câncer, escorpião, peixes

Um trem aqui no meu coração

Tsunami | Katsushika Hokusai

Uma coisa que não comentei quando fiz a enquete do grande vilão do zodíaco foi o resultado por equipes. O lapso é imperdoável, mas está em tempo de corrigir. Vamos lá então: somados, os signos de Água ficaram com 52 votos, os de Ar, 44, Fogo, 23, e Terra, 15. É um resultado até surpreendente se você pensar que o temido Capricórnio está entre esses últimos, que o próprio Satanás não contribuiu para uma melhor posição do time liderado por Áries, que nem Libra conseguiu aliviar a barra de Gêmeos e Aquário, e sobretudo que entre os grandes e incontestáveis líderes estão os chuchuzinhos cancerianos e os piscianos distraídos.

Mas o resultado faz sentido se a gente considerar que a gente tem sempre medo do que não conhece. E os signos de água são exatamente aqueles que preservam sempre algo de oculto – inclusive de si mesmos – de tal forma que o mistério é inerente a esses arquétipos. Peixes é um caso extremo de vai-saber-o-que-tem-ali-dentro; mas Escorpião é também um arquétipo onde se aloja uma série de ameaças subterrâneas, e mesmo Câncer é capaz de transformar um ambiente “familiar” – como o da própria família – em algo perpassado por estranhos segredos. Além disso, quando dizemos que uma pessoa é “de lua” – a regente canceriana –, de certo modo estamos afirmando que essa pessoa é volúvel e pouco confiável.

É claro que esse resultado diz muito pouco sobre os signos de água propriamente, mas talvez diga algo sobre nós mesmos. Ele diz que o que a gente mais teme no mundo são as nossas emoções, sobretudo quando entendemos que elas estiveram ocultas ou reprimidas até o momento em que resolveram aparecer com toda força. A linguagem que usamos nesses casos com frequência é indicação disso: nós nos sentimos “tomados” por nossas emoções, como se fossem bandidos armados que nos fizeram reféns; “inundados” por sentimentos, como se não tivéssemos conseguido represá-los; e “traídos” por nossos próprios afetos, como não diríamos que somos pelos nossos pensamentos, por exemplo.

É interessante então lembrar que, para a humanidade primitiva, pensamentos não eram algo que um indivíduo “tinha” – eram simplesmente algo que ocorria a ele, um pouco como entendemos as emoções hoje. Pelo menos é assim que Jung descreve o fenômeno do pensar nos primórdios da humanidade, parecido com a perspectiva adotada por uma pessoa em estado de meditação, que vê os pensamentos lhe ocorreram e se dissiparem, como se tivessem vindo do nada e voltassem para lugar nenhum. Mas talvez para os primitivos isso de pensar tenha sido uma experiência realmente atemorizante, tipo, “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-na-minha-cabeça”. Ih, pensei.

Hoje, porém, estamos mais na linha do “gente-que-que-isso-apareceu-um-trem-aqui-no-meu-coração”. Ih, senti. Nesse caso não estamos falando do coração leonino, centro pulsante de onde jorra o entusiasmo vital, mas de um órgão mais abstrato, que confundimos de maneira geral com aquilo que chamamos de alma. É verdade que no caso de Escorpião acontece também de a gente de repente sentir um trem em outras partes do corpo. Mas isso é só uma das tantas maneiras como podemos perder o controle da situação, de tal modo que os signos de Água estão todos associados a alguma forma de desatino.  

Seja como for, seja como acontecer, o que a gente percebe é que esse descontrole tem sempre um papel nos desdobramentos não só da nossa vida psíquica, mas também dos fatos da existência. Trânsitos de Plutão e Netuno, por exemplo – os regentes de Escorpião e Peixes – são famosos pelas intensas transformações e desenganos que trazem, mas são também geralmente seguidos por atitudes até outro dia impensáveis, e que só se tornaram pensáveis nas novas condições.  Algo semelhante pode acontecer com uma Lua Cheia carregada de desafios e possibilidades, por conta de seus aspectos com outros planetas ou com o mapa natal de um indivíduo.

