virgem

O segredo de Virgem

Edward Hopper | Sun in Empty Room (1963)

Pode parecer exagero. Mas juro que fiquei constrangido quando contei para meu orientador o que estava querendo pesquisar no doutorado. Na época estava terminando o mestrado sobre a obra de Julio Cortázar, um autor argentino, e para a sequência estava pensando em fazer um projeto sobre outro autor argentino, Jorge Luis Borges. Minha Lua em Gêmeos tem uma repulsa instintiva a qualquer tipo de especialização, e aquela coincidência na questão da nacionalidade aconteceu a contragosto. Mal sabia eu na época que não estaria apenas me especializando na literatura de um país, estaria também me especializando em um arquétipo do zodíaco. Foi quando preparei a enquete sobre escritores e signos que percebi; eu não tenho apenas Saturno em Virgem; tenho mestrado e doutorado em Virgem também.

É verdade que, de todos os signos, Virgem foi um dos que me criou mais dificuldades na hora de escolher uma dupla para a enquete, pela quantidade de bons autores virginianos (ou de autores de minha preferência) que encontrei na minha pesquisa (os outros foram Escorpião e Aquário). Se escolhi Borges e Cortázar, portanto, deve ter sido mesmo para facilitar um pouco minha tarefa, aproveitando as investigações já realizadas. Por outro lado, por mais que eu conheça bem as obras de ambos, não estou achando a tarefa nem um pouco fácil, agora que eles ficaram entre os primeiros lugares na votação. Sim, Borges e Cortázar tiveram em comum o fato de serem argentinos e virginianos, mas as maneiras como uma coisa e outra aparecem em seus textos não poderiam ser mais distintas, aparentemente opostas inclusive. Deixemos a questão nacional para o âmbito dos estudos acadêmicos. Vamos enfocar aqui o problema do virgianismo.

O caso de Borges é mais simples, embora nos leve a uma faceta menos conhecida para quem o identifica como um autor de narrativas fantásticas e complexas. Pois ele nunca deixou de ser um bibliotecário, e a biblioteca, como espaço organizado e devotado à prática silenciosa da leitura, é certamente um espaço virginiano. Não por acaso Borges tratava bibliotecas como uma espécie de templo onde se sentia totalmente em casa, e imagino que, como as sacerdotisas que cuidavam da localização correta dos implementos sagrados nos templos dedicados ao Sol no Egito antigo, ele pensava a disposição dos livros na estantes como algo de fundamental importância para o bom funcionamento do mundo. Não por acaso, imaginou uma biblioteca infinita que se confundia com o universo, e um universo cujo posto mais desejável era o de guardador de livros. “Sempre pensei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca”: uma das frases mais famosas de Borges é, sem dúvida, uma frase virginiana.

Mas, para além disso, existe também aquilo que o crítico Alan Pauls chamou de uma “política do pudor” nos textos de Borges, sobretudo os do final dos anos 1920, quando realmente há uma espécie de recato que transparece de maneira muito singular em seu estilo. Não estou dizendo que por isso um aspecto puritano de Virgem tenha sido ressaltado; é antes uma qualidade virginiana mais sutil, atravessada por uma irônica avaliação das debilidades humanas em geral, e das faltas pessoais em particular, que aparece nessas passagens. A modéstia aí resulta uma cosmovisão que não salva ninguém de ocupar um humilíssimo lugar no universo, e ganha dimensão política na medida em que percebe o ridículo dos entusiasmos retóricos de figuras messiânicas ou fanáticas. Existe em Virgem uma refinada percepção do patético da condição humana, de tal modo que a exaltação leonina (o signo que a precede na roda zodiacal) dá lugar a uma atitude mais circunspecta, e atravessada por um fundamental senso de inadequação.

Transformar essa inadequação em piada torna-se assim um dos passatempos preferidos de Virgem. Verdade seja dita: virginianos estão entre as pessoas mais capazes de identificar não apenas as patetices e defeitos dos outros, como também os próprios defeitos e patetices. Sempre que seu perfeccionismo se articula com uma natureza irônica e perspicaz, não sobra ninguém na hora de distribuir críticas e tiradas sagazes. Mas nada que não possa ser feito em consonância com um comportamento cuidadoso, tal como atesta Borges nessa passagem de sua biografia do poeta Evaristo Carriego:  “A ternura é a coroação dos dias, dos anos. Outra virtude do tempo é o humor. É condição que implica um delicado caráter: nunca se distraem os ignóbeis nesse puro gozo simpático das debilidades alheias, tão imprescindível ao exercício da amizade. É condição que surge com o amor”. Um delicado caráter, aliás, é uma ótima definição do que encontramos escondido na alma virginiana. Que ela possa parecer às vezes tão rígida e impenetrável, porém, é assunto que ainda dá o que pensar.

