câncer

O signo de Kafka

Foto de arquivo | wikipedia.org

Este blog nasceu sob o signo de Peixes, e precisa de um descanso de vez em quando para dar liberdade às suas fantasias. Mas estavam em Câncer as luas do título, inspirado por um livro da escritora canadense e canceriana Alice Munro. Talvez por isso o signo do caranguejo seja um dos recordistas de postagens aqui da casa, embora eu nunca tenha escrito nenhum texto mais elaborado sobre o cancerianismo aliciano em si mesmo (pretendo fazer isso ainda, mas é uma tarefa delicada, não é algo que que dê pra fazer ainda pegando no tranco, depois de ficar em modo pisciano-soneca por uns tempos). Tampouco cheguei a falar do arquétipo de Câncer a partir dos escritos de outro autor célebre que já frequentou essa página por muitos outros motivos. Pensei nisso anteontem, quando se celebrou a data de aniversário de Franz Kafka.

A princípio, essa seria uma missão igualmente espinhosa, sobretudo se comparada com a de identificar aspectos cancerianos mais óbvios da obra de Marcel Proust, por exemplo (o memorialismo nostálgico, a floração de sentimentos, o estilo fluvial). Há pouca coisa e quase nada em Kafka que a gente associe ao signo solar do autor, à primeira vista pelo menos. Acontece até o contrário: a objetividade de sua prosa, o desconforto de seus personagens, a estranheza de seu mundo, tudo isso é o oposto daquilo de que normalmente estamos falando quando falamos em Câncer. Inversamente, a familiaridade, o conforto e o calor humano podem ser tudo, menos atributos kafkianos.

Por outro lado, e por isso mesmo, acredito que a tarefa de associar Kafka ao signo de Kafka é simples (confesso que o blogueiro não estaria suspendendo suas férias se não pensasse assim). Basta repetir um movimento que os intérpretes do autor realizaram tanto em comentários sobre a questão religiosa em sua obra, quanto na abordagem de sua ressonância política. Os conceitos de teologia negativa e utopia negativa – presentes nas análises dos críticos Erich Heller e Michel Löwy, respectivamente – se equivalem. O que ambos estão querendo dizer ao mobilizar esses conceitos é basicamente a mesma coisa. Quando lemos Kafka, o que importa é tudo aquilo que evidentemente não está lá.

Acho que o lado teológico nos ajuda mais a entender o argumento de maneira geral. Ele remete a uma longa tradição segundo a qual “a ausência de Deus é prova da existência de Deus”, exatamente porque a percebemos como uma ausência, isto é, o polo negativo de uma presença. Pelo mesmo raciocínio, não concebemos o vazio a não ser como o contrário do cheio, e, portanto, como indício de um preenchimento que um dia existiu ou está por vir. Todo fenômeno presume e implica seu inverso, e, portanto, o Deus absconditus (deus escondido) da lenda se faz sentir precisamente através de seu ocultamento.

“Ausência implica presença, ausência não é não-existência, e assim nós temos o direito de repetir: vem, vem, vem, vem…”, diz um personagem de Uma Passagem para a Índia, romance do escritor E. M. Forster. Nesse sentido, na obra de Kafka, tudo aquilo que não está lá se torna o que mais ostensivamente se mostra através deste sumiço; é a existência dessas coisas que podemos e devemos invocar. E, de fato, o conforto com a vida familiar, a aceitação e o acolhimento pelos pais, a sensação de pertencer a um lar ou uma terra natal são ausências mais do que notáveis em seus escritos, incluindo aí os diários e as cartas. Sobre os romances de Kafka, a propósito, o escritor argentino Jorge Luis Borges afirmou em 1936 o seguinte: “Homens, não há mais do que um em sua obra. O homo domesticus, que anseia por um lugar, mesmo que humilíssimo, em uma Ordem qualquer; no universo, em um ministério, em um asilo de lunáticos, ou no cárcere”. A simplificação pode parecer apressada quando a olhamos em perspectiva; mas, acredito, não deixa ser extremamente certeira se fizermos uma correção.

O ponto central é a palavra Ordem. Não acredito que os personagens de Kafka quisessem necessariamente pertencer a uma ordem. É verdade que com Joseph K., de O Processo, esse pode muito bem ser o caso, e algo semelhante se dá com o K. de O Castelo. Aí estaríamos tratando de temas capricornianos, com algumas incursões pelos arquétipos de Aquário e de Peixes. Porém, até com maior frequência, o que os protagonistas kafkianos parecem sentir de modo mais doloroso é a falta de qualquer vinculação a um Lar, no sentido mais caloroso e acolhedor da palavra, com suas raízes orgânicas e sentimentais, com suas conotações afetivas e interpessoais. Não que eles expressem isso abertamente, é claro. Na verdade, é isso que sempre falta nas narrativas kafkianas; é isso que mais claramente elas excluem e ignoram e ocultam, em todas as suas manifestações.

