astros, Todos os signos

A viola e o arpão

Giorgio de Chirico |Enigma da chegada da noite (c. 1970)

Mulher de Porto Pim é o nome de um livro e de um conto do escritor italiano Antonio Tabucchi. No conto, um velho cantor açoriano conta sua história para um turista num fim de noite em um bar melancólico. Em determinado momento da narrativa, ele, ainda jovem, abandona seu pai, um pescador de baleias com quem crescera após a morte da mãe; o motivo desse abandono é a tal mulher de Porto Pim, por quem ele sente um fascínio súbito e apaixonado. Ao descrever a cena na qual passa em casa para pegar suas coisas antes de ir viver com ela – sob o olhar do pai, que o vê deixando o arpão e levando uma viola –, o narrador diz: “Você sabe o que é a traição? A traição, a verdadeira, é quando você sente vergonha e quer ser um outro. Eu quis ser um outro quando fui me despedir de meu pai”.

O detalhe do arpão é importante. Antes, ele fala sobre como os dois costumavam sair juntos para pescar baleias, e fica implícita a expectativa do pai de que o filho seguisse no mesmo ofício. Daí a traição a que se refere: não se trata apenas do abandono do lar e do velho taciturno, mas de toda uma ideia do tipo de vida ao qual o filho devia sua fidelidade. O gesto de carregar a viola indicava, por sua vez, que um cenário completamente diverso se descortinava para o restante da sua vida. Que a história seja contada num bar e por um cantor de bar diz muito sobre o que se seguiu. O filho do pescador se tornou o artista boêmio que narra a história. Seu destino teve um episódio trágico, mas ele não parece arrependido de ter seguido esse percurso, exceto, talvez, quando destaca a ambivalência dos sentimentos na cena que descrevi.

É o tipo de experiência que remete aos pares de opostos complementares do zodíaco, e às mil maneiras como manejamos seus atributos conflitantes no decorrer da vida, quando, por algum motivo, a dinâmica de um desses pares se torna relevante para nós. Mais especificamente, em termos astrológicos, seria legítimo dizer que foi naquele instante de pegar a viola que o narrador se decidiu por um salto à Cabeça do Dragão. Estou me referindo ao Nodo Norte da Lua, também conhecido por Rahu na tradição védica. Trata-se de um ponto calculado de acordo com o desenho da elipse lunar, e que, como os planetas, transita pelos 12 signos do zodíaco, com a diferença de carregar sempre consigo o ponto exatamente oposto, isto é, a Cauda do Dragão (ou o Nodo Sul, Ketu para a astrologia indiana). Se você gerar seu mapa no site astro.com, o Nodo Norte vai aparecer como “True Node” na versão em inglês, e como “Nodo Verdadeiro” em português (caso seja alterada a configuração da língua no canto superior direito da tela), com o Nodo Sul situando-se por consequência no mesmo grau do signo oposto complementar de onde ele se encontra.

Daria para ficar aqui enfileirando detalhes técnicos e nomes exóticos indefinidamente. Mas, quando se trata da posição desses pontos no mapa natal de um indivíduo, a ideia costuma ser mais ou menos a mesma: o Nodo Sul é a experiência já acumulada por sucessivas gerações, é aquilo que se repetiu à exaustão, é aquele conjunto de qualidades ou hábitos que parecem um lugar natural para a pessoa. É também onde encontramos traços de identidade mais imediatamente disponíveis para nós, os papeis sociais que tendemos a ocupar com mais facilidade, ou que acreditamos ter o dever de cumprir. O Nodo Norte são as experiências novas que teremos a oportunidade de viver, talentos imprevistos que serão desenvolvidos e papeis que podem ser ocupados – se assim o quisermos – mesmo que a princípio a gente não se veja de maneira alguma naquele lugar.

