capricórnio, gêmeos

Te amo, Gêmeos!

Quase Famosos (2000) | Dir. Cameron Crowe

Amo zoeira com signos, e amo mais ainda quando meus amigos se lembram de mim por causa de uma zoeira. Aí esses dias um deles me marcou em um tuíte que diz assim: “A quarentena está fazendo até capricorniano se declarar, aquariano responder na hora, sagitariano querer namorar, taurino admitir que errou e virginiano admitir que ama alguém. Geminiano não muda nada continua cada vez pior”. De acordo, em parte: sinto que sobretudo que no começo o texto está muito certo. Já mais para o final não concordo tanto. Acho que dá para resumir esses dois sentimentos na seguinte frase: amo Gêmeos e vou defendê-lo até o fim.

Aproveitem, não é sempre que capricorniano sai por aí fazendo esse tipo de declaração. Aliás esse clima de pandemia apocalíptica lembra uma cena do filme Quase Famosos, sobre uma banda de rock que chega a fazer algum sucesso e logo entra em decadência. Tem uma hora em que pela primeira vez eles usam um jatinho em uma turnê, só que no meio da viagem o jatinho começa a cair, e parece não haver esperança alguma de evitar o desastre. Nisso os integrantes da banda começam a fazer declarações e confissões uns aos outros no meio da tremedeira da queda. O avião não cai, o piloto consegue salvá-los, e eles andando na pista do aeroporto depois – aquelas caras de “nunca mais ninguém fala do assunto” – é uma das cenas mais constrangedoramente engraçadas que há.

Dá para supor que existem capricornianos e geminianos entre eles. Por motivos diferentes, esses dois estão entre os mais sujeitos a fazer desabafos ou confidências em circunstâncias extraordinárias. Exatamente porque não fazem em circunstâncias normais. É claro que Gêmeos às vezes fala tanto ou manda tanta mensagem e figurinha que uma coisa ou outra acaba passando, porém a comunicação geminiana pode muito bem existir sem qualquer referência a sentimentos, ainda mais sentimentos profundos. Já Capricórnio é pura profundidade, e não deixa nada transparecer na superfície: guarda suas cartas bem próximas ao peito, mantém o semblante impassível, e é bem capaz de só mostrá-las se o mundo estiver acabando mesmo.

Vale a pena ver como ambos se posicionam ao redor da mesa do zodíaco. Gêmeos e Capricórnio relacionam-se em um ângulo de 150 graus, ou seja, um aspecto inconjunto, que forma um quíncuce. Esses são os termos técnicos, mas acho que são um pouco mais do que isso: por mais que o jargão astrológico já seja usualmente esquisito com suas quadraturas e declinações, essas palavras “inconjunto” e “quíncuce” têm para mim um sabor a mais de desengonçada estranheza, que não deixa de estar relacionado ao que simbolizam.

Gosto de escrever sobre arquétipos que estão posicionados nesse aspecto (como já escrevi sobre Câncer e Aquário, por exemplo, nesse post aqui) porque a princípio a relação entre eles não é exatamente harmônica nem conflituosa, mas sim desajeitada, tropeçante, cega. É como se fossem duas pessoas que nem se conhecem o suficiente para ter grandes simpatias ou antipatias entre si, e então precisam antes de tudo reconhecer a existência uma da outra, para a partir daí descobrirem formas de interação e convivência.  

Signos que se relacionam por meio desse aspecto podem se encaixar muito bem, desde que se parta do princípio do desencaixe. Estamos tratando de pessoas que a princípio não sabem nem como se cumprimentar direito, mas que com tempo ou com sorte podem encontrar interessantes pontos de contato entre si. Estes, uma vez identificados, podem ser revelar tão certeiros quanto aquela pecinha do jogo de lego que existe só para uma determinada função, em um determinado tipo de brinquedo. Ou, mais exatamente, são como aqueles brilhantes improvisos que permitem a conexão entre as mais diferentes partes de um objeto ou conjunto de objetos. Leia-se gambiarra.

Gêmeos adora uma gambiarra, sobretudo uma gambiarra comunicativa. Já Capricórnio rejeita as soluções fáceis e provisórias. A relação gambiarrada entre eles deve, portanto, contar com a capacidade geminiana de adaptação e mutabilidade. No entanto, ao invés de dizer simplesmente que Gêmeos se adapta às estruturas e rigores capricornianos, podemos inferir que Capricórnio abre uma brecha em seu sistema diante de Gêmeos, nem que para isso ele precise cair numa espécie de armadilha forjada pela astúcia geminiana. Uma astúcia que, por outro lado, pode ter que se reinventar e elaborar sempre novos recursos e artimanhas diante das reservas e resistências de Capricórnio.  

