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Kafka contra o “e daí?”

Imagem: Peter Kuper

Tenho a alegria breve, mas recorrente, de todo início de semestre poder discutir com a turma de ingressantes do curso de Letras onde leciono alguns clássicos da literatura mundial. Um deles é A Metamorfose, do escritor tcheco Franz Kafka. Esse livro quase nunca sai do programa da disciplina, porque há sempre interpretações que me surpreendem, experiências de leitura que me comovem, ênfases em que nunca prestei atenção antes. A maneira como cada aluno entende a história varia de forma surpreendente. Isso, é claro, deve-se ao fato de que a narrativa não trata apenas da transformação de um homem em um gigantesco inseto, mas também das metamorfoses da família de Gregor Samsa, o protagonista, a partir do momento em que o vê em sua forma monstruosa.

O elemento fantástico poderia até ser retirado do texto, que ele manteria suas linhas gerais. A situação de Gregor no quarto onde fica isolado com frequência se parece com a de alguém sofrendo de um mal súbito e ao mesmo tempo lentamente degenerativo, sob os cuidados (e a repulsa) de parentes que não sabem como lidar com a catastrófica mudança. No mais das vezes, aliás, o comportamento da família está longe de ser exemplarmente compadecido, e eles o rejeitam (o que ele se tornou) de maneira peremptória e escandalizada. Porém não chegam a expulsar o inseto de casa, de modo que ele sobrevive por um período, contando com a ajuda eventual da irmã ou de uma faxineira.

Essa situação se alastra por mais tempo que o leitor imagina a princípio. Talvez por mais tempo que ele estaria se preparado para aguentar. Nesse sentido, o relato integra uma tradição narrativa que vai de Rei Lear, a tragédia de William Shakespeare, a Breaking Bad, a série criada por Vince Gilligan, nas quais uma situação intolerável ou destrutiva prossegue por tempo demais deixando um rastro de caos e sofrimento. Em resumo, são experiências trágicas em que o pior está no começo, e o que vem a partir daí é o pior do pior, o pior mais pior ainda, o pior em sua versão piorada ao quadrado – de modo que a corda da insensatez e crueldade humanas estica e estica e estica, e parece que não vai nunca arrebentar.   

Uma das características mais marcantes do ritmo de A Metamorfose é, então, o quanto o livro exige do leitor em termos de estômago para tolerar o sofrimento de Gregor. Mas uma hora a corda arrebenta, e, em tais circunstâncias, isso não deixa de ser motivo de alívio. Acho que não conta como spoiler dizer que Gregor terminará morto e descartado. Por mais melancólico que seja, esse desenlace é esperado e previsível, dentro do universo de relações construído no texto. O que de certa forma nos surpreende é a maneira como a narrativa em seguida se desloca para o lado de fora do apartamento, quando o pai, a mãe e a irmã de Gregor saem para dar um passeio.

Só então nos damos conta da extensão do período em que permaneceram confinados lá, e nós leitores com eles. O narrador afirma que eles teriam ficado meses sem sair de casa, e descreve como aproveitam a luz do sol durante um passeio de bonde. Em seguida, os três falam entre si dos novos empregos que conseguiram; comentam como a situação da família não parece de maneira alguma má, vista daquele ângulo; e os pais sentem como que uma confirmação de seus bons prospectos, quando Grete Samsa, a irmã de Gregor, se põe de pé diante deles ao saltarem do bonde, espreguiçando-se e estendendo o corpo jovem.

Gosto dessa cena, da sugestão de uma metamorfose orgânica concluída, após uma etapa de intensa e dolorosa reclusão – o movimento de Grete como o de uma borboleta saindo do casulo à luz do sol. Gosto particularmente da transformação que Grete sofre no decorrer da trama. Gosto do final do conto, portanto – embora o próprio Kafka não gostasse. Ele afirmou em uma carta que o teria escrito quase a contragosto. Foi o que deu para fazer, é como se dissesse, pelo que me lembro; foi o que saiu na hora.

O fenômeno não é incomum em sua obra. Mas não quero me dispersar aqui, por mais que ache o tópico interessante. Vamos voltar ao encerramento de A Metamorfose, portanto: à família que sai para a rua depois de meses de confinamento, vivendo o luto pela perda de um parente, e ao mesmo tempo tendo, enfim, um descanso de um longo e inimaginável esforço, exigido por circunstâncias imprevistas, que de súbito se tornaram absolutamente determinantes em suas vidas. Qualquer semelhança com nossa realidade de agora só reforça aquela observação anterior: não se trata, necessariamente, de um conto fantástico.