Como, invariavelmente, esses pontos se localizam em signo opostos do zodíaco, a posição de um sempre implica a do outro. No caso do narrador do conto de Tabucchi, por exemplo, eu apostaria que ele tem o Nodo Norte em Leão, por ter ganhado a vida tocando um instrumento, se apresentando em botequins, sentindo por esses ambientes uma atração e uma vinculação que estavam em aberto desacordo com seu passado e sua herança familiar. Desse modo, ele teria o Nodo Sul em Aquário, o que pode muito bem estar relacionado às exigências de fidelidade a uma corporação de iguais, no caso a dos pescadores, além de presumir uma capacidade de dedicação a esforços coletivos bastante característica de algumas expressões aquarianas, um signo tradicionalmente regido por Saturno. Essa posição – Nodo Sul em Aquário, Nodo Norte em Leão – é uma das que trazem com maior evidência uma possível contraposição entre o trabalho e o prazer no mapa de um indivíduo. Daí o instante da escolha entre o arpão e a viola; daí o salto a que me referi.

Analisar a posição da cauda e da cabeça do dragão em um mapa é desdobrar esse tipo de raciocínio de acordo com as variações dos arquétipos zodiacais e algumas outras variáveis (as casas onde se encontram, os planetas com que realizam aspectos etc.). Às vezes, a identificação dessa dinâmica é mais imediata, e até mesmo anedótica (sobretudo com as expressões do Nodo Sul); às vezes, se dá com qualidades mais singulares e atributos bastante originais (sobretudo no Nodo Norte). Tudo isso pode se tornar mais evidente em determinadas idades e trânsitos regulares (com frequência por volta dos 36, 37 anos, às vezes já aos 18 ou 19). De todo modo, eles criam um eixo que nunca deixa de funcionar como uma espécie de balança na vida de cada um. Sendo assim, haverá sempre momentos em que ela poderá pender mais para o passado, para o já conhecido, para as gerações que nos antecederam, as encarnações em que já percorremos a história de um arquétipo sucessivas vezes. Foi o que aconteceu comigo ultimamente.

O que vivi nas últimas semanas foi uma das experiências mais estranhas da minha vida psíquica. Netuno esteve praticamente estacionado durante um tempo incomum na região de meu Nodo Sul em Peixes, enquanto eu era atravessado por sensações e lembranças de um passado que parece ultrapassar minha vida pessoal, embora com frequência seja também representado por episódios dela. Houve ao mesmo tempo notícias concretas e difíceis que tornaram presentes algumas questões relacionadas ao tema, e cujas demandas contribuíram para que eu tenha deixado essa página de férias por uns tempos. Netuno sempre exige uma pausa em alguma coisa na vida. Mas é sobretudo sobre o sentimento impreciso e netuniano de uma súbita imersão nas águas de meus ancestrais piscianos que eu gostaria de falar, pois sinto também que esse é um momento de honrar meus antepassados de uma maneira que nunca fiz antes – para então, talvez, traí-los mais uma vez, quiçá definitivamente.

Uma maneira de exemplificar esse fenômeno é falando um pouco do meu gosto musical. Pois fui precocemente apresentado e cativado por toda uma tradição do desespero e da derrota cantada em vozes anglófonas roucas e embriagadas. Era capaz de virar noites inteiras sozinho ouvindo Tom Waits e enxugando garrafas de conhaque barato, depois de ter rodado os bares do centro de Belo Horizonte como que em busca do coração roto de uma noite de sábado, que eu nunca encontrava. Aquilo para mim era um lugar natural, de certa forma espontâneo, mas só de certa forma mesmo: pois eu estava também espontaneamente encenando aquele personagem. Ou melhor, eu estava representando, também no sentido de que, ao agir daquele jeito, eu sentia ser o representante de toda uma congregação de gente fodida e fracassada que formava um clube secreto que já existia antes de mim.

Reparem, não estou falando que Peixes tem uma relação direta com o fracasso. O que está em jogo aqui os “personagens” piscianos, que muitas vezes podem parecer losers arquetípicos, mas exatamente porque nesse signo as réguas que costumamos usar para medir sucessos mundanos perdem toda a validade. E, de modo bastante concreto em alguns aspectos – figuradamente em outros –, sempre soube que venho de uma linhagem de gente que por algum motivo viveu às margens do mundo social regular, por terem renunciado a ele ou por terem se tornado incapazes de existir funcionalmente em seus limites. Estamos falando de monges, loucos, doentes e bêbados. No meu caso, sobretudo bêbados. Em resumo: venho de uma linhagem de desajustados, e o fato de ter me encaixado nas estruturas desse mundo – ao encontrar trabalhos que me deram satisfação, ao executar serviços que me deram alegria, e ao adotar rotinas que me restituíram a saúde, através do Nodo Norte em Virgem, signo oposto a Peixes -, é o que tem feito com que eu me sinta um verdadeiro traidor dos meus ancestrais que vieram do mar.

