Todos os signos

Organização Zodiacal da Saúde: arquivos confidenciais

Em um incrível furo de reportagem, LUAS DE JÚPITER obteve acesso exclusivo a um dos documentos mais sigilosos envolvendo o novo Coronavírus. Optamos por reproduzi-lo na íntegra. Te cuida, Glenn Greenwald.


ATA DA QUINQUAGÉSIMA NONAGÉSIMA TERCEIRA REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA ORGANIZAÇÃO ZODIACAL DA SAÚDE, REALIZADA NO DIA CATORZE DE MARÇO DE DOIS MIL E VINTE.

Às quinze horas do dia catorze de março de dois mil e vinte reuniram-se na sala 502 do edifício-sede da Organização Zodiacal da Saúde em Genebra, Suíça, os doze delegados de cada signo do zodíaco convocados em caráter de urgência para tratar de pauta única referente à pandemia do Novo Caronavírus. O delegado do signo de Capricórnio, sr. Augusto Cabreiro, pediu a palavra: “Caríssimos senhores, caríssimas senhoras. Encontramo-nos hoje reunidos nesses imponentes recintos em função da iminente crise que se avizinha. Desde tempos imemoriais dos quais bem me lembro a humanidade tem sido vítima dos mais diversos tipos de pestilências, mas tudo indica que em questão de dias estaremos diante de um inédito desafio para nossos recursos e capacidades enquanto coletivo anônimo de cidadãos historicamente imbricados na projeção de um futuro de águas turbulentas…”. O representante do signo de Áries, sr. Fikannu Sensaku, interveio: “Ele tá dizendo que vai dar merda”. O sr. Cabreiro retomou a palavra: “Sim. Estou me referindo à possível catástrofe que com alguma relutância classificaria de acordo com a síntese do colega Sensaku, porém creio que não devemos nos deter em dissonâncias, para encontrar possíveis pontos em comum no enfrentamento da doença”. Os presentes assentiram. A delegada do signo de Libra, sra. Justine Labelledejour, ponderou que justamente por isso em sua opinião mas em sua opinião e só em sua opinião mesmo o Novo Coronavírus poderia talvez quem sabe ser convidado para um encontro diplomático com autoridades mundiais em que lhe seriam apresentados argumentos matizados e convincentes para que se detivesse em sua sanha contaminante, recebendo em contrapartida honrarias antes só outorgadas a chefes de estado, de modo que tudo pudesse ser enfim resolvido em um elegante jantar de confraternização no Palácio de Versailles. Ao ouvir a palavra jantar, o delegado do signo de Touro, sr. Couves do Azeitão, que até então dava sinais de sonolência, despertou. O sr. Sensaku interveio mais uma vez: “Pessoal, é só a gente começar incorporar o hábito de lavar as mãos antes e depois das refeições. Pronto. Resolvido? Já pode ir embora?”. O sr. Azeitão ponderou que isso implicaria eventualmente um gasto insustentável de recursos hídricos, uma vez que era só fazer as contas para perceber que lavar as mãos antes e depois das refeições levaria à necessidade de que cada indivíduo lavasse as mãos cerca de vinte e duas vezes por dia. Enquanto isso, a delegada do signo de Virgem, sra. Imaculatta Condoisttê, se levantou com o semblante escandalizado e dirigiu-se aos presentes em tom de indignação: “Como assim, incorporar o hábito de lavar as mãos? Qual era o procedimento adotado antes?”. Seguiu-se um longo e constrangido silêncio, enquanto a sra. Condoisttê lentamente se afastava dos demais representantes e retirava da bolsa um frasco de álcool gel. Diante do risco de dissenção aberta e dissolução da câmara deliberativa, o sr. Cabreiro enfatizou que não era hora de questionar ações passadas, nem de perder tempo com detalhes inexpressivos, e sim de realizar ações efetivas que contribuíssem para interromper o fluxo do contágio. Em resposta, a delegada do signo de Câncer, sra. Tadi Nhaa Dimin, afirmou com meiguice: “Estou plenamente de acordo no que se refere às ações afetivas”. O sr. Cabreiro corrigiu: “Eu disse efetivas”. A sra. Nhaa Dimin prosseguiu, dessa vez com certa rispidez: “Que seja. Ainda assim queria registrar meu desalento com o fato de que, diante dessa epidemia do Novo Coronavírus, o Velho Coronavírus foi esquecido, abandonado, negligenciado, não se fala mais nele, não se reverencia mais sua memória.” O sr. Sensaku interveio irritado: “Puta que pariu, haja paciência, reverenciar vírus, era o que faltava. Se o problema é esse é só chamar de Covid-19. Já podemos ir embora?”. A sra. Labelledejour se mostrou desconfortável com a admoestação brusca e o linguajar baixo, enquanto a sra. Nhaa Dimin respondia: “A que ponto chegamos, já não existe respeito nem pelo nome da família da pobre criatura virótica!”. O sr. Cabreiro sentiu-se na obrigação de encaminhar o debate novamente em um sentido responsável e produtivo: “Senhores, senhoras, acalmem-se. Reitero a necessidade de definirmos as ações que podem ser executadas para alcançar nossos objetivos, como, por exemplo, a suspensão de jogos, espetáculos teatrais, shows musicais e performances públicas de qualquer natureza.” A sra. Luz del Fuego, delegada do signo de Leão, que se encontrava entretida com a postagem de selfies através do celular, riu e disse peremptoriamente, sem tirar os olhos do aparelho: “Nem morta, fofo. Nem morta”.  