astros

Folia dos asteroides

Gosto da ideia de que a palavra folia remete etimologicamente à festa, à tolice e à loucura. Resulta daí que carnaval é um feriado que cada um deve mesmo passar dedicando-se aos pagodes que mais lhe apetecem. De minha parte, resolvi aproveitar para estudar uns asteroides. A brincadeira é apropriada porque, por mais que eventualmente use asteroides em interpretações de mapas e horóscopos, acho divertidíssimo pesquisá-los e conhecê-los por prazer mesmo, sem uma finalidade imediata, e inclusive por conta algumas bobagens saborosas a respeito deles que a gente encontra no caminho. São tão instigantes em seus nomes e características; são tão específicos em seus significados e relações.

Um tempo atrás descobri, por exemplo, que o asteroide 1566 ganhou o nome de Ícaro em função da órbita muito peculiar que realiza em torno do Sol. Vou deixar a imagem da órbita aí embaixo, entre um parágrafo e outro; a figura aí de cima é a do quadro de Marc Chagall para o Ícaro mitológico. Lembrando: ele foi o rapaz que ganhou asas construídas por seu pai, Dédalo, para que pudesse escapar do labirinto de Creta. Como deixou-se voar alto demais, acabou se queimando sem querer, e sofreu uma queda abrupta e veloz.

Essa é a parte astronômica e lendária. Mas, com isso, já dá para imaginar com facilidade as situações em que Ícaro participa de nossas vidas. São aquelas em que alguma forma de apoio ou incentivo nos fornece soluções para uma situação difícil, ou surgem condições para alçar maiores voos em alguma área onde estamos nos esforçando sem sair do lugar. Por outro lado, são também circunstâncias nas quais o entusiasmo ou o orgulho decorrente desse impulso requerem certas precauções, para que a gente não acabe se espatifando no chão.

No momento, Ícaro se encontra no terceiro grau de Aquário, portanto em quadratura com Urano em Touro, o que, dependendo do mapa natal da pessoa, pode de fato inspirar esse tipo de cuidado. Para quem tiver interesse nas efemérides, vou deixar aqui o link para a lista mais completa que conheço, embora goste também da lista do site da Jessica Adams, mais enxuta e visualmente mais agradável de acompanhar (nesse link aqui).

A propósito, o livro sobre o assunto que mais recomendo é o Mechanics of the Future, de Martha Lang-Wescott. Falei um pouco mais desse livro no final dessa postagem, onde menciono também o bom livro de Demetra George sobre Ceres, Vesta, Juno e Pallas, asteroides que entre 1808 e 1845 foram tidos como planetas (Ceres hoje é mais exatamente reconhecida como um planeta anão), são associados a arquétipos femininos, e estão em vias em vias de incorporação ampla à prática astrológica. É da Martha Lang-Wescott também a página mais incrivelmente bem alimentada de informações sobre o assunto que conheço; desconcertantemente bem alimentada, eu diria até.

Quem percorrê-la vai perceber que a quantidade de asteroides que já ganharam um nome e foram investigados astrologicamente é enorme. Nesse mesmo estágio em que está nosso conhecimento sobre Ícaro, por exemplo, são centenas. Uma vantagem disso é que muitos deles passaram a ser denominados a partir da mitologia e do folclore de povos diversos, e também que, quando permanecemos no âmbito da Europa, a coisa não se restringe mais a narrativas mitológicas. Há, por exemplo, um asteroide chamado Dom Quixote (número 3552), que no momento está retrógrado em 26 graus de Gêmeos. Pelo nome, não é difícil imaginar alguns de seus significados e implicações, e, portanto, não se assuste se você encontrar por aí geminianos reencenando lutas contra moinhos de vento.

Outra coisa que chama a atenção, em casos assim, é o mistério da complementaridade entre a denominação desses astros pelos astrônomos e seus significados simbólicos-astrológicos. Pelos nossos padrões usuais de relação causa e efeito, não faz muito sentido que os nomes ‘certos’ sejam os escolhidos pelos cientistas. Mas nada na astrologia faz muito sentido pelos nossos padrões usuais de causa e efeito; além disso, é difícil imaginar que a opção dos astrônomos por esse ou aquele nome seja totalmente aleatória. Então é possível também que isso seja feito a partir de alguma orientação bem pouco óbvia – uma dica intuitiva do inconsciente coletivo, por assim dizer.

O certo é que, por serem quase anedóticos em suas singularidades – embora não deixem de ter um enorme potencial para um uso sério e pragmático –, os asteroides são capazes de tornar o estudo da astrologia algo ainda mais envolvente do que normalmente é. A linguagem astrológica só tem a ganhar com este tipo de enriquecimento. Algo semelhante acontece com as partes árabes e pontos mais frequentemente usados na astrologia védica, como os já recorrentes nodos lunares, também conhecidos como cauda e cabeça do dragão.

No mais, para mim pelo menos, isso tudo ainda funciona do mesmo modo como funcionava de acordo com essa notinha a seguir, que escrevi uns anos atrás, quando não existia ainda esse blog, eu estava começando a estudar a astrologia com maior profundidade, e ao mesmo tempo comecei a me entreter com esses encantadores detalhes cósmicos:

Há um asteroide para as facas. Há um asteroide para as estratégias. Há um asteroide para determinados tipos de drogas. Há um asteroide para soluções práticas que vêm acompanhadas de dilemas morais.

Há um asteroide para paixões breves. Há um asteroide para momentos eternos. Há um asteroide para a medicina preventiva. Há um asteroide para as dores que não se pode curar.

Há uma posição do Nodo Norte que transforma zumbis em diplomatas. Há uma posição do Nodo Sul que transforma vigaristas em profetas. Há um ponto no mapa para relações inevitáveis e fatais. Há um ponto no mapa para decisões em que os astros não podem ajudar.

Há um ângulo entre a lua e o ascendente que, dependendo da posição de Netuno, pode muito bem fazer com que o Papa reencarne para tornar-se um Buda. Há outro em que um Buda reencarna para ser um general e entender melhor as artes da guerra. Isso se ele quiser, é claro. Ele pode muito bem continuar sendo só um Buda mesmo. Mas é possível que vá ficando cada vez mais cansado e rabugento.

Há posições de Saturno que indicam partos demorados. Há posições de Plutão que favorecem mortes gloriosas. De tempos em tempos, Vênus e Mercúrio estão de tal maneira relacionados que apontam uma forte possibilidade de encontrarmos um gato perdido miando baixinho no quintal de nossa casa. Isso vai mudar as nossas vidas. Ou então a lembrança desse dia vai mudar as nossas vidas, quando chegarmos aos 49 anos de idade.

Aprender astrologia é como estudar uma língua estrangeira: a melhor parte são as palavras e expressões que existem para coisas que sua própria língua não consegue nomear.

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