arquétipos

A hora mais escura (ou nem isso)

Em um filme chamado Thirteen (dir. Catherine Hardwick, 2003), a atriz Holly Hunter faz a mãe de uma garota interpretada por Evan Rachel Wood, que após entrar na puberdade começa a ter comportamentos imprevisíveis e agressivos. Nada que não esteja de acordo com a idade e suas transformações, porém o conflito entre mãe e filha é intenso, e vai crescendo até atingir o ponto mais crítico durante uma briga que dura uma noite inteira, e na qual parece que a corda vai arrebentar de vez. Até que ambas adormecem de pura exaustão, na cama da mãe. São mostradas ainda algumas imagens delas em diferentes posições durante a noite, conforme se mexem enquanto dormem. Na manhã seguinte, a mãe se levanta para fazer um café. Ela pega uma xícara, vai até a porta que dá para o quintal, e deixa a luz do sol entrar.

Nesta cena, a sensação é de que um ciclo enfim terminou, e outro está apenas começando. Por mais que tenham sido fortes as ofensas trocadas, por mais que não seja possível a relação das duas voltar a um momento anterior, há uma promessa de futuro nesse raio de sol. E ele basta para nos dar uma espécie de alívio. Não faltam narrativas que usam o mesmo recurso; este é apenas um exemplo. Gosto de como algo semelhante acontece em Rachel Getting Married (dir. Jonathan Demme, 2008). Amo um conto do escritor russo Anton Tchekhov chamado “Um caso clínico”, com suas palavras finais ambiguamente acalentadoras, tratando também de um amanhecer, da luz do sol, de uma charrete à luz do sol durante um amanhecer.

Outro dia mesmo, ao falar de A Metamorfose de Kafka, aqui, mencionei como mesmo em uma história absurdamente dolorosa como aquela existe uma luzinha no final que pode ser aproveitada pelo leitor, depois que ele conviveu com os personagens do relato durante seus longos meses de dor e confinamento. Essa luzinha, de certa forma, está prevista no decorrer da narrativa, ela existe já em meio aos momentos mais difíceis, está implicada neles, e existe, por assim dizer, com eles. Não temos notícia de uma noite que não tenha sido seguida por um dia. Desde que existe a humanidade, experimentamos o retorno do sol ao horizonte, mesmo quando a escuridão se torna tão densa que ele parece nos ter abandonado para sempre.

Dizem que os orientais costumam ter expressões para isso – quando uma coisa não é causa da outra, mas ambas emergem juntas, existem de modo interdependente, ainda que estejam separadas no tempo e no espaço. A expressão “a hora mais escura” presume a luz que em algum momento chegará, uma vez que não é possível escurecer mais. É verdade que às vezes a hora mais escura pode durar mais do que a gente imaginava, e que às vezes as coisas podem ficar um pouco ainda mais difíceis e confusas antes do dia renascer. Ainda assim, haverá sempre uma centelha de calor, ainda que seja na forma de uma expectativa ou de uma ideia, mesmo durante o mais longo e tenebroso inverno.

Agora, não pensem que tenho algo assim para oferecer aqui. Se passei essa impressão, peço desculpas, terei que decepcioná-los. Minha questão é justamente o contrário. Pois, dentre tantos motivos de revolta e indignação que surgem nos noticiários diariamente, o que mais tem me assombrado, ultimamente, está na maneira como o presidente da república conseguiu nos destituir até dessa centelha, dessa expectativa, dessa promessa de um alívio compartilhado e comum, num futuro relativamente próximo, no qual as restrições do confinamento seriam relaxadas gradualmente, e, aos poucos, a gente ia começar a ver a luz do sol de novo, em sentido figurado para todo mundo, e também bastante concreto para alguns.

O argumento de que isso se deve a razões socioeconômicas não se sustenta. Nesse aspecto, o atual governo parece dedicado a causar uma catástrofe igual ou maior que a da mortalidade por Covid-19. O suporte financeiro imediato e efetivo que poderia ter sido dado às famílias como estímulo para que ficassem em casa nos últimos dois meses, deixando negócios não essenciais em suspensão, seria muito menor do que o necessário para amparar as famílias durantes o longo período de descontrole e incerteza que parece inevitável agora (o longo período de descontrole e incerteza, não a manutenção do auxílio às famílias, que o governo já se mostra predisposto a retirar). Não houve nenhum tipo de pensamento ou estratégia (intercalada com uma administração sensata e consistente no âmbito da saúde pública) por trás das medidas reativas que foram sendo tomadas.