Há, sim, portanto, algo do homo domesticus nessas figuras a que se refere Borges; e, bom, a domesticidade é tipicamente canceriana. Por outro lado, nem sempre os heróis de Kafka – e muito menos os heróis de Câncer – são exatamente domesticáveis, no sentido de acatar ordens que não lhes falem ao coração. Por isso também a solução de uma ordem impessoal me parece insuficiente. De novo, o calor humano e os genuínos vínculos afetivos de que estão destituídos os heróis kafkianos não são coisas que eles sejam capazes de reclamar para si com todas as palavras – eles parecem nem chegar a ter consciência de que isso existe -, mas, precisamente por esse motivo, a carência se torna mais radical e pungente. Ainda assim, o calor e o acolhimento que buscariam, se soubessem que é disso que mais sentem falta, nada teria de vulgar, pois dizem respeito a uma forma de pertencimento que de maneira alguma se resume a um lugar numa ordenação burocrática ou mesmo num esquema familiar padronizado. Se Kafka parece tão radical em sua exibição do polo negativo desse espectro da experiência, é porque não estaria disposto a transigir em nenhum ponto com aquilo que lhe era mais caro.

De modo que desconsiderou o retorno proustiano ao passado como alternativa para um presente seco, estéril e deprimente, por exemplo. Não, a sensação de pertencimento que ele valorizava e queria não estava num mundo perdido que a narrativa poderia de algum modo recuperar. E, ainda mais notavelmente, não há praticamente nenhuma lembrança de conforto nas narrativas kafkianas, que parece desconfortável inclusive nas fotos de sua infância, como notou o filósofo Walter Benjamin. Não encontramos na história de seus protagonistas quase nenhuma menção a uma antiga de paz e felicidade, o que só torna mais perturbadora sua carência de qualquer esperança. “Há esperança sim, esperança suficiente, esperança infinita – só que não para nós”, ele teria dito, aliás, como também lembrou Benjamin. Esperança negativa talvez seja outro conceito adequado para descrever o sentimento que nos atravessa com a leitura da obra de Kafka.

Mas ele afirmou também que, se vivemos no exílio, se a nossa condição humana é da culpa e da falta, isso acontece “não apenas porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não experimentamos da Árvore da Vida”. Pois bem: suspeito que essa Árvore da Vida, com seus frutos e sua sombra, com suas raízes e suas folhas, é uma árvore canceriana. É ela, e não a pacífica domesticidade burguesa, que representa a verdadeira presença de Câncer na obra de Kafka. O fato de que não a tenhamos provado ainda talvez seja indício de uma esperança, assim com a ausência de qualquer outra menção a esse respeito, no restante da obra, além dessa passagem, pode muito bem ser a prova definitiva de sua existência.

E uma última observação. É possível que a crítica literária acadêmica séria fique um tanto escandalizada com esse tipo de interpretação da obra de autores tão complexos a partir de seu signo do zodíaco. Se ela já estremece diante de qualquer análise de uma obra que a reduza a reflexos de elementos da vida do artista, que se dirá da análise de uma obra a partir da data de aniversário do autor. Paciência: nesse espaço levamos a astrologia a sério, mas literatura é só na brincadeira mesmo. A crítica literária acadêmica séria, então, é algo que nunca deixa de ter lá sua graça.

De todo modo, no caso desse texto em particular, tenho o álibi de ter defendido que atributos do signo solar de Kafka estão absolutamente ausentes de seus textos. Isso, claro, para mim mostra mais uma vez a pertinência do viés astrológico. Mas ninguém pode garantir que não esteja fazendo algum tipo de volteio retórico para confirmar o cancerianismo kafkiano, pela via negativa, que já se tornou tradicional na leitura de seus escritos. Que seja. Ainda assim recomendo: quando for ler Kafka da próxima vez, repare bem, Câncer está lá, o acolhimento está lá, a Árvore da Vida está lá. Exatamente porque não está.

Enfim, pensando aqui agora, acho que vou passar a usar esse argumento agora todas as vezes que alguém me disser: “olha, meu signo é tal, mas nunca me identifiquei com ele, não pareço nada com o que dizem, acho esse negócio de signo a maior furada”. Quem diria, parei aqui para escrever uma postagem rápida e rasteira sobre Kafka e o signo de Kafka e de quebra acabei criando um todo novo caminho para a disseminação do saber astrológico, capaz de provar definitivamente mesmo aos mais incrédulos que esse negócio de signo existe sim e faz todo sentido. Grande dia. Está fundada a Astrologia Negativa.

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