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A pílula certa

Leonard Cohen

Tem um poema do Leonard Cohen que começa assim: “Talvez você seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Acho que já falei desse poema aqui. Para mim, ele trata da nossa luta constante contra aquilo que não podemos dominar, aceitar, compreender, e que se manifesta em nossas vidas individuais através daquelas contrariedades e frustrações que basta ser adulto para conhecer bem. Esse verso sempre me vem à cabeça quando me vejo submetido a condições que rejeito, mas que são de algum modo inescapáveis. Outra lembrança que surge nessas horas é a de uma fala do The Wire (a série de TV) que inclusive já virou meme: “Você quer que as coisas sejam do seu jeito. Mas elas vão ser de outro jeito [You want things to be your way. But it’s the other way]”.

Nesse momento, em que estamos vivendo a experiência coletiva do incontrolável, e algumas pessoas buscam na astrologia respostas e explicações, confesso que minha percepção das coisas não vai muito além do que está dito aí. Sim, gostaríamos que as coisas fossem de um jeito (sem Coronavírus) mas elas vão ser de outro jeito (com Coronavírus). Por mais que siga todas as instruções mais restritivas em termos de confinamento e contato social (ainda que nosso perverso presidente insista em negar os fatos de acordo com o que lhe parece conveniente, da forma mais mesquinha), de certo modo estou ainda na fase de aceitar. Se a Eternidade tem algum tipo de plano que tornou esse episódio necessário na trajetória dos humanos sobre a Terra é algo que me escapa, enquanto me ocupo com o exaustivo cotidiano de uma quarentena em que por ora não cabe qualquer tipo de rotina. Isso, é claro, considerando ainda que minhas circunstâncias estão longe de ser as mais difíceis.

Essa, então, é somente uma mensagem que eu não queria deixar de oferecer a pessoas que estão em situações complicadas ou desesperadoras no momento. O que eu queria dizer é: procure ajuda especializada. Ninguém está entendendo direito o que está acontecendo, mas algumas pessoas são qualificadas para dar auxílio em situações como essa. É verdade que algumas pessoas são particularmente talentosas ou sensíveis para fazer isso, e há astrólogo/as nessa lista. Mas, se puder, se tiver condições, e um bom contato, recomendo que procure um/a psicólogo/a, ou um/a psiquiatra.

Não é todo mundo que vai precisar. Mas alguns vão. Se você estiver sentindo que vai, deixe marcada uma consulta remota desde já, isso pode fazer a diferença. Antidepressivos, por exemplo, costumam levar cerca de duas semanas para começar a fazer efeito. Com frequência a dose ou a própria medicação acaba sendo alterada nesse intervalo. Não são remédios baratos, mas, em tempos de escolher a dedo os gastos essenciais e os supérfluos, é possível que você os inclua na primeira categoria. O preço das consultas varia, mas um bom psiquiatra não precisa de mais que uma conversa de uma hora tentar uma primeira prescrição.

Sei que para muita gente isso não é novidade, mas nos círculos esotéricos pode haver desinformação sobre isso e o eventual preconceito com a psiquiatria. Não que ela não tenha culpa no cartório. Há estados depressivos que são antes mascarados do que tratados com os remédios prescritos, e não creio que sejam recomendados, por exemplo, para situações de luto ou tristeza dos quais nos recuperamos em um tempo mais ou menos previsível. No entanto, parece-me que a situação de agora tende a torná-los bastante úteis, uma vez que funcionam melhor no médio prazo do que os ansiolíticos, e, até onde entendo, causam menos dependência.

Por outro lado, tanto para o curto quanto para o longo prazo, a prática da meditação é sempre recomendada. Inclusive para quem estiver se medicando, ou sobretudo nesses casos, pois ela pode se tornar o substituto ideal para o efeito do remédio quando a dose for diminuída ou suspensa. Um pouco como nesse outro poeminha do Cohen que deixei aí na imagem. Eu poderia perfilar nomes de livros e links para quem quiser começar, mas costumo perceber que isso acaba tendo o efeito inverso em muita gente: com tantos livros para ler e vídeos para assistir com técnicas e fundamentos tão diferentes, o indivíduo acaba chegando à conclusão de que se trata de um negócio infinitamente complicado, e que não existe nenhuma chance de ele fazer aquilo do jeito certo. Então a única coisa que você precisa saber é: não existe jeito errado de meditar.

Isso não é modo de dizer. Não é frase de efeito. Simplesmente é assim. Você cruzou suas pernas, puxou o ar, soltou o ar, sentiu uma espécie de leveza ao perceber como é bom soltá-lo, pensou “gente que bom meditar mas pera esqueci de ligar pra mamãe e a compra do supermercado disseram que tá levando três semanas pra entregar não deve ter gente suficiente aquela moça do caixa da padaria coitada o filho dela é asmático a gente devia ajudar mas e a nossa conta da farmácia é fralda todo dia tem comprar fralda aliás vou ligar pra farmácia agora logo de uma vez”. Você se levanta, vai ligar para a farmácia. Parabéns, você meditou.

