áspero. Lembro de ter passado o resto do dia – e da vida – meio atordoado com esse filme.

Algo semelhante aconteceu com o húngaro 4 meses, 3 semanas e 2 dias (dir. Cristian Mungiu, 2007), que se relaciona também com o arquétipo de Áries através do tema das intervenções cirúrgicas e das decisões que precisam ser tomadas rapidamente.

Mais um filme que para mim foi pura adrenalina e coração batendo a mil o tempo inteiro – embora eu tenha esquecido de todos os detalhes da história poucos minutos depois de sair do cinema, o que também pode ser uma qualidade – foi Os Infiltrados, de Martin Scorsese (2006). Já na sequência de abertura dá para perceber o que vem pela frente. Nada mais ariano do que começos fortes e impactantes.

TOURO

Começando com Amor à Flor da Pele (Wong Kar-Wai, 2000). Uma lambida. Lânguido, lento, sensual. Com as texturas macias de cortinados orientais, os odores de chás fumegantes e pratos de macarrão compartilhados, as cores quentes de uma paixão tão intensa quanto resignada. Touro, assim como esse filme, é sobre o apego às coisas desse mundo, e, portanto, sobre a perda das coisas desse mundo também.

Outro que me pareceu falar disso – mas por via negativa, por assim dizer: de um modo árido, feito de poeira e escassez – é Gosto de Cereja (1997), do iraniano Abbas Kiarostami. No caso, tem ainda o fato de que, quando diferentes personagens tentam dissuadir o protagonista de tomar uma decisão extrema, o argumento mais importante que eles encontram tem a ver com comida.

Por falar em escassez, é igualmente taurina aquela compaixão que a gente sente diante da luta diária por um prato de comida retratada nos filmes do Ken Loach e dos irmãos Dardenne, por exemplo. Mas o filme que na saída do cinema me deixou tocado pela primeira vez com esse tema foi o francês Germinal (dir. Claude Berri, 1993).

GÊMEOS

Pulp Fiction (Quentin Tarantino, EUA, 1994), pela engenhosidade do roteiro, pela irônica ambivalência entre a pancadaria e a leveza, e por alguns dos diálogos mais deliciosamente geminianos da história do cinema (“Le Big Mac”).

A aguda inteligência e a despretensiosa malandragem de Gêmeos faz parte também do prazer de assistir o argentino Nove Rainhas (dir. Fabián Bielinsky, 2000), onde a astúcia mercurial e trambiqueira do personagem de Ricardo Darín recebe a recompensa que a astúcia de Mercúrio vive recebendo nas lendas gregas.

Tem também O Grande Lebowski (dir. Ethan e Joel Cohen, 1998). O lendário “the dude” talvez seja sagitariano, quanto ao signo dele eu tenho dúvidas, mas a sensação que tive ao sair do filme foi uma irrestrita hilaridade diante do amplo espectro de patetices que existe no âmbito do humano. Uma sensação geminiana.

E, como Gêmeos não é muito de seguir as regras do jogo, vou abrir uma exceção aqui para outro filme, porque não dá para falar de malandragem, esperteza e irreverência sem lembrar de O Auto da Compadecida (dir. Guel Arraes, 2000). Se João Grilo não é geminiano, eu não sei quem é.

CÂNCER

É canceriano o poderoso matriarcado do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, assim como a sensação de uma inquebrantável delicadeza – ou de uma fortaleza estilhaçada pelos mais fortes petardos emocionais – que fica de filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe (1999).

Outro especialista em tratar de assuntos familiares, no caso com uma objetividade ao mesmo tempo desencantada e encantadora capaz de deixar qualquer um em prantos, é o inglês Mike Leigh. Dele fico com Agora ou Nunca (2002).

Mas, como também a memória e o passado são temas do arquétipo de Câncer, me lembrei aqui de uma das primeiras vezes que fui ao cinema para ver um filme de adulto, em 1988. O filme era Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore), que assisti no extinto Cine Pathé de Belo Horizonte (isso em si já tematiza a dimensão canceriana da vida), e foi também a primeira vez que saí de uma sala de cinema chorando. Aliás, só de falar nesse filme percebo que tem alguma coisa em mim chorando por causa dele até hoje.

LEÃO

Acho que fui rever umas três ou quatro vezes no cinema o Buena Vista Social Club (dir. Wim Wenders, 1999). Quem diria que o diretor de outros filmes tão cinzentos e melancólicos ia ser citado na luminosa sessão leonina dessa postagem. Méritos para seu amigo Ry Cooder, e, claro, para os mais que solares músicos cubanos que são os protagonistas do documentário musical.

