peixes

Cem anos de piscianos (e os peixinhos do Aureliano)

[Ilustração: Luisa Rivera]

Algumas semanas atrás fiz aqui uma enquete literária. Escolhi dois autores de cada signo e pedi para votarem na dupla que merecia um texto. Ganhou Peixes, com Gabriel García Márquez e Philip Roth. Foi aí que decidi reler Cem Anos de Solidão (é verdade que a releitura teve também outro motivo, mais inusual ainda; é que, no ano passado, como alguns de vocês sabem, minha mulher e eu tivemos um filho chamado Gabriel; o autor colombiano – e não o artilheiro do Flamengo, como em outros casos da mesma geração – foi um dos argumentos que tive para emplacar esse nome; ela a princípio queria Francisco, mas tive que alertá-la que um filho chamado Francisco Franco não ficaria bem, por causa do ditador espanhol; e eu queria que ele tivesse o mesmo sobrenome do irmão mais velho – do meu primeiro casamento –, não fosse isso ficaria feliz em usar o sobrenome da minha família materna, Naves, como ela fez com o dela; daí ele acabou se chamando Gabriel Siman Franco, mas nascendo geminiano e no dia do aniversário do Francisco Buarque de Hollanda, o Chico, o que funcionou como uma espécie de compensação).

Pois bem. Cá estava eu aqui relendo o livro do Gabriel pisciano quando começaram a chegar as notícias mais impactantes a respeito do Coronavírus, e pouco depois iniciou-se o período de reclusão daqueles que podem permanecer em casa. Antes de continuar devo dizer que estou no mínimo tão preocupado com a situação quanto a maioria de meus conhecidos. Até mesmo em pânico dependendo da hora do dia e das notícias que chegam, e exausto com as exigências das circunstâncias extraordinárias. Por isso mesmo esse blog, que completou um ano de vida essa semana, tornou-se mais do que nunca um passatempo valioso e uma distração conveniente. Enquanto escrevo essas linhas o número de casos deve ter aumentado em números amedrontadores, mas não vai dar para passar as próximas semanas acompanhando em tempo real o número de casos.

De modo que, para além das funções compartilhadas de cuidar da casa e cuidar do bebê, das horas dedicadas ao trabalho remoto e a manter contato com amigos e familiares, vou tentar continuar postando enquanto/se tiver condições. E devo continuar relendo Cem Anos de Solidão. Quem conhece o livro pode imaginar os sentimentos ambíguos que venho tendo com a narrativa nos últimos dias, nos poucos momentos em que foi possível continuar a leitura: por um lado, o mais puro prazer da experiência de um estilo que nos permite mergulhar em um mundo à parte em sua luxúria poética e imaginativa; por outro, a eventual sensação de que há algo de distópico no realismo fantástico de García Márquez, assim como há algo de realismo fantástico na distopia que estamos vivendo.  

O que tem me chamado a atenção é sobretudo como os eventos que afetam os personagens do romance têm um caráter coletivo e inescapável para as gerações que os enfrentam. As pestes, as inovações científicas, as transformações políticas, os eventos econômicos: tudo isso é relatado de tal forma que nos deslumbramos com a invenção do gelo, por exemplo, tal como foi experimentada por um Buendía, mas os Buendía não deixam nunca de ser uma metonímia de todo o universo do romance, que é não apenas Macondo, mas também a nação onde acontecem as insurreições armadas lideradas pelo primeiro Aureliano, a região caribenha para onde fogem os insurretos perseguidos pelo governos conservador, o grande mundo de onde veem os árabes da Rua dos Turcos e do qual afinal chegam os funcionários gringos da companhia bananeira.

Há algo de ambivalente na maneira como esses episódios têm algo de histórico e de mítico. O crítico Roberto González Echevarría matou a charada em um dos mais respeitados livros sobre a literatura latino-americana: Cem Anos de Solidão é mito e arquivo, é invenção e memória, é um delírio exuberante de um cigano louco e também a realidade dura de um exército sanguinário que atira sobre a multidão grevista na praça central da cidade. É pleno de vida embora seja o tempo inteiro atravessado por incontáveis mortes; trata de dores infinitas e sofrimentos dilacerantes, mas com uma beleza que encanta e inebria; é um romance populoso sobre uma casa onde as pessoas vivem amontoadas e aos berros – e nem pode isso deixa de ser um romance de ásperos silêncios, nem por isso deixa de ser um romance sobre a solidão.

Há lutos que se emendam com outros lutos. Há uma chuva que dura quatro anos, onze meses e dois dias, e que deixa a cidade em ruínas, “desmantelada”, com “esqueletos de animais cobertos de lírios colorados”. Há a epidemia da insônia, há toques de recolher, há fuzilamentos na calada da noite. A viúva Rebeca Buendía passa décadas sozinha esquecida dentro da casa onde vão morrer os pássaros. Reclusão, confinamento e quarentena são palavras que aparecem no romance o tempo inteiro. Por isso, e um tanto curiosamente, minha experiência de reler o livro agora acabou sendo não exatamente de fuga da realidade imediata em direção a um mundo fantástico, e sim de encontro com uma realidade que estava desde sempre na Macondo de García Márquez, e que agora me parece muito mais palpável e factível.