Ninguém ousou replicar. O sr. Cabreiro conteve o desespero que começava a se revelar em sua face, e retomou a palavra com tenaz perseverança: “Bom, acho que devemos ao menos recomendar que certa distância entre os corpos seja mantida. Que o contato humano mais direto seja evitado a partir de agora”. A sra. Condoisttê, que a essa altura acompanhava a reunião remotamente, dirigiu-se aos presentes com um semblante aterrorizado através da tela de videoconferência: “Como assim, evitar o contato humano mais direto a partir de agora? Qual era o procedimento adotado antes?”. No entanto, a delegada do signo de Escorpião, sra. Indhira Khama Sutra, que até então encontrava-se perscrutando o ambiente com um penetrante silêncio, pontuou de modo ambíguo e misterioso, enquanto mantinha o olhar fixo na sra. Luz del Fuego: “Ah, sim, claro. Evitar o contato humano. Contato. Humano. Acho que devemos continuar essa discussão depois que a reunião terminar”. A sra. Condoisttê apagou a tela da videoconferência após exibir uma última expressão de pânico. O encontro parecia ter chegado a um carregado impasse. Até que o delegado do signo de Aquário, sr. Ezqzwit Ezqzwitsson, se manifestou na bem intencionada tentativa de salvar a empreitada: “Bom, não sei se entendi direito a proposta da sra. Sutra, mas sou a favor de continuarmos a reunião. Aliás acho que devemos fazer outras reuniões, muitas reuniões, o destino da humanidade está em nossas mãos. De mãos dadas podemos fazer mais! Ninguém solta a mão de ninguém!”. E deu as mãos para os colegas de ambos os lados, o sr. Cabreiro e o sr. Tokantanus Nachuvas, delegado do signo de Peixes. Nenhum dos dois correspondeu ao gesto. O sr. Sensaku resumiu o sentimento geral: “Pegar na mão não pode. Ninguém pega na mão de ninguém. Aliás não devia poder nem ter esse tanto de gente junta na mesma sala. Essa reunião era pra ser um email. Já pode ir embora?”. Houve uma espécie de assentimento geral, que pareceu mais devido ao cansaço do que à satisfação com os resultados obtidos. Até mesmo o sr. Cabreiro parecia disposto a capitular. Porém, enquanto isso, foi observado que o sr. Nachuvas permanecia com um ar de divagante dispersão desde o início do encontro, e que no seu caso a falta de ressonância em relação ao gesto do colega aquariano teria acontecido mais por desatenção do que por razões sanitárias. “Sr. Nachuvas”, disse o sr. Cabreiro, demonstrando uma última esperança, “o sr. não teria por acaso alguma espécie de sugestão criativa e inusual sobre como procedermos nesse caso do Coronavírus?”. “Coronavírus?”, respondeu o sr. Nachuvas. “Ai, desculpa, gente, achei que essa era a reunião do G-20”. Na sequência soltou um espirro. Enquanto o sr. Nachuvas assoava o nariz com um lencinho ao deixar a sala, houve grande azáfama entre os delegados. Alguns recolhiam seus pertences sem que a reunião tivesse sido oficialmente encerrada, o que motivou um último esforço do sr. Cabreiro no sentido de determinar alguma medida concreta: “Enfim, vocês não acham que devemos recomendar às pessoas que fiquem em casa?”. A sra. Nhaa Dimin respondeu: “Sim, claro! Ficar em casa! Apoiado!”. O sr. Cabreiro se empolgou: “Vocês não acham que certo isolamento é necessário?” O sr. Sensaku repercutiu: “Sem dúvida! Isolamento total! Apoiado!”. O sr. Cabreiro não se conteve: “Podemos então divulgar um comunicado dizendo que está tudo sob controle? De que foram estabelecidos limites para a disseminação da doença?”. Nisso foi ouvida a risada do sr. Massimo Destempero, delegado do signo de Sagitário, que geralmente tem essa reação sempre que ouve falar sobre controle e limites. Como o regimento da organização prevê que a gargalhada do sr. Destempero invalida quaisquer decisões previamente tomadas em uma reunião, mais uma vez terminamos sem nenhuma definição, como aliás costuma acontecer em nossas reuniões, para frustração do sr. Cabreiro. Em tom de derrota, antes de ir embora ele me instruiu a emitir para a população vagas orientações gerais sobre os riscos do contágio através de fluidos salivares, instruções essas que, a julgar pelos sons que chegam da sala ao lado, já não estão sendo cumpridas pelas próprias sras. Sutra e del Fuego. O sr. Azeitão parece também participar da brincadeira cumprindo um papel que eu não saberia definir a partir dos barulhos. Sem mais assuntos a tratar, foi lavrada essa ata, assinada por mim, Billy Bo Bagen, delegado do signo de Gêmeos, e só por mim mesmo, porque a essa altura os demais delegados foram embora com pressa e sem cerimônias. Sei que de minha parte deveria levar mais a sério o risco de contágio, até porque agora há pouco o sr. Nachuvas retornou espirrando e perguntando se é aqui a reunião do G-20, mas no dia que eu conseguir levar realmente a sério alguma coisa vocês podem saber que me trocaram de corpo com o sr. Cabreiro. Aliás o próprio me ordenou que eu mantenha esse documento do mais absoluto sigilo. Afirmei que ia obedecê-lo com rigor, só para me livrar dele mesmo, porque sem dúvida vou acabar contando tudo para o primeiro jornalista que me aparecer quando sair daqui. É a vida.

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