Resultado: por falta de qualquer política decisiva para contornar a crise socioeconômica, ela é cada vez mais acentuada e sem fim à vista. Por falta de qualquer perspectiva ou segurança no âmbito financeiro, a crise sanitária se acentua, como pequenos negócios à deriva sendo reabertos clandestinamente, sem que a disseminação do vírus tenha sido minimamente controlada a qualquer momento. Em resumo, não se percebe por parte da administração central nenhuma estratégia para lidar com nenhuma das duas crises, a não ser a tática de nos confundir. E, portanto, deixou de existir qualquer coerência narrativa na história que estamos vivendo coletivamente, e que precisava dessa liderança para existir, ou ao menos de uma liderança central omissa, que aceitasse liderança assumida por outros agentes, ao invés de atacá-los frontalmente.

Não sou epidemiologista, nem médico, nem especialista em saúde pública; a respeito desses temas apenas reafirmo a percepção comum de um governo de uma incompetência e de uma delinquência inéditas. Mas, como pesquisador de fenômenos literários e narrativos, queria acrescentar a denúncia de sua incompetência para nos oferecer algum tipo forma dramática para atravessarmos a crise. E, pior ainda: tínhamos uma narrativa adequada para esse período, até bem engatilhada para dar conta de suas dificuldades e sobressaltos, através de um esforço criativo bem sintetizado em gráficos e tabelas, que contou com a sustentação de inúmeros cientistas, a adesão de políticos e gestores nas mais diferentes esferas, e que foi sistematicamente sabotado pelo presidente e seus ministros (com as demitidas exceções) desde o começo. Agora, nada do que acontece parece corresponder a um ritmo ou curva ou modelo que tenha qualquer precedente, seja para economistas, seja epidemiologistas, seja para críticos literários.

E é isso – também isso, mas muito isso, na minha opinião – que estava em jogo quando falávamos em achatamento da curva e expressões semelhantes. A curva era um gráfico baseada em números, mas era também uma representação do nosso potencial de agir em conjunto, como uma comunidade, diante de um ameaça iminente. Ela indicava a possibilidade assumirmos um – relativo – controle da história que estamos vivendo. Ela era um arco narrativo que nos levaria justamente à hora mais escura a que estava me referindo, quando os recursos para enfrentar as dificuldades parecem ter se esgotado, quando as perdas se acumulam para além do que estávamos inicialmente preparados, quando estão desfeitas as esperanças de atravessar a crise sem estragos vultuosos, e ainda assim, em meio ao breu desse momento, existiria algo em nós, uma centelha ou fagulha ou presságio, que nos tornaria capazes de suportar ainda essa última etapa da viagem em mares turbulentos, mesmo sabendo que jamais voltaríamos para casa, antes de antever a costa das terras tão distintas onde passaríamos a viver.

A metáfora náutica é adequada; todo mundo tem na memória alguma cena de um filme ou livro em que, após a batalha com a tormenta, alguém acorda à salvo em um bote ou em uma praia, e ganha uma nova e inesperada chance de viver. Isso acontece no teatro, no cinema e na vida o tempo inteiro. Esse tipo de narrativa ou situação é arquetípica, e se repete com regularidade e criatividade nas histórias humanas, assim como nos mitos e histórias que contamos. Nós bem poderíamos a estar repetindo agora, com algumas singularidades e variações. Isso nos daria no mínimo condições de contar a história que estamos vivendo enquanto a vivemos, e de vivê-la em comum, com uma moldura na qual poderíamos compartilhar esperanças e temores (“a forma como contamos nossa história é a forma como continuaremos a vivê-la”, afirma James Hillman, um comentador de Freud e Jung, em Healing Fiction).