Prosseguiremos pensando nisso, portanto. Mas, quando a gente chega em Julio Cortázar, as coisas de saída mudam um pouco de figura. De figuras, na verdade: Cortázar foi um escritor de múltiplos semblantes cuja obra poderia ser aproveitada na explicação de vários arquétipos do zodíaco. A linguagem lúdica e inventiva de seus romances remete a Gêmeos, enquanto a estrutura inovadora de O Jogo da Amarelinha é aquariana; há algo de sagitariano em seus textos críticos, enquanto os famosos cronópios (essas “criaturas verdes e úmidas, que adoram cantar e recitar versos, mas são muito distraídas, vivem sendo atropeladas e choram”) são definitivamente piscianos. Agora, muita gente considera que Cortázar foi sobretudo um grande contista. De minha parte, considero que na evolução da forma de seus contos se desenrola um dos grandes dramas de Virgem.

Para abordar esse ponto queria antes lembrar que o termo “virgem”, tal como deu origem ao nome do signo, não diz respeito a alguém intocado sexualmente. Ele se referia antes a mulheres que não eram casadas, não eram “posse” de nenhum homem, e, portanto, eram conhecidas como aquelas que não se deixavam vender. Essa é a pureza que associamos ao arquétipo virginiano. Há nele um forte impulso para a integridade, que precisa ser constantemente buscada e alcançada em rituais diários, com a delimitação firme de um território imune às impurezas e máculas do mundo externo. Tudo isso depende de gestos definidores, incisivos, claros, capazes de dizer onde termina seu espaço e começa o meu.

Os contos da primeira fase da carreira literária de Cortázar correspondem perfeitamente a esse ideal. São encerrados em si mesmos através da mais perfeita disposição dos elementos internos da narrativa, como máquinas ajustadas com exatidão para um funcionamento inequívoco, que não tolera nenhuma interferência do mundo externo. Foi nessa época que o escritor cunhou a frase segundo a qual, no embate com o leitor, enquanto o romance pode ganhar a luta por pontos, o conto pode ganhar por nocaute. Sem dúvida, a força de Áries e a índole performática de Leão participam dessa sentença. Mas é Virgem que a utiliza para traçar o limite nítido do território do jogo; é Virgem que vislumbra uma estratégia de luta impecável, a sequência mais correta dos golpes, para encerrá-la com o soco certeiro com que se encerram alguns dos melhores contos.

No entanto, olhem que interessante. Quando a gente vai acompanhando a obra de Cortázar durante seu período de maturidade, uma coisa diferente começa a acontecer. Os contos já não são tão mais perfeitos em suas articulações internas, ou, quando são, isso é exposto e explorado por um narrador que percebe a impossibilidade de se chegar a qualquer verdadeira perfeição. “Tango da volta”, por exemplo, é narrado por um habilidoso artífice, um perito no ofício de contar histórias, que monta a narrativa a partir de relatos de terceiros em busca de encontrar todas as peças de um quebra-cabeça, ou criar a mais bela teia de aranha que atrairá o leitor para seu centro. Mas o próprio narrador parece nunca deixar de sentir que seu conto é atravessado por falhas e imperfeições que não dizem respeito à sua capacidade de encerrá-lo em uma unidade fechada, mas a uma espécie de falta que é própria da condição humana de maneira geral.

A partir daí, não há conto de Cortázar que não traga consigo uma espécie de lamento pela falibilidade de nossos esforços em alcançar a perfeição. Assim, eles deixam de ser íntegros no sentido mais aparente do termo – o da autossuficiência que se fecha para influências externas – e se tornam dilacerados a um primeiro olhar, porém adquirindo um outro tipo de integridade, mais profunda e oculta. “Liliana chorando” é um bom exemplo disso, embora “A autopista do sul” apresente também esse efeito, e “Final de jogo” esteja entre os mais tristes e belos contos de Cortázar. Todos eles tratam da morte, da perda e dos males incuráveis da humanidade, aqueles que nenhuma narrativa ou jogo ou máquina poderá deixar de fora de seus domínios, por mais que exista o impulso virginiano de tentar.