Quase Famosos (dir. Cameron Crowe, 2000) entrou na lista para fazer justiça à vontade de deixar-o-cabelo-crescer-montar-uma-banda-de-rock-e-sair-em-turnê-pelo-mundo que dá na gente mesmo quando a gente assiste um filme sobre um fracasso. Afinal, eles chegaram quase lá, e quem nunca teve o desejo leonino de sentir pelo menos o gostinho que eles sentiram do aplauso das multidões?

Outro filme sobre o universo das artes e espetáculos que me emocionou muito foi o francês Um Lugar na Plateia (dir. Danièle Thompson, 2005). Sobre esse estou devendo até uma postagem à parte, então sem mais comentários por enquanto, deixo o link aqui quando fizer.

VIRGEM

Para estimular a forma virginiana de sentir e experimentar o mundo recomendo o israelense/egípcio A Banda (Eran Kolirin, 2007). Um filme curto, modesto e perfeitamente executado, mas construído sobre uma tristeza fundamental com os males irremediáveis da humanidade. Lembro de tê-lo assistido num cinema de subsolo em Buenos Aires, e o fato de o metrô passar por perto e estremecer a sala de vez em quando só reforçava a percepção dos silêncios que atravessam o filme e a cidade onde ele acontece.

Na mesma linha, tem também o uruguaio Whisky (dir. Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella), que me fez imaginar Montevidéu como uma cidade virginiana; quando estive lá essa sensação só se reforçou.

Enfim, é engraçado que por algum motivo essa categoria de Virgem traga títulos curtos e despretensiosos, que têm como pano de fundo paisagens latino-americanas: a última delas é a dos cenários interioranos e metalúrgicos do brasileiro Arábia (dir. Affonso Uchôa e João Dumans, 2017). A humildade é uma virtude virginiana, e acho que poucos filmes são capazes de verdadeiramente exercitá-la em sua linguagem sem deixar entrever uma arrogância reprimida. Esse consegue.  

LIBRA

Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003). Um filme sobre o amadurecimento que em diferentes idades é alcançado por meio de experiências que envolvem o encontro com o outro, a interação com o outro, as tentativas de conhecer e compreender o outro. O modo cômico da narrativa – naquilo que envolve o gestual hesitante, os erros de tradução, a confusão dos códigos de etiqueta de diferentes culturas – é também caracteristicamente libriano.

Curiosamente, o trabalho de adaptação entre diferentes linguagens entra nesse espectro, e aqui entra na lista a adaptação de Razão e Sensibilidade (1995) para o cinema, com roteiro de Emma Thompson, direção de Ang Lee. O tipo de filme que, como a obra de Jane Austen, consegue nos tornar mais atentos a detalhes mais que decisivos em nossos hábitos e improvisos comunicacionais.

Encerrando a categoria, com uma preferência bastante pessoal, temos o dinamarquês Corações Livres (dir. Susanne Bier, 2002). Um filme que me fez entender melhor o papel de Libra, o papel de Vênus e sobretudo o papel do arquétipo da deusa Juno nas nossas vidas. Escrevi sobre isso nessa outra postagem aqui.

ESCORPIÃO

Escorpião é sobre experiências que se a gente tivesse escolha a gente preferia evitar, como a morte e os impostos. Em Encontro Marcado (Meet Joe Black, dir. Martin Breast, 1998), Brad Pitt encarna ambas, ao personificar ao mesmo tempo a própria morte e um auditor da receita. “Death and taxes”, ele diz durante uma reunião, e nessa hora a gente entende porque essas coisas se reúnem no arquétipo de Escorpião.

A propósito, Escorpião é também sobre ir ao inferno e aprender o caminho de volta, ou pelo menos ter um vislumbre dele; há vários filmes que encenam esse roteiro muito bem, e fica difícil escolher um, Mas pelo critério de impacto pessoal fico com A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, dir. Krzysztof Kieslowski, 1993), com a memorável atuação de Juliette Binoche.

Escorpião, enfim, é onde ficam borrados os limites entre a justiça e a vingança. Mais uma vez temos o problema de fazer uma escolha, mas certamente entre os melhores nessa linha está Batman: o Cavaleiro das Trevas (dir. Cristopher Nolan, 2008).

SAGITÁRIO

Underground: mentiras de guerra (dir. Emir Kusturica, 1995), é um filme sérvio de extravagâncias e excessos que têm como pano de fundo a movimentada história do século XX em um pedaço do oeste da Europa. É também um filme festivo: a gente sai do cinema querendo ter uma bandinha de metais correndo atrás da gente para fazer a trilha sonora da nossa vida.