Permitam-me uma digressão narrativa a esse respeito. Lembrei aqui que um tempo atrás vi Capricórnio entrevistando Gêmeos em uma edição do Actor’s Studio. Bom, não sei quais eram os signos do entrevistador e do entrevistado, mas arquetipicamente acho que era isso que estava acontecendo. O barbudinho que guiava o programa tinha até um pouco de cara de bode, além de ser responsável, consistente, dedicado à formação profissional dos jovens atores e atrizes. O convidado era um ator de comédias (não lembro exatamente qual; talvez o Steve Martin; em todo caso o ator cômico é uma figura arquetipicamente geminiana).

Aí lá pelas tantas o entrevistador citava uma antiga declaração de seu convidado, em outra entrevista, na qual ele dizia ser “uma pessoa superficial”. Capricórnio em seguida perguntava a Gêmeos, de maneira perspicaz e sóbria, em um tom ao mesmo tempo elogioso e crítico da falsa modéstia do ator: “Você disse isso mesmo? Você se considera superficial?”. O ator respondia que sim, que tinha dito aquilo. O entrevistador, porém, prosseguia, tenaz e insatisfeito com a resposta: “Mas você não acredita mesmo nisso, acredita?”. O ator: “Sim, claro, é isso mesmo, eu sou superficial.”

O entrevistador, começando a ficar meio perdido, talvez preocupado com o exemplo dado aos jovens: “Mas você se formou em Harvard…” O ator fazia uma cara de “sim e daí?” Nesse ponto, as coisas ficavam realmente desajeitadas, embaraçosas, porque o entrevistador não sabia como continuar abordando o assunto, nem conseguia mudar de tema. O ator então tomava a palavra de maneira mais generosa, passando por um momento a falar de forma mais didática, para se explicar melhor, parecendo disposto a eliminar possíveis mal-entendidos:

“Olha, eu disse isso, mas não é porque eu considere que outras pessoas são mais profundas, que eu seja mais vulgar ou banal que os outros. O que eu acho é que o ser humano é uma criatura meio superficial mesmo. A gente pode filosofar o tanto que der para filosofar, inventar a metafísica que a gente quiser inventar, mas no final das contas a gente nunca deixa de ser essas criaturas meio tontas que não sabem nem como vestir uma camisa sem se atrapalhar com os botões”. O entrevistador, aliviado por ter recebido uma resposta mais significativa: “É, vendo nessa perspectiva eu sou superficial também.”. O ator, retomando certo ar de malícia: “Sim! Claro que é”.

Ponto para Gêmeos. Mas, como disse, a relação entre eles não é de oposição ou mesmo de complementaridade, o que permite que eles comentem desvios um do outro de maneira despretensiosa e por isso mesmo mais efetiva. Então, por outro lado, Capricórnio pode ter alguma coisa a dizer a Gêmeos sobre o valor da verdade, por exemplo (geminianos se permitem uma grande margem de manobra nesse assunto). Mas não vai fazê-lo através do confronto aberto e do discurso pedagógico (Gêmeos é imune ao discurso pedagógico). Capricórnio vai dar o exemplo em silêncio e como quem não quer nada. Como ele de fato não quer nada – Capricórnio não inclui entre suas muitas obrigações neste mundo a de corrigir a conduta de Gêmeos –, acaba conseguindo mais efeito do que de outro modo. “Eu faço desse jeito, você faça do jeito que quiser”, é a mensagem que Capricórnio transmite a Gêmeos. Às vezes funciona.  

Agora, voltando ao tema a superficialidade. É sobre ele principalmente que eu queria falar, pois acho que pode ser útil agora nesse período que estamos vivendo. Porque implica a noção de impermanência, uma característica que normalmente a gente vê nas descrições estereotipadas de Gêmeos como um signo que carece de foco e de substância. Porém, no contraste com as exigências de constância e consistência autoimpostas por Capricórnio, esse traço de personalidade pode ganhar outro destaque, na medida em que permite uma livre alternância de humores e pensamentos, sem apego a uma estrutura de fundo que os reúna em uma totalidade ou em uma narrativa coerente. Gêmeos sabe que o que a gente sente hoje não tem necessariamente nada a ver com o que a gente vai sentir amanhã. Acho que esse é um dado importante de termos em mente durante esse momento de quarentena.

