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Histórias de Cronópios e Peixes

Mercúrio logo vai começar mais uma temporada retrô. Dessa vez em Peixes, e meu sentimento diante de um trânsito como esse é o de que somos cronópios partindo para uma viagem. Falei outro dia brevemente aqui a respeito dessas criaturas piscianas e lendárias que encontramos na obra do escritor virginiano e argentino Julio Cortázar: são verdes, úmidas, adoram cantar e recitar versos, porém são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram. Muito ao contrário, os famas, com quem os cronópios coabitam um universo imaginário, são criaturas práticas e organizadas, meio taurinas, meio virginianas, meio que de Capricórnio – em resumo, de um signo de Terra qualquer. Daí o contraste entre a maneira de viajar entre esses tipos tão diferentes:  

“Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações (…) Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo o mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘Que bela cidade, que belíssima cidade!’ E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos e é assim que viajam os cronópios”.

Perceberam a diferença? De um lado está a constância de Touro, o detalhismo de Virgem, o planejamento capricorniano; do outro está o mais incauto otimismo de Peixes.  Mas o que eu queria comentar é menos essa virtude da imprevidência cronopiana do que a reação deles aos contratempos e imprevistos. Tem uma coisa aí que acho interessante e que tem a ver com o arquétipo de Peixes de maneira mais ampla. Isso porque a ilusão e o autoengano são temas piscianos por excelência, e, por mais que os cronópios sejam fofos, a gente pode muito bem ler o resultado de suas viagens nessa chave. Eles simplesmente não querem encarar a realidade, e por isso imaginam uma cidade que não existe, onde os trens saem na hora, não chove a cântaros e os táxis os levam para as festas para as quais foram convidados.

Essa talvez seja inclusive a reação típica de Peixes diante dos pequenos inconvenientes de um Mercúrio retrógrado: ao invés de lidar com o problema, imaginar um mundo onde ele sequer existiu um dia. No entanto, eu não estaria aqui escrevendo sobre o assunto se supusesse que a relação de Peixes com a dura realidade das coisas e dos fatos se interrompe aí, no plano do estereótipo. Sim, o estereótipo existe e está por todos os lados, mas o arquétipo está igualmente espalhado pelo mundo, e com ele a gente tem muito a aprender. Curiosamente, acho que dá para explicar a diferença entre uma coisa e outra a partir da reputação que Peixes tem de ser meio trouxa.

Sim, Peixes é meio trouxa; porém sua trouxice se manifesta em duas etapas diferentes, e na segunda, cá entre nós, Peixes está sendo mil vezes mais esperto que a gente. Vou tentar esclarecer esse ponto separando a característica em dois momentos de um mesmo arco narrativo. No primeiro, Peixes é meio trouxa de maneira estereotipada mesmo: deixa-se enganar, iludir, deslumbrar, e prefere acreditar em belas palavras ou viver em sonho a despertar para a vida como ela é. Por isso, a experiência arquetípica pisciana passa sempre por um choque de realidade, e a história de Peixes só começa mesmo com a descoberta que as coisas não são exatamente como lhe parecem.  

Para dar uma dimensão concreta a essa narrativa, podemos imaginar uma criança que cresce admirando o pai por sua inteligência ou integridade, quando ele na verdade comete seus deslizes, ou não é lá de grandes feitos mentais, o que todo mundo ao redor consegue perceber. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) isso vai se tornar evidente, às vezes em um simples gesto, ou por causa de uma palavra entreouvida a respeito dele. Reparem, o que acontece aí não é exatamente que o pai tenha sido incapaz de sustentar a máscara a longo prazo; quando se trata de Peixes, ninguém precisa usar máscara nenhuma, porque o pisciano mesmo vai se encarregar da idealização. Por isso, ele se torna responsável pelo pai herói que criou, e que se revelou uma farsa, sem que pai mesmo jamais tenha sido um farsante.

Mas é aqui mesmo que a mágica acontece. Ela depende, claro, de que Peixes não reincida em seus delírios e encontre desculpas para desacreditar o real. Ela, a mágica, vai emergir do próprio real e conferir-lhe um novo aspecto de sonho, porém agora com outro tipo de fundamento. Porque é aqui que o famoso amor incondicional pisciano surge: na hora que ele descobre que não precisa admirar o pai para amá-lo, e que aquela criatura tímida, meio tola, meio limitada, que acabou de se revelar para ele, pode ser também o objeto da mais terna e mais ilimitada compaixão.  