As Invasões Bárbaras (dir. Denys Arcand, 2003) é mais quieto e melancólico, mas igualmente atravessado por temas sagitarianos como as ideias filosóficas, as ideologias políticas e as filosofias de vida.  

Na mesma linha, entra na lista também Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci (2003), que carrega o ar de certa imaturidade tipicamente sagitariana, com suas vastas emoções e pensamentos imperfeitos, envolvendo sempre o legítimo desejo por uma vida menos ordinária.

CAPRICÓRNIO

Capricórnio é sobre o encontro de nossas expectativas e desejos com as realidades da vida; é também sobre a passagem do tempo e o amadurecimento. Portanto, prêmio para o conjunto da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (dir. Richard Linklater, 1995/2004/2013).

Capricórnio é também sobre a satisfação de ter um plano bem pensando em executá-lo na prática com sucesso: prêmio para O Plano Perfeito (dir. Spike Lee, 2006).  

Podemos completar a lista com qualquer filme de Clint Eastwood na linha do macho-conservador-que-descobre-que-tem-sentimentos. Gran Torino (2008) é um exemplo. Talvez nem sejam grandes filmes, mas sempre senti que a experiência de que tratam é arquetipicamente capricorniana.

AQUÁRIO

Primeiríssimo prêmio para Happy Feet (dir. George Miller, 2006), não só porque é sobre o livre exercício da diferença como caminho para a igualdade, ou sobre como é ser abduzido por alienígenas e ir parar no planeta de uma espécie diferente da sua, ou porque tem o Sidney Magal fazendo a voz do pinguim Amoroso (e que merecia um Oscar por isso), mas também porque meu filho que tinha cinco anos na época estava sapateando no chão do cinema quando terminou a sessão.

Outro filme de sensações que eu amei muito e assisti no cinema mais de uma vez foi A Chegada (dir. Denis Villeneuve, 2016). Trata-se de uma história aquariana pelas exigências que faz ao nosso intelecto humano na compreensão de outras lógicas que parecem ultrapassar nosso entendimento, pela condição de deslocamento que a protagonista se vê colocada perante o restante dos seres humanos a partir do momento em que passa a falar a línguas dos extraterrestres, a pela ressonância do mito aquariano de Prometeu, que entregou o fogo dos deuses à humanidade.

No entanto, as tendências ao mesmo tempo revolucionárias e igualitárias desse signo têm também um lado obscuro que me faz acreditar que vamos ainda ver o melhor o e pior que ele tem a nos oferecer nos próximos anos, na medida em que a ênfase dos trânsitos planetários deixar Capricórnio para trás, e entremos definitivamente na Era de Aquário. Isso vale também para o cinema. Coringa (dir. Todd Philips, 2019) pode também não ser um filme excepcional, mas para mim é um ponto de partida na tematização dos pesadelos mais específicos de nossa vida política contemporânea. Falei um pouco desse assunto (a partir da dimensão arquetípica do personagem interpretado por Joaquim Phoenix) nessa postagem aqui.

PEIXES

Sonhos, de Akira Kurosawa (1990), que vi no cinema aos onze anos, e cujas imagens se confundiram desde então com meus próprios cenários oníricos, em uma via de mão dupla: quando revi o filme muitos anos depois, havia sonhos que me lembrava de ter tido que eram na verdade cenas do filme, enquanto havia cenas que eu acreditava ter visto no filme que tinham sido na verdade sonhos meus mesmos. Uma experiência pisciana, sem dúvida.

O Doce Amanhã (dir. Atom Egoyan, 1997) é um filme canadense sobre a culpa e a libertação da culpa de uma personagem que sobrevive a um acidente; é também conhecer os limiares entre o aqui e a acolá, e hoje parece ser pouco lembrado, recomendo muito.

Por fim, quanto à capacidade oceânica que Peixes tem de sentir toda o sofrimento e a alegria e a tristeza e a dor e a beleza do mundo ao mesmo tempo, me lembro de ter sentido algo assim durante a breve horinha que dura o documentário brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (dir. Marcelo Masagão, 1999). Isso se repetiu em cada minuto de todas a horinhas em que revi o filme tantas vezes depois, mas foi ao sair do cinema, na primeira vez, que tive a experiência pisciana de sentir transbordando em mim um amor mais infinito pela humanidade inteira de todos os tempos.  

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