Todos os signos

Venha para o cabaré

Tenho um resultado de enquete ainda para honrar, mas antes disso acho que chegou a hora de discutir um assunto importante com vocês leitores. É que alguns já me disseram que com frequência não sabem se estou brincando ou escrevendo a sério nessas postagens (naquela sobre Aquário-o-grande-vilão-do-zodíaco, por exemplo). Explico então: nem eu sei. Sério mesmo (ou melhor, mais ou menos): o limite entre a gravidade e a zoeira aqui é muito tênue, e é bastante possível que eu passe de uma coisa para outra sem nem perceber. Isso tem a ver com meu jeito de escrever e com fato de que esse para mim é um espaço de distração e brincadeira. Mas isso está também totalmente relacionado ao próprio assunto da página, e é aí que as coisas ficam bem interessantes.

Astrologia é um assunto engraçado. E é bom que seja assim. Do arquétipo ao estereótipo é um pulo, e se o salto for bem executado a gente está disposto a perdoar todo tipo de galhofa com as patetices dos nossos signos. Mas existe algo a mais no fato de que a astrologia é sempre um assunto engraçado, ao mesmo tempo em que está longe de ser irrisório. Não conheço nenhum outro fenômeno com esse poder. Mesmo em épocas sombrias, e mesmo quando falamos a sério, costumamos falar de astrologia meio que rindo. Trata-se de um reconhecimento do enorme descompasso entre o absurdo de suas premissas e das premissas com que tocamos nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, trata-se da inquietante percepção de que nem por isso a astrologia deixa de ser com frequência inteiramente razoável.

Rimos com a astrologia, portanto, porque ela não faz o menor sentido, e ao mesmo tempo na prática a gente percebe que faz. Existe nesse riso um leve temor e tremor existencial diante das implicações de qualquer acerto astrológico carrega consigo, por mínimo que seja, e ainda que seja o acerto de um estereótipo, desses que proliferam em memes e tuítes correndo soltos por aí (tipo os da página deliciosamente intitulada Não acredito em astrologia, mas…). Muitas vezes é um riso de nervoso, mas também de libertação, que vem da percepção de que não estamos no controle das coisas com nossa razão e nossa ciência. É o bobo da corte dentro de nós escarnecendo da vaidade do soberano que gostamos de ostentar, e sinalizando que há, sim, mais coisas entre o céu e terra do que supõe nossa vã filosofia (aliás, cuidado com astrólogos que se levam muito a sério: eles acham que retomaram o controle das coisas por outros meios).

De minha parte, sou de ficar estatelado achando graça de como alguns aspectos e trânsitos astrológicos se manifestam na minha vida, dos meus amigos e na das pessoas que fazem consultas comigo. Tem algo de muito bizarro acontecendo aí. Essa incredulidade de fundo me causa um constante e sempre renovado assombro com o fato de que, segundo uma série de evidências, existe no universo algo em operação que não entendemos com clareza, que nos envolve em um drama de proporções cósmicas, e para o qual não temos palavras em nosso vocabulário regular, mas cuja descrição conta já com um conjunto de símbolos e termos técnicos bem consolidados. Ajudar a desenvolver e aprimorar ainda mais estes símbolos, aqui nesse espaço, é tarefa que me investe de imensa pompa e galhardia. Sério mesmo. Até onde dá pra ser.

Desse modo, a experiência da astrologia não precisa ser compreendida apenas pelo lado da dissolução de certezas e hábitos mentais enrijecidos que nos isolam do cosmos que nos rodeia. Ao nos colocar em contato com esse cosmos, ela pode muito bem nos fazer dançar junto com ele. Conhecer o mapa astrológico do nosso nascimento, então, nos permite entender um pouco melhor como a banda toca para cada um de nós. A propósito, há quem acredite que somos todos um único Ser brincando de dividir-se em diversas personalidades e aparências. A visão de mundo que a astrologia oferece pode muito bem ser entendida assim, como a de um baile de máscaras em que o Ser se fantasiou de Áries, de Leão, de Capricórnio etc. (e das infinitas combinações entre esses arquétipos que encontramos em cada mapa astrológico) para se perder e se encontrar por meio dessas fantasias.

Tudo parece reduzir-se a um jogo ou a uma brincadeira, porém qualquer um que já se envolveu em um jogo ou em uma brincadeira sabe como jogo e brincadeira são coisas sérias. Ao mesmo tempo, qualquer um que já se envolveu em coisas sérias sabe como, mudando um pouco o ponto de vista, elas podem ser infinitamente engraçadas. Mais uma vez, o limite entre uma coisa e outra quase não existe, e tenho a sensação de que conviver com essa ambiguidade é antes um hábito sanativo do que uma ameaça à nossa lucidez. Por isso, em cada texto que posto aqui, percebam que há sempre um subtexto, uma mensagem subliminar, que é uma espécie de convite. Percebam que na trilha sonora dessa página tem sempre Liza Minelli ou Louis Armstrong cantando lá no fundo: “Life is a cabaret, old chum. Come to the cabaret”.

A vida é um cabaré, meu velho. Venha para o cabaré. Ou, dizendo de outro modo, como já comentei antes. Conheci dois tipos de malucos na vida: os que acreditam em astrologia e os que não acreditam. Destes últimos, há os que possuem a excentricidade adicional de querer discutir o assunto, mas respeito muito a maluquice das pessoas, e não faço questão de convencer outros doidos de que a minha loucura está com a razão. A ajuda que posso oferecer é para quem não sabe se está em um grupo ou no outro. Isto é, a turma do “Eu até vejo que minha mãe é bem capricorniana, mas sei lá, não acredito muito nesse negócio de signo”. É principalmente para esses que meu convite é direcionado.

Notem: a astrologia, a princípio, não é mesmo exatamente uma crença, mas uma percepção e uma experiência, que pode ser vivida em diferentes graus, mas cuja natureza é sempre a mesma. Portanto, se você se identifica com características atribuídas ao seu signo solar; se já identificou essas características em amigos e conhecidos; se já disse algo como “ah, isso é porque eu sou de Áries”, ou, “isso é muito coisa de geminiano mesmo”, você já está dizendo uma sandice sem tamanho. Você está dizendo que a posição de um corpo celeste situado a não sei quantos milhões de quilômetros da Terra no momento em que uma pessoa nasceu tem alguma relação com o comportamento dessa pessoa muitos anos depois. Ou seja, maluco. Completamente pirado. Não tem mais volta. Junte-se a nós.

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