Todos os signos

Calhamaços do zodíaco

Pegando carona na onda das listas e correntes, minhas dicas separadas por signos para quem está disposto a encarar algum clássico mastodonte literário durante a quarentena:

Áries: Guerra e Paz, de Leon Tolstoi. Tem bastante guerra. Aí é só você pular as partes de paz.

Touro: As Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac. Vale a pena ler, nem que seja só para chegar na descrição do restaurante Flicoteaux, certamente um dos grandes momentos da literatura sobre comida e dinheiro – ou a falta dele. Balzac era taurino, aliás.

Gêmeos: Ulisses, de James Joyce. É legal se você não levar muito a sério. Por isso, o leitor ideal de Joyce é geminiano.

Câncer: Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, ou As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki, ou a Trilogia do Cairo, de Naguib Mahfouz. Três calhamaços sobre famílias e uma pergunta: quantas gerações cabem numa quarentena?

Leão: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Para ler agora incluindo os “capítulos prescindíveis”, pulando de cá pra lá e de lá pra cá, como se fosse uma brincadeira.

Virgem: Casa Desolada, de Charles Dickens. Ah, as delícias de conhecer nos mínimos detalhes os trâmites de um caso judicial inglês.

Libra: Os Embaixadores, de Henry James. Para quem está com tempo de avaliar cada possível decisão ou gesto dos personagens em frases que duram parágrafos e parágrafos que duram páginas para no final das contas a gente descobrir que o tal fulano decidiu nem fazer nada e ficou parado onde estava mesmo.

Escorpião: Moby Dick, de Herman Melville. História de um sujeito estranho, obstinado e movido por impulsos obscuros. Modelo moral.

Sagitário: A Odisseia, de Homero. A. Maior. Viagem.

Capricórnio: Middlemarch, de George Eliot. Para quem quiser encarar a dureza da vida, nesse que Virginia Woolf classificou como um dos poucos romances ingleses escritos para adultos. E capricornianos.

Aquário: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nonada. Tem frase que seja escrita no normal das gentes nesse livro não, o senhor se espante.  

Peixes: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. História de um velho zureta que confunde sonho com realidade. Modelo moral.  

Acrescentaria ainda, em uma categoria à parte, Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Dostoievski, que é sem dúvida o livro que eu levaria para uma ilha deserta (ou para uma quarentena, se tivesse que escolher um só), não necessariamente por ser o melhor livro que já li, mas porque já li umas três vezes e nunca me lembro direito do que acontece nele. Tirando, é claro, que fulano mata sicrano. O resto é simplesmente a maior bagunça. Não recomendado para virginianos.  

Um comentário sobre “Calhamaços do zodíaco

  1. Oi Gustavo! Como sempre, me deliciando com suas colunas. Apenas uma pergunta: o que algum(a) geminiano fez para merecer este tratamento de sempre ser o pior signo, ou o mais leviano, ou o mais irresponsável …

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