aquário

Os enigmas aquarianos

Ilustração: John Tenniel

Li por aí que os físicos chamam de entanglement a propriedade que determinadas partículas têm de continuar afetando umas às outras (com alterações simultâneas em suas características) mesmo quando estão apartadas por enormes distâncias, e a relação entre elas torna-se tão intangível quanto inexplicável. Fiquei pensando em como traduziria isso para o português; acho que “emaranhamento” foi a opção da comunidade científica lusófona, mas isso para mim enfatiza a sensação de uma armadilha, de um nó complicado de desfazer, enquanto se perde algo da ideia de envolvimento, ressonância, vinculação. Por outro lado, e pensando bem, acho também que não seria bom diminuir o aspecto desconcertante do fenômeno, com sua imagem de um universo de relações inexplicáveis entre partículas que um dia estiveram unidas e hoje praticamente se desconhecem, mas ainda assim de alguma maneira se comunicam através de amplos espaços, sem que se entenda exatamente o que estão dizendo umas às outras. Está no dicionário, to entangle: confundir, desconcertar, perplexar.

Eu fico assim, emaranhado, quando leio Virginia Woolf. Mrs. Dalloway, por exemplo. Mas é uma confusão boa, uma perplexidade maravilhada. Gosto de sentir que não estou entendendo direito o que está acontecendo ali, enquanto a pontinha do iceberg que aparece já basta para tornar tudo muito interessante. Aliás, nesse ponto o efeito da escrita de Woolf se assemelha muito ao do estilo de James Joyce, com quem ela compartilhou o proscênio do modernismo britânico, enquanto a complexidade lógica e lúdica que encontramos em Joyce remete à de Lewis Carrol, inglês também, autor de Alice in Wonderland. Em todos esses casos, as complicações na superfície do texto, os jogos de palavras e os fluxos interligados de consciência criam uma espécie de teia esgarçada de conexões provisórias, que vai se tecendo e destecendo durante a leitura, enquanto juntamos os pontos em busca de que algo mais profundo se apresente, ou então de que uma estrutura nítida enfim se revele. Mas fazemos isso sabendo que pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que o texto nos propõe.

E vocês sabem o que mais Virginia Woolf, James Joyce e Lewis Carrol tiveram em comum? Os três eram aquarianos. Daí já podemos deduzir que: pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas que Aquário nos propõe. Mas não custa nada especular a respeito. Às vezes me pergunto, por exemplo, se existe de algo de substancial por trás da imensa sofisticação estilística de Ulisses ou Finnegans Wake (ambos romances de Joyce), ou se tudo não passa de um jogo complicado e feito para confundir e perplexar a nossa mente. Algo semelhante acontece naquelas charadas com que Alice se depara em sua aventura no país das maravilhas, que às vezes parecem remeter aos grandes mistérios do universo, mas talvez sejam apenas brincadeiras interessantíssimas e ordinárias, sem outra função que não seja a de fornecer um passatempo intelectual com ares de segredo cósmico coberto por um véu matemático.

Ou seja: Aquário parece nos induzir a altas suposições sobre aquilo que enuncia, mas isso pede sempre a gente tenha certo cuidado em discernir o realmente complexo do meramente complicado. Ambos podem coexistir no mesmo arquétipo. A inovação científica é arquetipicamente aquariana, porque é em Aquário que se aloja o mito de Prometeu, que entregou aos humanos a luz e as técnicas para fazer o fogo; mas as complicações usuais da linguagem dos cientistas são com frequência apenas uma exigência da especialização, e não um indício de que algo de oculto está em jogo, como é o caso na maior parte das utilíssimas e também aquarianas pesquisas realizadas com fins práticos imediatos de inovação e melhorias na sociedade. Por outro lado, os escritores aquarianos que selecionei talvez não tenham sido contemporâneos dos primeiros teóricos da física quântica por acaso. Então, acho sim que, tanto no caso do modernismo inglês quanto no da astrofísica contemporânea e adjacências, as complexidades da linguagem remetem a verdadeiros mistérios da existência.  

A ideia de emaranhamento, portanto, não me parece ser meramente complicada de entender; ela é realmente complexa, na medida em que desafia os padrões usuais de entendimento da realidade com possibilidades totalmente impensadas até outro dia. Poderíamos dizer algo muito semelhante do estilo de Virginia Woolf; suas sinuosidades e piruetas não acontecem só para nos confundir e deslumbrar; existe algo de diferente mesmo acontecendo ali. Em seus romances, fatos distantes no tempo e no espaço relacionam-se como as partículas emaranhadas de nosso universo em expansão. A questão, mais uma vez, é saber se será possível desemaranhar o universo e o texto, isto é, se conseguiremos um dia chegar a uma solução para o mistério que ambos propõem, como quem interpreta uma frase difícil e alcança o significado que está por trás de suas sutilezas e meandros.

Acho ainda que, se a gente um dia conseguir realmente entender o que está acontecendo nos romances de Virginia Woolf, a gente vai conseguir entender o que está acontecendo no universo. Mas não vejo muita chance de isso acontecer mesmo. Pois, tanto em um caso como no outro, nós estamos tão envolvidos na história que não temos como observá-la com objetividade; nós participamos da narrativa, estamos emaranhados nela, e as conexões que conseguimos perceber estão sempre condicionadas pelo nosso posicionamento momentâneo em relação a todo o resto. Qualquer semelhança dessa percepção com implicações da Teoria da Relatividade para nossos hábitos epistemológicos não é casual.  Em suma, o estilo de Woolf é daqueles que nos faz submergir em suas palavras, assim como o estilo do universo é daqueles que nos submerge em suas estrelas.  