Pois uma coisa que a gente percebe com clareza quando acompanha as próprias alterações de humor em sincronia com trânsitos planetários é que o ânimo da gente muda fácil sem que mudem muito as circunstâncias imediatas. Ou seja, que somos todos meio geminianos. Em dias ou horas a gente vai da alegria ao desânimo e à tranquilidade e ao desespero sem ter muitos motivos concretos para isso. Pense em quantas vezes você saiu de um estado de prostração ou cansaço de repente com um impulso de entusiasmo sem nem entender o porquê. E vice-versa. De modo que, mesmo durante um confinamento em que nada de muito diferente aconteça de um dia para o outro, haverá dias mais difíceis e dias mais fáceis; não se trata de uma longa jornada linear rumo ao fundo do poço. Se hoje está complicado não quer dizer que amanhã estará também.

E essa é uma lição geminiana, mercurial, embora a gente tenha o hábito de considerar Júpiter, Saturno e Quíron como os grandes mestres na astrologia. Ela me lembra uns versos de Leonard Cohen em That Don’t Make it Junk (poucas coisas não me lembram uns versos de Leonard Cohen): “I know that I’m forgiven / but I don´t know how I know / I don´t trust my inner feelings / Inner feelings come and go”. Essa é aliás uma das faixas mais cômicas do compositor canadense, e esse “eu sei que estou perdoado” já é geminiano o suficiente para fazer valer a citação. Mas o que vem na sequência, essa ideia de que nossos sentimentos mais íntimos podem não ser confiáveis, porque estão igualmente sujeitos a fluxos e refluxos que a gente não entende nem controla – isso já vale por todo um tratado sobre Gêmeos, e sobre o que Gêmeos tem a ensinar para o mundo.  

Sim, eu sei, eu sei: não devia estar aqui dando argumento atrás de argumento para que os geminianos sejam assim tão… geminianos. Mas avisei que esse texto ia ser uma declaração de amor, e numa declaração de amor não dá para esperar que a pessoa fique fazendo críticas e ressalvas à conduta do ser amado (ainda que o ser amado mereça, isto é, ainda que o ser amado seja… geminiano). Mas, enfim, tive um filho geminiano no ano passado, e considero-me perdoado de antemão por agora achar esse signo o mais belo e justo e resplandecente e repleto de arte e poesia e urbanismo de todos os signos (junto com Capricórnio, que afinal é o signo do meu outro filho). Aliás outro dia eu literalmente encontrei uma forma de me declarar para o Gabriel depois de ouvir Piazza, New York Catcher, uma canção do Belle and Sebastian que em determinado momento diz assim: “I love you, I have a drowning grip on your adoring face / I love you, my responsability has found a place”.

Essa ideia da responsabilidade disponível que encontra um lugar no mundo no rosto cativante de outra criatura – ah, isso só pode ser a história de um pai capricorniano que tem um filho de Gêmeos. Mas é um pouco também a do irmão mais velho de Capricórnio que tem um irmão mais novo de geminiano – aliás o “irmão mais novo” é um personagem do arquétipo de Gêmeos, pois essa era uma condição muito singular de Hermes na mitologia. Como se não bastasse, meu filho que tem o Sol em Gêmeos tem a Lua em Capricórnio, o que tem a Lua em Capricórnio tem o Ascendente em Gêmeos, e eu tenho a Lua em Gêmeos e o Sol em Capricórnio. Esses dois signos estão no DNA astrológico da família e a gente parece ter sido de algum modo escolhido para tentar encontrar maneiras de fazer Gêmeos e Capricórnio conviverem e se gostarem.

Tenho muitos amigos geminianos também (escrevi mais especificamente sobre o arquétipo do amigo geminiano aqui). Agora, o amigo que me marcou no tuíte que citei lá no começo, ele é de Câncer. Ele se chama Gabriel também e no ano passado eu tinha dito a ele que provavelmente teria um filho com o mesmo nome e o mesmo signo dele. Acabou que o meu Gabriel nasceu um pouco antes, como vocês a essa altura já sabem. Aí já acho que não foi à toa que o Gabriel canceriano me marcou naquela postagem dizendo que Gêmeos não tem jeito é o pior signo e só tá piorando etc.. Canceriano é difícil, né? Fica magoado fácil, acho que até hoje ele ainda não aceitou muito bem, então entrou nessa de disseminar zoeira com os geminianos.

Pois então, Gabriel, aproveite que o amor de Capricórnio está em liquidação e a gente anda distribuindo afagos por aí como se fosse nosso último dia sobre a Terra. Te amo também, querido. Beijos de luz. Mas vamos parar de espalhar fake news sobre o signo do seu xará, pode ser? Se não eu vou ter que ficar te respondendo cada tuíte e cada postagem. Aliás por via das dúvidas vou lançar de uma vez a campanha Eu Defendo os Geminianos. Quem vai comigo? Eu ouvi um amém? Hashtag #somostodessuperficiais.

2 comentários sobre “Te amo, Gêmeos!

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