Da próxima vez é só fazer a mesma coisa por um pouco mais de tempo, se tiver um tempinho pra isso. E perceber como toda vez que você solta o ar há durante um nanosegundo o mais absoluto alívio dessas preocupações todas. Por esse instante é como se nada disse existisse. Trata-se então de valorizar esse alívio, reconhecer que ele é tão verdadeiro quanto a outra parte. Mas já estou me estendendo além da conta, e a coisa já pode ter começado a parecer mais misteriosa e sobrenatural do que é. Meditação, em resumo, é respiração. Você medita o dia inteiro enquanto faz um monte de outras coisas. O dia inteiro você passa se lembrando e se esquecendo das coisas. O que você pode fazer além disso é separar um momento do dia para ficar só meditando mesmo.

Quanto à astrologia, nada impede que uma consulta ou uma boa conversa sobre o assunto venha a ter um papel benéfico agora. Sobretudo por seu caráter lúdico, e sobretudo para quem tiver a sorte de estar sofrendo de tédio, ou quem quiser inserir na história da seu confinamento um diálogo a respeito de nosso lugar no cosmos e os movimentos planetários do momento (em contraste com nosso lugar na casa e nossos movimentos entre a sala, o quarto e o banheiro).  Só acho que esperar dela explicações ou soluções nas atuais circunstâncias é muito mais do que tem a oferecer. O que ela pode fazer, além de dar outras formas simbólicas de narrar a experiência histórica ou cotidiana, é reforçar a percepção de que determinadas decisões foram mesmo acertadas. Como, por exemplo, ao identificar que aquela psiquiatra que você procurou e que te receitou um remédio tem tudo para ser uma personificação de Quíron em sua vida.

Isso dá para a gente fazer (sobre Quíron, a propósito, já escrevi algumas vezes, mas, nesse contexto da discussão sobre práticas terapêuticas, especificamente aqui). De minha parte, ainda não consigo inserir atendimentos na agenda, mas, dependendo de como andarem as coisas, vou abri-la pelo menos para os sábados. De todo modo fico feliz que um ou outro amigo tenha me escrito perguntando qual era minha perspectiva sobre os acontecimentos atuais. Repito: acho que não estamos na parte de entender (não no sentido existencial, metafísico, astrológico, ou mesmo sociológico do processo), mas no momento de aceitar, agir para minimizar os danos, e tentar reorganizar um pouco o que saiu demais dos eixos. Ao mesmo tempo, antes de tentar retomar o controle da situação pela via do entendimento, acho que é o caso de permitir que ela nos transforme por meio dos sentimentos que podem surgir no caminho.

Por isso, qualquer leitura no sentido de “isso está acontecendo porque” ou “isso está acontecendo para que” tira um pouco a voz do isso que está acontecendo e tem força própria e seu jeito de fazer as coisas. Qualquer uma dessas frases faz parte daquela velha discussão com a Eternidade, que inclui as ultrajadas perguntas a respeito da mania que ela tem de contrariar nossos planos e desejos. Talvez por aí se justifique também uma certa reticência na busca por tratamentos imediatos. Naquele mesmo poema, porém, Cohen considera que “após muito tempo, as respostas para essas questões tendo gotejado de baixo para cima a partir do fundo do seu estômago, ou para baixo a partir do topo do seu chapéu, ou depois que te prescreveram, afinal, a pílula certa”, algo de substancial mudará em sua postura. E talvez você até pare de se envolver em discussões sem sentido com quem quer que seja.

Leonard Cohen, enfim, além de músico e poeta, foi monge budista por uns tempos, foi sempre aficionado por práticas esotéricas e místicas, mas nunca deixou de tentar medicamentos para atenuar a depressão de que sofria desde a juventude. Essa é uma história interessante que contei nesse post aqui. Agora, queria apenas lembrar esse detalhe da pílula no poema, na esperança de cada um de vocês encontre a pílula certa agora – seja ela um remédio mesmo, uma rotina de meditação, ou uma consulta astrológica, ou a leitura de poemas e romances, ou convívio fraterno com as pessoas próximas, ou contato solidário com as distantes.

Infelizmente, ainda assim haverá muita gente para quem nada disso será suficiente ou sequer razoável, por razões econômicas, políticas ou psíquicas mesmo. Mas, no geral, e individualmente (cada um sabe onde o calo lhe dói), recomendo que não excluam nenhuma possibilidade de tratamento ou ajuda. É só considerar que cada uma delas é recomendada para casos diferentes, e que situações de maior emergência podem exigir intervenções profissionais competentes e provisórias. De todo modo, sempre que puder ajudar em alguma coisa, contem comigo. Estarei aqui.

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