Quem falou algo de muito interessante a esse respeito dessa nossa posição no cosmos foi o filósofo inglês (e aquariano) Alfred North Whitehead – justamente o pensador ocidental que acompanhou mais de perto os primeiros desdobramentos da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, elaborando a partir daí uma obra que encontra muita ressonância entre pensadores orientais também. Para Whitehead, nosso cosmos é um processo criativo que está em curso, e no qual o próprio cosmos está criando a si mesmo; nós participamos dessa criação, mas não a controlamos nem podemos entendê-la completamente. É mais ou menos como se fosse uma narrativa, mas não exatamente um romance, e sim uma série, que se desdobra a partir de uma necessidade interna do enredo, e cujo fim permanece sempre em aberto porque não existe exatamente um autor externo a ela controlando seus desdobramentos (escrevi mais sobre isso no capítulo que fiz para este livro de ensaios; e qualquer semelhança desse raciocínio com a maneira como a astrologia é tratada nesse espaço tampouco é mera coincidência).  

Nada disso – muito menos a astrologia – equivale a uma explicação do cosmos. “Nós vivenciamos muito mais do que podemos analisar, porque vivenciamos o universo”, Whitehead afirmou em Modes of Thought. Algo muito semelhante poderia ser dito dos personagens de Virginia Woolf. Eles vivenciam muito mais do que podem analisar, porque estão sujeitos a um conjunto enormemente complexo de influxos, sensações, pensamentos; suas decisões não podem nunca ser atribuídas a um raciocínio ou intuição em particular, e parecem ser antes decisões de todo o universo do livro do que de um indivíduo em particular. “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”: já a partir dessa despretensiosa sentença nada parece ser tão simples assim, por mais que ela ironicamente funcione como uma mera enunciação com sujeito-verbo-predicado. Dá até a sensação de que haverá um ponto de partida estável, mas logo em seguida os limites desse sujeito se desfazem, o ponto de vista narrativo muda, e percebemos que ele já estava em movimento desde o começo.

Até mesmo na obra muito mais convencional de Charles Dickens, outro autor inglês e aquariano (essa relação entre o inglesismo e o aquarianismo precisa ser estudada), são os personagens excêntricos que realmente ganham a nossa atenção e carinho, ao mesmo tempo em que desestabilizam as convenções textuais. Dickens é daqueles autores que parecem adotar um modelo narrativo fixo e previsível em linhas gerais, só para poder brincar com ele à vera nos detalhes. O universo de Dickens tem um centro, é verdade, e esse centro é Deus, mas às vezes o texto se distrai tanto com as criaturas desgarradas que povoam as margens desse cosmos, que já dá para imaginá-lo destituído das certezas e seguranças que governam seus finais felizes. Dickens foi um dos últimos autores a conseguir reunir em uma unidade de enredo todos os fragmentos espalhados no universo de portentosos romances como Bleak House; depois dele, ninguém mais segurou o Big Bang da narrativa.

Mas Aquário, no final das contas, de fato não diz respeito a um centro, à concentração de energia ou poder em um só ponto, à ideia da realeza que espontaneamente atrai para si todos os olhares; tudo isso acontece no arquétipo leonino, seu oposto complementar no zodíaco, e muito bem representado pelo regente solar. Enquanto Leão é o Sol, Aquário é o Céu: é esse o significado mitológico de seu regente, Urano, por onde se espalham e se dispersam as energias solares em um amplo sistema de distribuição. Pelo mesmo raciocínio, quando pensamos no corpo humano, Leão governa os assuntos do coração, e o Aquário os do sistema circulatório. E, assim como se associa ao mito prometeico do portador da luz, o signo está naturalmente vinculado também à imagem do “portador da água”, que a leva para quem tem sede, mesmo que isso implique uma viagem aos confins do cosmos – lá onde a água não chega porque os reis leoninos jamais se ocupariam com um movimento tão excêntrico, que os afastassem tanto do palco onde são o centro das atenções.

Com isso acho que dá para voltar enfim à questão do emaranhamento, com uma nova perspectiva. Sim, há nessa ideia algo que causa perplexidade e confusão, assim como acontece no estilo de Virginia Woolf e de James Joyce. Porém, da mesma forma como o universo de Joyce é um chaosmos (tal como Umberto Eco o definiu), no qual as eventuais epifanias sugerem uma presença pulverizada do sagrado no cotidiano, e do mesmo modo como o universo esgarçado de Woolf é feito de ressonâncias e vinculações que se fazem e desfazem a todo tempo na superfície do texto, o entanglement das partículas não deixa nunca de indicar algo dessa unidade que está possivelmente por trás dos fenômenos mais apartados. Dessa forma, o desafio de Aquário é o de dispersar-se em uma complexa rede de relações, que é como um arquipélago cujas ilhas estão conectadas não através do solo subaquático, mas através de invisíveis correntes de ar.

Recentemente, enfim, passei a discutir a leitura de romances de Virginia Woolf com alunos de primeiro período do curso de Letras onde leciono. Minha dica para eles é sempre essa: deixem-se levar, não tentem entender. Pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do texto, assim como pode não haver uma resposta clara e organizada para os enigmas do universo. Mas nossa tarefa quando estamos diante de um ou de outro não é necessariamente a de compreender, e pode muito bem ser a de maravilhar-nos, confundir-nos, emaranhar-nos, desde que isso também seja uma forma de encontrarmos pontos de contato entre nós no meio a essa confusão toda. Assim, quem sabe, participaremos do texto como participamos do cosmos, não como sujeitos estranhos a ele e que buscam dominá-lo pelo entendimento, mas como mentes que surgiram de suas partículas e nunca deixaram de estar conectadas entre si e com todo o espaço ao redor.

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