No entanto, embora não seja uma experiência escapista, não deixa de ser uma experiência de (re)leitura com características piscianas. Mesmo considerando tudo isso, continuo me deixando levar pelas imagens oníricas que perpassam a narrativa, como que submergindo em um oceano de adjetivos tão exatos quanto abundantes, na deliciosa tradução de Eric Nepomuceno. Tem também a questão dos nomes: chega uma hora em que a gente não sabe mais exatamente de qual Aureliano ou de qual José Arcádio o narrador está falando, mas aí isso já nem importa muito, pois o estilo de García Márquez nos convida à vertigem dos nomes como se nos envolvesse em um sonho onde os detalhes sobre quem é quem já não fazem tanta diferença. E essa lânguida entrega à leitura, àquilo de Coleridge chamou de “suspensão da descrença”, acontece em Cem Anos de Solidão tal como acontece no âmbito do arquétipo de Peixes, pois é nele que habitamos universos paralelos onde os limites entre a realidade e ficção ficam totalmente borrados.

Acho que é aí que Gabriel García Márquez e Philip Roth se encontram. Roth é também um autor envolvente, que se espalha em extensas frases perfeitamente arrematadas com um engate exato na frase seguinte. Lembro do prazer que senti ao ler Pastoral Americana ou A Marca Humana, por exemplo. Muitas vezes os fatos narrados eram terríveis, ou ultrajantes, ou repulsivos, porém isso era feito de tal maneira quo o terrível e o ultrajante e o repulsivo podiam prosseguir indefinidamente, no que dependesse da vontade do leitor, tal seu poder de entretenimento. Difícil encontrar dois autores tão grandiosos nesse sentido. Aliás, uma coisa que me chamou a atenção qu ando escolhi esses dois para Peixes na enquete é que somente esse signo estava representado por escritores tão enormemente reconhecidos por público e crítica, em função das imensas obras que construíram.

Em tempos como estes, portanto, mergulhar de cabeça em um romance de Roth ou de García Márquez é recomendável. Eu pelo menos recomendo. Mas saiba que ao explorar esses oceanos você pode dar de cara com passagens que vão te trazer de volta para tempos como esses. Peixes é também sobre essas passagens, esses limiares, além de ser especificamente o arquétipo que trata da questão da reclusão e do confinamento (os personagens arquetípicos de Peixes – o monge, o doente, o louco, o viciado – com frequência vivem em estado de afastamento voluntário ou forçado de todo contato social). Além disso, Peixes, como já devo ter dito aqui algumas vezes, é sobre estar sujeito a forças que não podemos controlar.

Agora, se eu fosse me ater a um detalhe de Cem Anos de Solidão, sem dúvida seriam os peixinhos de ouro do coronel Aureliano Buendía. Refrescando a memória: antes e depois de ter promovido “trinta e duas rebeliões armadas, escapado de catorze atentados, setenta e três emboscadas e um pelotão de fuzilamento”, o coronel permaneceu longos anos trancado na oficina que foi de seu pai e depois do cigano Melquíades, produzindo peixinhos de ouro que trocava por moedas de ouro, para então fundir as moedas e vender os peixinhos forjados a partir delas. O aspecto cíclico da atividade é ressaltado a princípio como um indício dos vãos esforços que marcam a trajetória dos Buendía, enquanto Úrsula, a matriarca da família, volta e meia se vê diante do comportamento de algum Aureliano ou algum José Arcádio que parece reproduzir padrões de conduta dos antepassados. “É como se o mundo estivesse dando voltas”, ela repete mais de uma vez no livro.  

No entanto, essas recorrências guardam um segredo e um mistério. Peixes é também sobre como não somos tão diferentes de nossos antepassados como acreditamos ser. Somos novas manifestações do mesmo material a partir do qual se proliferam infinitamente as vidas humanas, como as ondas que quebram ininterruptas e abundantes na praia são sempre novas manifestações do mar, que não se desprendem nunca da matriz a ponto de estarem completamente separadas dela. Os peixinhos de Aureliano são um símbolo disso. E não são peixinhos por acaso.

Para terminar, lembro que em Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, C. G. Jung investigou as múltiplas reiterações e ressonâncias de imagens piscianas no inconsciente coletivo durante os últimos dois mil anos, isto é, durante a Era de Peixes. Se fôssemos complementar esse estudo hoje, ele não estaria completo sem os peixinhos de ouro que encontramos na obra de García Márquez. Afinal, o símbolo trata da maneira como as vidas individuais se veem mergulhadas nos mares da história e da memória, sujeitas às marés dos tempos e às intempéries das correntes subaquáticas.

De todo modo, espero que a gente passe por essa de agora sem ter que enfrentar as infindáveis dores e os permanentes lutos de que se ocupam os personagens do autor colombiano. Que tenhamos constância dos Aurelianos, a força das Úrsulas, a pertinácia dos Josés Arcádios, a tenacidade das Amarantas. Que sejam alguns meses apenas, que tenhamos uma segunda chance sobre a Terra. E que esse período, se possível, não seja atravessado por ninguém na mais completa solidão.

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