É a própria realidade, então, que se torna motivo da mais profunda aceitação e da mais autêntica ternura para Peixes. Isso pode acontecer também, por exemplo, com alguém que acredita ter um talento especial para o canto, um dia descobre que não tem talento nenhum, e justamente aí descobre que mesmo assim ama cantar. Tal como no discurso final de Nina, a protagonista da peça A Gaivota, de Anton Tchekhov. Isso tudo, é claro, não acontece sem uma dose de resignação, mas do outro lado está a experiência de uma felicidade que passou pelo teste mais difícil que há.

Por esse motivo, o amor segundo Peixes, no plano arquetípico, é incondicional: não porque esteja disposto a aceitar quaisquer condições, mas porque já aceitou justamente aquelas que lhe causaram a maior reversão de expectativas. Nesse sentido, a tarefa pisciana é tão enorme que não surpreende que seja o último signo da roda zodiacal. Peixes aparece quando já não há mais nada a fazer a não ser conhecer a realidade, aceitar a realidade e amar a realidade mesmo assim. Um pouco como os cronópios amam as cidades que visitam, mesmo quando elas parecem rejeitá-los.

Podemos chamar essa trouxice de trouxice de segundo grau. E, se digo que há uma espécie de esperteza aí, é porque o amor incondicional é um amor verdadeiramente livre, não implica nenhum tipo de apego, e, portanto, não deixa ninguém preso a uma relação. Um pisciano que tenha sido enganado em uma parceria afetiva, por exemplo, pode até perdoar quem o iludiu, ao entender que também participou do engano; mas isso não quer dizer que vá voltar de coração aberto para uma relação abusiva. O perdão é libertador na medida em que realiza a transformação alquímica da mágoa em compaixão, mas uma compaixão que se dá a certa distância, que mantém uma perspectiva. Essa transformação se dá no âmbito de Peixes.

Além disso, o amor incondicional não é nunca o amor por uma pessoa específica, e muito menos por um aproveitador sacana: é por algo que existe nele também, mas que pode ser igualmente encontrado em outras pessoas menos nocivas e perigosas. Se Peixes é capaz de oferecer a outra face ao agressor, portanto, muitas vezes é porque já está livre da raiva que ele lhe causou, e então já está mesmo olhando para o outro lado, cuidando de outros assuntos, sem forjar nenhuma atitude específica para responder à agressão. A capacidade que essa postura tem de desarmar um oponente é inestimável, e essa é a grande esperteza de Peixes: a de agir sem esperteza nenhuma.

O poeta Walt Whitman nasceu sob uma conjunção exata de Saturno e Plutão em Peixes, ambos muito próximos de seu ascendente. Um mapa assim pode tornar um indivíduo o porta-voz de sensações piscianas de toda uma geração. Ele se celebrizou como um sujeito meio doido e meio pateta que andava pelas ruas catando assunto para seus cantos. Porém, era notável a maneira como era capaz de simplesmente elencar imagens do real em seus poemas, e acolhê-las e aceitá-las de maneira ao mesmo tempo desiludida e maravilhada, em todas as suas imperfeições e singularidades. Tal como no poema em que ele vai falando dos rostos que encontra pelas ruas, dos mais lamentáveis aos mais imponentes, dos mais graciosos aos mais debilitados, para complementar de repente: “I see them, and complain not, and am content with all / Do you suppose I could be content with all if I thought them their own finale?”.

Eu as vejo, e não reclamo, e estou satisfeito com as coisas como elas são. Mas você acha que estaria satisfeito se acreditasse que as coisas terminam aí? Essa é uma afirmação pisciana, tanto em sua aceitação do mundo, quanto na percepção de que o mundo como é, com seus defeitos e desgraças inclusive, implica algo que ainda está por vir e que valerá a pena conhecer. Ou, mais objetivamente: “Estou ciente e quero continuar”. Essa é a frase da maturidade pisciana, com ênfase no “ciente”, na consciência de uma imagem do mundo que pode não ser a ideal, mas é bela e maravilhosa inclusive pelas falhas que apresenta.

Do mesmo modo, enfim, o encanto dos cronópios com as cidades que os rejeitam, sua aceitação das condições com que são recebidos, revertem assim as expectativas de quem espera que tais contratempos sejam apenas motivo de fastio e irritação. Em um plano mais cotidiano, isso não deixa de ser algo que podemos muito bem exercitar com Mercúrio retrógrado em Peixes, e prometo que não faltarão oportunidades. A partir de agora os aplicativos vão pifar, os táxis estarão lotados, choverá a cântaros, e a internet vai cair o tempo todo. O pacote completo. Mas, se tivermos aprendido alguma coisa com os cronópios, a despeito de Mercúrio e seus pequenos contratempos, ainda assim vamos dormir pensando: “Que bela cidade, que belíssima cidade”.

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