E, nem por isso, deixam de ser incríveis as variações da reação de quem lê. É sobre isso que eu queria falar. Essas reações podem variar inclusive para uma mesma pessoa. Na primeira vez que li, por exemplo, lembro de como a atitude da família me pareceu abominável. Na segunda vez, percebi que eu mesmo talvez não agisse de modo muito distinto nas mesmas circunstâncias. Na terceira, achei bonito o final, em que os três integrantes da família recuperam sua autoestima ao contornar a crise financeira que os ameaçou (há indícios de que antes dela os três viviam meramente à sombra do primogênito). Depois, acho que consegui conciliar um pouco essas perspectivas.

E olha que estamos falando apenas das minhas impressões. Agora imaginem acrescentar a esse caleidoscópio as leituras de vários alunos por semestre. É verdade que nem todos comentam o texto, nem todos leem, mas ainda assim são muitas perspectivas, que decorrem de diferentes campos de experiência, situações sociais, hábitos mentais, bagagens familiares, lembranças, temores, expectativas. Às vezes, o que a pessoa comeu no café da manhã interfere no jeito como ela lê o texto. Às vezes – vamos supor uma relação mais direta – a pessoa tem pânico de baratas.

E, no entanto, faz parte do nosso trabalho (sobretudo do meu, no caso) tentar entender como essas variações se articulam com sistemas mais amplos de valores. Não cabe a mim, do modo como entendo minhas tarefas docentes, oferecer uma interpretação correta do texto, mas tampouco devo me deixar levar por um relativismo preguiçoso, que ignore as potencialidades de um trabalho crítico mais atento. Ou seja: interpretações, percepções e julgamentos referentes à leitura têm implicações e consequências, carregam uma adesão natural a determinados valores, e isso deve ficar claro para eles, para os alunos. Do mesmo modo, algumas escolhas implicam a rejeição de outros valores, ou pelo menos uma escala de prioridades.  

Trata-se, assim, de uma questão pessoal e política. A maneira como respondemos a uma narrativa, por um lado, tende a estar de acordo com nossos sentimentos morais, e por outro apresenta certa coerência com nossas posições e ações práticas. O conhece-te a ti mesmo do oráculo de Delfos se aplica, então, ao trabalho do professor na leitura e interpretação de textos em sala de aula. Meus esforços nesse caso estão voltados para que meus alunos se conheçam um pouco melhor, compreendendo o que valorizam e o que repudiam a partir dessas leituras, conferindo algum grau de abstração às reações mais imediatas e concretas que elas proporcionam.

Nesse trabalho, é sempre possível identificar afirmações parecidas e recorrentes sobre um texto e seus personagens, ainda que opostas ou conflitantes, integrando sistema de valores em disputa. O interessante, e um pouco triste, no caso de A Metamorfose, é como as duas principais tendências verificadas – a que compreende a atitude da família de Gregor ao falar de alegrias e bons prospectos no final, após enfim sair de um confinamento de muitos meses, e a que condena a pressa com que ela se recupera da perda, sem nenhuma menção a Gregor durante o passeio – podem vir a ser bastante reais e conflitantes para muitos de nós, num futuro até bem próximo.

Aliás, muitos dos debates que já fizemos sobre o texto de Kafka partiram de um conflito entre alunos que entendiam as preocupações mais pragmáticas, de caráter material ou financeiro, da família de Gregor, e outros que demonstravam maior sensibilidade à fragilidade existencial e ao sofrimento psíquico prolongado de que trata o conto. Mas o relato serve também para que a gente perceba como essas não são tendências que se excluem mutuamente. Em situações extremas como as de A Metamorfose, e em circunstâncias extremas como as atuais, mais do que nunca é necessário o exercício de uma sensibilidade que ultrapasse o âmbito das primeiras reações instintivas.

Costumo ver meus alunos fazendo isso também: presumindo que, por mais que se identifiquem com maior naturalidade a um dos personagens ou perrengues do texto, é sempre preciso ter certa dose de atenção para o lugar de onde o outro está partindo. Ou seja, vejo-os assumir posições distintas, mas com cuidado para alcançar uma espécie de solidariedade mútua, diante de um caso tão singular. Em situações como a do conto de Kafka, portanto, e em situações como a de agora, isso não é mais do que reconhecer o elemento humano que está em jogo, e tal como está em jogo, em suas diversas facetas, envolvendo-se nessas contradições e nuances.