Haveria diferenças, é claro. Enormes desigualdades. Histórias pessoais com fins abruptos e sem renascimento ou novo despertar. Indivíduos que passaram ao largo do fenômeno coletivo por circunstâncias muito peculiares em suas vidas. O problema é que, da maneira como as coisas foram conduzidas, ficaram apenas as diferenças, o salve-se quem puder, hipocritamente oculto sob uma aparente preocupação com as atividades econômicas e liberdades individuais. Esse resultado, e a capacidade destrutiva da figura atualmente ocupando o posto da presidência, é assombroso, em medida igual à do consenso científico formado em torno da efetividade do isolamento para conter a curva de contaminação e evitar o colapso do sistema de saúde. Digo “capacidade destrutiva” porque não nos foi proposta nenhuma outra curva. Não temos nenhuma outra narrativa em curso. Não em comum. Nada foi criado. Houve apenas destruição.  

Tenho conversado com algumas pessoas sobre suas histórias, e me alegra perceber que muitas delas ainda assim conseguem estar dando prosseguimento a narrativas próprias, e relativamente compartilháveis, que tornarão esse momento memorável, por outros fatores além da raiva e do desespero. Mas há muita gente sentindo apenas raiva e desespero mesmo. E com razão, se é que isso faz algum sentido. Não estou falando do número de mortos, ou da taxa de letalidade, ou do aumento do desemprego. Infelizmente teríamos mortos a enterrar e pessoas a amparar do outro jeito também. Mas do outro jeito, como diz a canção, teríamos também coisas bonitas para contar, depois que tudo passasse (porque tudo passa, tudo passará). O outro jeito é aquele em que estaríamos sentindo realizar um esforço conjunto. O outro jeito é aquele em teríamos uma curva, uma narrativa.

A sensação agora é a de que, ao nos destituírem dessa narrativa, de um ponto de vista psíquico coletivo, tiraram-nos tudo. Inclusive a mera ideia de luz que resiste e persiste em meio ao breu, como o sinal de um possível renascimento. Restou-nos uma treva sem contrastes que equivale à clareza absoluta de uma morte gélida na mais branca neve. Restou-nos, também, um caos de sentimentos desgovernados e ingovernáveis, em grande medida semelhante ao da fonte de onde emana a destruição, que, assim, alcança seu aparente objetivo, o de fazer proliferar a mortificante falta de sentido de suas falas inarticuladas. Há algo aqui que faz lembrar a atitude do torturador, na tentativa de extrair de sua vítima qualquer resquício de esperança. E há algo na tortura que compromete não apenas a vida, mas o sentido da vida, a mera possibilidade de um sentido para a vida.

Os escritores, dramaturgos e poetas, como afirma Frank Kermode no início de uma conferência, são as pessoas responsáveis por atribuir um sentido (uma forma, uma ordem) à vida às vezes tão caótica que vivemos. Ele diz ainda que, aos críticos literários, cabe a tarefa mais modesta de tentar explicar como eles fazem isso. De minha parte, tento fazer aqui um trabalho semelhante com os arquétipos astrológicos ou do inconsciente coletivo, oferecendo conexões entre episódios e situações da vida prosaica de cada um nós com mitos e narrativas que estão aí há milênios, associados a astros e constelações e seus movimentos regulares, porém também sempre se renovando através das nossas próprias vidas. Quando um leitor se reconhece em um dos meus textos, fico feliz, porque acredito que isso acrescentou significado à sua vida, quer dizer: enriqueceu-a de conexões entre coisas a princípio desconexas.

Tem muita gente que não se importa esse tipo de poder criativo da humanidade (com a poesia, com o drama, com a narrativa, com a mitologia), e por mim tudo bem; o que impressiona é termos pessoas tão dedicadas a fazer justamente o contrário, retirando sentido de onde há uma tentativa de construí-lo. Impressiona que uma pessoa assim tenha sido escolhida para ocupar o posto que ocupe em nosso sistema político (e que tenha sido escolhida com a missão de destruir, como sempre esteve claro, para seus eleitores e oponentes). Por outro lado, o argumento de que o poder criativo ou artístico é um assunto reduzido a um espectro do jogo político (a esquerda, no caso), ou de que a capacidade de atribuir sentido à vida através da narrativa é um confortável passatempo burguês, esbarra, no meu entender, em alguns impulsos primordiais da experiência humana sobre a Terra.

Desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde que olhos humanos estão aí para vê-lo, o primeiro raio de sol nascendo de manhãzinha não é apenas um fenômeno físico e material. Ele está vinculada a sentimentos – o alívio, a esperança, a dissipação do medo – e com isso coisas aparentemente díspares passam a se relacionar, uma vez que ela se torna símbolo para acontecimentos análogos, porém separados de sua manifestação imediata. Dizer que a personagem do filme que mencionei lá no começo “deixa a luz do sol entrar” não mostra a luz do sol entrando, nem presume que alguma emoção acompanhe o fenômeno, em sua imediaticidade. Mas qualquer ser humano já fez eventualmente, e instintivamente, a associação entre o nascer do sol (ou a imaginação de um nascer do sol) e o fim de um período de luta ou de longa privação e sofrimento. A experiência é arquetípica em um sentido bastante amplo, que remete a histórias acontecidas muito antes da civilização começar.

Do mesmo modo, o início da noite pode trazer consigo a sensação de um descanso há muito aguardado e necessário, de um ingresso em um mundo de sombras, magia e mistérios, ou mesmo de uma morte que adquire sentido por estar tão bem representada em ciclos naturais. Inclusive acontecimentos abruptos, inesperados e aparentemente aleatórios podem contar com o poder da palavra para passarem à categoria das tragédias em que reconhecemos a força de um destino em curso. Do jeito que as coisas estão, porém, em nosso país particularmente (para assombro até do resto do mundo), ficamos apenas com o abrupto, o inesperado e o aleatoriamente destrutivo. Se isso descreve o comportamento de alguma pessoa que você conhece, sugiro que mantenha distância no momento, e depois também.

Um estado depressivo, em que o mundo e seus fenômenos são destituídos de valor e sentido, está se disseminando junto com o vírus. Mas não por causa do vírus, e sim por força do noticiário político, em grande medida (que em si mesmo não tem culpa nenhuma, muito pelo contrário; está fazendo seu papel). Tenho amigos dizendo que estão vendo a luz do mês de maio esse ano de um modo estranho, diferente, vazio. Não é só por causa do confinamento, no meu entender; é porque essa luz costuma ser plena de significados e alusões, remete sempre a sensações passadas e expectativas de futuro, mesmo quando aparece em período difíceis. E agora, para alguns, ela não diz nada, absolutamente nada. O que é particularmente incômodo, na medida em que poderia perfeitamente representar um ponto importante da curva, em que seu reverso começaria a se mostrar, ou seja: a luzinha que surge junto e com o momento mais escuro da noite, e oferece um novo ânimo, ao indicar que o pior já passou, ou está quase passando.

Não, o pior não passou, e talvez nesse caso não venha a passar nunca, porque a ideia de “passado” presume um mínimo de ordenamento narrativo. Não estou dizendo que as coisas permanecerão para sempre como estão. Estou dizendo que, coletivamente, perdemos a oportunidade de ter uma boa história para contar para nossos filhos, com começo, meio, e fim, correspondendo à arquetípica curva em que a ciência e a arte narrativa se encontrariam. Espero que isso sirva ao menos para expor um pouco mais a caótica crueldade do atual governo, e que ele seja substituído assim que as circunstâncias permitirem, uma vez que já destruiu mais até do que parecia capaz de destruir.

Mas espero, enfim, que também vocês aí estejam vivendo suas curvas e histórias, independente do que se passa no noticiário. Escrevo inclusive, e talvez principalmente, para aqueles que perderam ou venham a perder familiares e amigos nesse percurso. Não se deixem contaminar pelo discurso informe e sem contrastes. O luto também é uma curva, uma narrativa, uma história que a gente vive e a gente conta, e que tem suas contradições, suas evoluções, seus bons e maus momentos, seu início e seu fim. É isso mesmo: o trabalho de luto é atravessado pela raiva pelo desespero, mas tem também seus instantes de conciliação e repouso. Existe força na aceitação da morte, e um outro tipo de beleza na nossa lembrança dos mortos. Não permitam que até isso seja tirado de vocês.

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