Ou seja: muita coisa que consideramos ser nossas ‘decisões’ só nos ocorrem em meio às crises causadas por esses dúbios sentimentos ocultos que súbito assomam e tomam conta do cenário. Dizer que essas decisões foram tomadas a partir de uma central de controle operações e gerenciamento de crises que existe dentro da gente, enquanto as crises e o descontrole são fenômenos que atribuímos a algo que não somos nós, é o que me parece problemático nesse caso. Tudo acontece fora e dentro ao mesmo tempo; é tudo uma coisa só.

Há, por exemplo, quadros depressivos em que o que a gente sente na alma é só um vazio mesmo. Mas mesmo esse vazio é um lugar escuro e oculto onde uma nova luz pode vir a brilhar.  O normal aí é entendermos que ‘reagimos’ a uma depressão, como se ela nos tivesse tomado de assalto, e nós no final das contas tenhamos conseguido reassumir o ânimo necessário para enfrentá-la. Acontece que esse ânimo – que pode muito bem ser um fogo sagitariano, a propósito – está totalmente vinculado ao escuro e ao vazio de onde surgiu.  

Além disso, essas ‘decisões’ que tomamos para sair de uma situação emocionalmente complicada, ou a vitalidade que pode ressurgir após um longo processo de luto, talvez sejam igualmente algo que nos ocorre, algo que nos ‘toma’, algo que nos ‘assalta’. Os antigos sabiam disso: nós somos possuídos pelo entusiasmo da mesma forma como somos afogados em lembranças. Acho essa percepção importante, para que a gente não fique achando que precisa encontrar uma solução para uma crise, forçar um reerguimento inábil, quando na verdade ela virá na hora que deve.

Trata-se de confiar na capacidade do corpo de voltar a funcionar a pleno vapor, mas quando o combustível para isso estiver disponível. Às vezes, o que está tendo para o momento é um convite ao descanso mesmo (e ao cuidado, ao resguardo, à intimidade). Novamente, portanto: que a gente precise atribuir esse convite ou exigência a forças externas e ocultas, torná-las objeto de desconfiança e suspeita, e inclusive conferir-lhes os atributos da vilania, é algo que talvez diga mais sobre nossa sociedade do que sobre os signos de água mesmo.

Acho até que muita coisa do que a gente entende hoje como doença faz parte de processos naturais de regeneração da alma. O problema é que a gente separa a enfermidade da cura como se fossem duas coisas distintas, enquanto não têm como deixar de ser uma coisa só. Queremos nos associar àquilo que apresentamos de saudável e animado e produtivo ao mundo, e tratar como um inconveniente alheio à nossa vontade a parte da vida que saímos de cena para cuidar de um trauma, ou lamber as feridas.

Outro dia escrevi, meio que à brinca, meio que à sério, na postagem sobre os hipocondríacos do zodíaco, que Escorpião convive bem com estados febris que duram longos períodos, e que Peixes sabe inclusive curtir uma febrinha como ninguém. É sobre isso que estou falando. Ou seja: são capazes de deixar-se tomar por sensações inusuais, improdutivas de um determinado ponto de vista, mas indispensáveis para o processo de cura de outro. Deixam-se inundar até mesmo por delírios, sonhos e outras alucinações que podem muito bem revelar-se os melhores guias para sair de um labirinto ou de um pântano.

Enfim: talvez, se a gente exercitar um pouco mais esse aprendizado, ao invés de tratar os arquétipos de água como vilões, vamos enfim vê-los como aliados. Ou melhor, vamos vê-los como uma parte de nós mesmos que não se deixa controlar por nossa vontade, para nossa salvação, pois é assim que eles lavam a nossa alma de um monte de tralhas que vão se acumulando em seus recantos. Por isso, se as águas da alma lhe parecem misteriosas e ocultas, incontroláveis e delirantes, volúveis e imprevisíveis, trate-as com a mesma deferência com que gostaria de ser tratado. Pois é a si mesmo que você estará tratando, exatamente, e,  quando vier a próxima enchente de sentimentos, saiba que você não será inundado: você será a inundação.

3 comentários sobre “Um trem aqui no meu coração

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