Por isso, de tudo o que já ouvi sobre A Metamorfose de Kafka, e já ouvi muita coisa (inclusive muitos “não deu pra ler, professor”, ou então, “ih, achei meio chato, só consegui chegar na terceira página”), a única coisa que teria realmente me tirado do sério, a única coisa que acharia inadmissível, a única que eu não teria tentado compreender como expressão de uma posição moral ou política legítima e coerente, seria um “e daí”. Tipo: “Pô, professor o cara virou uma barata e morreu, que que você quer que eu faça? E daí?”. Ou: “Foda-se que o sujeito morreu, que é que eu tenho a ver com isso?”, o que seria praticamente a mesma coisa.

Eu ficaria perplexo se um aluno dissesse algo assim sobre um personagem de ficção. Agora imaginem isso vindo alguém ocupando um cargo público importante, e respondendo a uma pergunta sobre 5.000 mortos entre a população que governa. Não vou me estender nesse comentário, porque ninguém merece (aliás na semana que vem voltaremos a nossa programação regular, de reflexões e brincadeiras astrológicas). Só queria deixar o registro que esse “e daí” que escutamos nessa última semana não diz respeito a nenhuma prioridade política ou econômica, não se articula com nenhum conjunto de valores, não compõe nenhum sistema de pensamento, por mais básico que pudesse ser. É apenas uma afirmação a mais da crueldade narcísica que não conhece nada além do próprio vazio.

Não escrevo para mudar a opinião de quem é capaz de consentir com essa atitude; esses, infelizmente, estão irremediavelmente perdidos. Esse “e daí” – e as aprovações que recebeu, em sua suposta “autenticidade” – é mais um tapa na cara de quem insiste em discutir com os partidários do foda-se institucionalizado. “Nós não vamos mudar, nem diante de 5.000 mil mortes, e nem diante de uma morte próxima, nem diante de ameaças à nossas próprias mortes”, é o que acredito que estão implicitamente dizendo. “Vocês ainda não entenderam: a vida para nós deixou de ter qualquer significado”.

Em tempo: quando alguém fala “e daí”, quando alguém declara que não tem nada a ver com algum assunto, não estamos mais no âmbito da política. Viver politicamente é ter a ver com os assuntos. Por isso, é mais inacreditável ainda que a declaração tenha partido de onde partiu. Não falo da pessoa, mas do cargo. Mas queria terminar lembrando dos meus alunos, cujos comentários sobre o texto do Kafka costumam ir no sentido oposto, não por estarem no outro polo do espectro político, mas por estarem inseridos nele, envolvidos com a questão humana que ele presume, e que requer tomadas de posição difíceis, jamais solucionáveis na base de um simples dane-se. Acho que foi também a falta que sinto deles, e desses debates, que me estimulou a tratar do texto de Kafka aqui.

Aquilo que vivemos presencialmente, nos cursos de humanas e artes das universidades, é, com bastante frequência, justamente o extremo oposto desse “e daí” inacreditavelmente presidencial. Talvez seja por isso que queiram sufocar – e em última instância extinguir – aquilo que somos e fazemos. Não se trata de combater uma postura política específica a partir de outra; para fazer isso todos serão muito bem-vindos em minhas aulas, só para dar um mínimo exemplo, onde talvez eu possa ajudar também a compreender melhor os valores implicados em cada posicionamento. Trata-se de eliminar a própria política do debate, uma vez que ela presume o respeito a posições contrárias às nossas, e um mínimo de sensibilidade ao sofrimento do outro.

Enfim, são muitas as metamorfoses possíveis e provavelmente em curso no período que estamos vivendo agora. Não sei exatamente quais, mas imagino que requeiram energia e dedicação do nossos corpos, mentes e almas. Infelizmente, cá estamos nós perdendo tempo com quem é imune a qualquer tipo de transformação ou mudança. Mas isso há de passar. E a literatura continuará aí, sendo não apenas um ponto de encontro para visões de mundo semelhantes, como também uma forma de elaborar visões de mundo distintas. Ela serve pra muita coisa; só não serve para a negação do mundo humano, com seus desejos, conflitos e conciliações. Para isso realmente bastam duas palavrinhas. Para isso ninguém precisa ler ou escrever livros. Para isso, de fato, basta dizer “e eu com isso?”. Para isso basta o “e daí”.

4 comentários sobre “Kafka contra o “e daí?”

  1. GUS, sempre brilhante! Parabéns!
    Coloca o surreal no seu lugar, relembra e redimensiona o filosófico, o histórico, o poético, o pedagógico, o político.
    Saudades das interlocuções desafiadoras com meus alunos, desalento e indignação por seresumaninhos que atropelam a evolução do Humano.

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