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As voltas que Vênus dá

Matthew Henderson | Tumblr

Nessa semana Vênus iniciou o movimento retrógrado (aparentemente retrógrado, visto da Terra, para ser mais exato) que realiza durante cerca de 40 dias a cada ano e meio. A primeira pergunta que a gente escuta quando falamos que um planeta vai estar retrógrado nas próximas semanas ou meses é algo do tipo: “Mas como assim, outro? De novo? Por que esses trecos têm que ficar andando pra trás o tempo inteiro e atrapalhar nossa vida, qual é o problema com eles?”. Acho a pergunta pertinente; vamos às possíveis respostas.

No caso de Vênus, especificamente, a primeira explicação que me ocorre é a de que ela precisa fazer esse movimento para executar um lindo e famoso pentagrama, formado pela sucessão de pontos médios de sua distância em relação à Terra, na órbita de ambas ao redor do Sol (esse da animação). Ou seja: Vênus valoriza a beleza, a harmonia, o equilíbrio, e se, para alcançá-las, precisa dar uns passinhos para trás, transtornando por uns tempos a vida dos pobres terráqueos, paciência. Ela vai fazer sua dança assim mesmo. Você que lute.

Isso, é claro, partindo do princípio que somos meras vítimas indefesas de movimentos planetários tão mais amplos que nós. Porém, 1) o movimento aparentemente retrógrado de Vênus só existe em relação à Terra e, 2) só existe em relação a nós. Se não fôssemos “nós”, não existiria Vênus, aliás. Aquele amontado de rochas e gases com suas eternas chuvas de enxofre que faz esse caminho bonitinho apenas se tornou um símbolo da beleza da harmonia através da criatividade humana, e da nossa capacidade de produzir nexos e analogias.

Isso nos leva à refutação da segunda possível resposta: a de que os movimentos retrógrados ou aparentemente retrógrados de um planeta não têm nada a ver com os assuntos humanos. Têm sim, e basicamente por um motivo: nós os inventamos, os planetas, e seus respectivos movimentos retrógrados. Inventamo-os enquanto símbolos de nossa experiência, e talvez os tenhamos “inventado” exatamente para nos dar algumas pistas do caminho que temos a fazer para seguir adiante nessa brincadeira de esconde-esconde, ou nesse complexo jogo de tabuleiro, que é o universo. Um planeta retrógrado então pode muito bem estar dizendo: retroceda duas casas. Preste mais atenção. Os mitos e narrativas que associamos a ele servem como indícios da área da vida em que isso deve acontecer.

Outra coisa que nós humanos fazemos é identificar padrões. Só que nessas horas às vezes a gente dá uma roubada. Por exemplo: essa animação aí de cima foi baseada em dados do geocientista Steven Dutch, da Universidade de Wisconsin, que, em 2012, criou um gráfico interativo demonstrando como os movimentos de Vênus e da Terra ao redor do Sol formavam um “desenho admirável, porém não exato”, uma espécie de pentagrama “quase perfeito”, uma vez que as órbitas estão representadas como círculos, e não elipses (Vênus, porém, tem a órbita mais próxima de um círculo do sistema solar, o que torna o pentagrama realmente próximo da realidade).

Descobri isso esses dias. Mais especificamente, no dia em que Vênus começou sua retrogradação.  O que me leva à terceira resposta para as perguntas que enumerei lá no começo – e ter descoberto que a perfeita simetria na representação da relação Vênus-Terra é na verdade atravessada por falhas e imperfeições me parece significativo para ela. Afinal, os relacionamentos humanos, regidos por Vênus, também estão sujeitos a esse tipo de ilusão e de ajuste. Precisam passar por revisões periódicas e cíclicas, muitas vezes difíceis, porque tratam justamente de conflitos que foram ignorados ou reprimidos durante os 18 meses anteriores.

É isso que acontece quando Vênus começa a retrogradar. Aparecem os pontos fora da curva. Aquilo que não corresponde às nossas ideias e ideais sobre a realidade (o que deve ser particularmente válido para esse período retrô de agora, dadas as relações Vênus/Netuno no intervalo). Porém, de maneira alguma essa percepção nos coloca à mercê dos caprichos de um planeta ou de uma divindade. Ela nos coloca em contato com ela em um sistema de cooperação mútua. Lembrem-se: Vênus precisa de nós para existir. Ela precisa de nós para retrogradar. Sem nós humanos, não há o desenho perfeito, nem a percepção de suas falhas.

A oportunidade torna inevitável a menção aos também célebres versos de Leonard Cohen em Anthem: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Ou seja: toquem os sinos que puderem tocar, e se esqueçam de suas oferendas perfeitas; há uma falha em todas as coisas, e é por aí que entra luz entra nelas. Enfim: Vênus retrógrada é essa falha. Mas é também essa luz. Uma coisa não existe sem a outra. Reparem bem: esse mais perfeito pentagrama aí de cima, o que omite as imperfeições da trajetória de Vênus, pode muito bem atender aos nossos anseios por um universo ordenado e harmônico e belo. Porém, nele, a não ser a que a gente perceba seus luminosos defeitos, reina a mais completa escuridão.

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