Não se trata apenas de maturidade, ou de uma adoção compulsória de hábitos saudáveis por motivo de comprometimento do fígado. Bom, deve ter um pouco disso também. Mas o Nodo Norte se manifesta com um frescor que não tem muito a ver com os constrangimentos da idade. Agora, vamos supor que fosse o contrário. Um Nodo Norte em Peixes dificilmente vai se manifestar de modo tão anedótico quanto meu Nodo Sul pisciano; ele provavelmente vai aparecer para a pessoa em uma versão mais individualizada (mesmo que seja com uma relação frequente, porém mais saudável, com os entorpecentes), ou no mínimo menos atolada nas sarjetas da vida. Nesse caso, o que se apresentaria com maior evidência na primeira etapa de uma biografia seria a Cauda do Dragão em Virgem, talvez com as famosas manias de limpeza e paranoias de organização que criam ambientes imaculados, exatamente opostos aos quartos atulhados de cinzeiros sujos onde que costumava acordar na minha adolescência. Mas o ponto principal aqui não é que a pessoa tenha as características de determinado signo, e sim a maneira como ela se sente devedora de sua fidelidade a um determinado grupo ancestral, vinculada a ele de modo atávico, mesmo quando esse grupo é um bando de doidos e tontos.

Uma pessoa com o Nodo Sul em Virgem, portanto, pode vir de uma linhagem de funcionários públicos ou auxiliares da área de saúde para os quais a humildade na prestação de serviços regulares é um valor fundamental. Essa pessoa vai encontrar o lado pisciano da vida através de um convite para o ócio e para o descanso, uma libertação da roda cármica de tarefas e burocracias e pacientes – mas dificilmente vai perder a sensação de estar em débito com as gerações anteriores de sua estirpe, que tanto trabalharam em favor do bom funcionamento da sociedade e do cosmos. Já uma pessoa com o Nodo Sul em Touro pode muito bem se sentir rebento de um ambiente camponês ou proletário, e valorizar a simplicidade das sensações vitais, dos frutos da terra e do trabalho manual. Mas ela pode também vir a ter uma oportunidade de lidar com o lado mais obscuro e intrincado da vida psíquica (Nodo Norte em Escorpião), demonstrando habilidades que não esperava ter para desatar esses nós.

Tenho uma amiga, com Nodo Sul em Sagitário, que agora – aos 35, 36 anos – está percebendo que não precisa de contar com o respeito do mundo acadêmico para cumprir seu destino. Está descobrindo uma existência independente do reconhecimento universitário já recebido em sua família, porque ela própria é capaz de valorizar outras coisas, e pode muito bem viver sem isso. Com essa posição, algo semelhante acaba acontecendo com alguém que se sinta vinculado a uma religião ou grupo religioso: o Nodo Norte em Gêmeos vai trazer uma leveza lúdica que raramente encontramos nas esferas da intelectualidade ou do sacerdócio, mas que podemos muito bem identificar nos comediantes e artistas de circo. O engraçado aí é que a pessoa se prepara durante anos para se tornar um brâmane ou coisa parecida – e acaba se tornando a grande atração da feira, e acaba se realizando assim.   

Ou seja: todo mundo tem uma corporação, ou estirpe, ou bando, ou alcateia, ou casta, à qual tem que prestar contas durante uma parte da vida. Só não precisamos ficar comprometidos eternamente com a identidade que nos foi legada através de nosso vínculo com os ciclos lunares, pois esses mesmos ciclos trazem um convite ao desbravamento de territórios inexplorados. Usando uma metáfora que uma vez encontrei na internet, é como se você fosse um ator ou atriz já escalado sucessivas vezes para um mesmo tipo de papel – aquilo que na indústria do entretenimento chamam de type casting -, até por conta de sua capacidade de representá-los, o que criou uma associação de sua própria pessoa com um determinado personagem recorrente. Aí de repente aparece um convite para um papel totalmente distinto e até oposto ao que você se acostumou a representar. Minha dica: aceite.

A propósito (e fazendo a ponte entre Hollywood e Bollywood), a menção anterior aos brâmanes – a casta sacerdotal hindu – faz lembrar que Nodo Norte e Nodo Sul são pontos bem conhecidos na astrologia védica, ou indiana, como mencionei lá atrás. Na origem da concepção e cálculo desses pontos, portanto, pode haver uma relação com a sociedade de castas, mas eu não saberia dizer ao certo como são mobilizados nessa moldura. De todo modo, a astrologia se renova também através desses trânsitos e trocas, fazendo com que, por exemplo, a posição do Sol em um mapa natal – tão importante em nossa prática, mas com sentidos e significados já desgastados – possa eventualmente ter sua leitura modificada de maneira positiva em outros contextos culturais. Assim como nós temos a chance de ressignificar as leituras das posições da cauda e da cabeça do dragão, dando ênfase às mudanças que podem representar na vida de um indivíduo, mas sem desconsiderar o que falam sobre nossa inserção em grupos sociais, históricos ou arquetípicos mais amplos.

Mas, para esse movimento estar completo, entendo hoje que a gente precisa ter alguma chance na vida de se reconciliar com nosso antepassados metafóricos e reais, depois de termos simplesmente abandonar o arpão no chão da sala, sob o olhar imensamente decepcionado de nossos pais. Vou contar então a vocês o que acontece quando Netuno estaciona sobre seu Nodo Sul durante o tempo que ficou estacionado no meu. Você passa a viver uma espécie de segunda vida paralela e meio delirante junto a toda aquela multidão de ancestrais que em algum momento acreditou ter deixado no caminho. No começo, parece que eles ressurgiram para tirar satisfação por terem sido traídos; mas depois você percebe que eles simplesmente querem ter você por perto mais um pouquinho, antes de deixá-lo ir. É uma espécie de despedida, que não deu tempo de fazer quando as novidades e desafios do Nodo Norte estavam tomando todo seu tempo. É também um de trabalho de luto, porque você sente que alguma coisa em você está definitivamente deixando de existir.

Não tenho exatamente passado minhas noites bebendo e ouvindo música e procurando por corações rotos que se solidarizem com minha tristeza. Mas tenho ficado parado, quieto, e desperto, às vezes por horas durante a madrugada, enquanto um outro eu (cujo nome é legião) perambula por aí refazendo caminhos tortos já bem conhecidos. Um pouco como se o narrador do conto de Tabucchi de repente passasse a imaginar-se pescando baleias, junto ao pai e outros pescadores, sendo feliz com eles, sem nunca ter optado por outra vida. Chego a pensar que foi só isso mesmo que o pai dele queria: que estivessem juntos mais uma vez, em forma de devaneio, e que fizessem juntos desse modo a última pescaria. Enfim, que seu filho retornasse nem que fosse em sonho para se despedir corretamente, e então ir embora de vez, sem “querer ser um outro” é já sendo, enfim livre da sensação de que precisava escolher entre o arpão entre a viola, porque a viola o havia escolhido, e sabendo que, para ser quem ele era, já não precisava trair ninguém.

3 comentários sobre “A viola e o arpão

  1. Que lindo e triste. Eu estou passando por esse transito de netuno conjunto nodo norte. Sinto muito essa sensação de culpa e traição por estar quebrando um padrão familiar, digamos assim.

    Com relação a védica, vc trocou um pelo outro no início do texto, nodo norte é Rahu e nodo sul é Ketu. O sentido é parecido com o que vc colocou, ketu causa uma separação do mundo material e rahu faz a gente buscar incessantemente algo. Algumas escrituras colocam Rahu como os antepassados do pai e Ketu os da mãe. Talvez contribua pra análise.
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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