Virgem estava então claramente manifesto naqueles trabalhos iniciais. Mas não deixou de aparecer num segundo momento. Pois se, nos primeiros contos, havia uma história secreta acontecendo estrategicamente sob a superfície imediata das palavras, cuja revelação acontecia no instante final e decisivo, nas histórias seguintes os contos passaram a guardar em si um outro tipo segredo, que diz respeito à derrota final que nos aguarda a todos, e que reside na intimidade dos cômodos mais resguardados do arquétipo de Virgem. Assim como o símbolo do Yin e do Yang reserva sempre espaço para um pontinho preto na parte branca, e para um pontinho branco na parte preta, os templos dedicados à cura do corpo e à purificação da alma precisam deixar entrar um pouco da doença e da morte em seus ambientes sagrados. Virgem, quem diria, é justamente o signo que tem como destino conhecer e acolher essa necessidade.  

Não por acaso, trata-se também do signo que ao mesmo tempo mais entende (e eventualmente rejeita) os seguintes versos de Leonard Cohen, outro virginiano célebre: “Ring the bells that still can ring / Forget your perfect offering / There’s a crack in everything / That’s how the light gets in”. Há uma falha em todas as coisas, é como a luz entra nelas; e a perfeição, portanto, se realmente chegasse a ser alcançada segundo nossos padrões do ideal e do desejável, muito provavelmente seria então algo escuro e sem vida. Algo muito semelhante pode ser dito a respeito da evolução da forma do conto na obra de Cortázar. Se olharmos de novo vamos perceber que mesmo os contos mais meticulosamente arranjados tinham algum tipo de defeito, e que esse defeito era sua maior virtude. Pois é virtude alojar algo de tão humano onde nenhum ser vivo parece poder entrar.

A propósito, isso de não poder entrar é algo que a gente sente com muita força diante de Virgem. O território que eles delimitaram para si é tão claramente fechado que não dá nem para imaginar uma intromissão nos ritos que parecem ocorrer lá dentro. Reparem como, tanto no caso de Cortázar quanto no de Borges, a primeira impressão a respeito de como Virgem se manifesta em suas obras remete a esse tipo de encerramento: a figura do velho sentado em sua biblioteca, a forma do conto fechada em si mesmo. Mas é olhando de novo que a gente descobre algo além dessa visão estereotipada, ainda que não incorreta. É olhando de novo que a gente vê a rachadura por onde a luz entra, o pontinho claro sobre a superfície escura.

O recato, a humildade, o humor, uma certa tristeza, e uma silenciosa esperança: esses são os traços que a gente acaba percebendo por trás dos aparentes limites intransponíveis virginianos. Quanto a essa última característica, creio que está relacionada a uma frase da Cal Garrison sobre Virgem: “Chega uma hora em que eles precisam abrir mão da perfeição que a tanto custo alcançaram para si, para deixar que Deus mostre a eles o que a perfeição realmente é”. Existe, portanto, uma espécie de renúncia que precede a abertura virginiana para a luz que entrará pelas frestas do quarto e do conto.

Acho que tanto Cortázar quanto Borges abriram mão de algumas perfeições em suas obras e em suas vidas, e assim abriram espaço para que algo de mais significativo acontecesse nelas. O que está além desse ponto já é da ordem do indizível e impronunciável. Creio, enfim, que esse é o segredo mais bem guardado dos escritores virginianos. Não adianta ter mestrado ou doutorado ou o que quer que seja para comentar esse mistério. É algo que, com cuidado e um pouco de sorte, a gente simplesmente vê acontecer. Embora talvez a gente venha a descobrir que esse acontecimento tampouco é extraordinário, e com isso possa retomar um pouco do aspecto prático e cotidiano do arquétipo. Um pouco como as sacerdotisas egípcias, que viam o sol nascer todas as manhãs, sua luz entrando pelas frestas dos templos, uma vez assegurado que os objetos sagrados estavam todos no lugar.

4 comentários sobre “O segredo de Virgem

  1. Queridas e queridos

    Não deixem de ler….mesmo não sendo virgem. Vale como entendimento do humano na sua bela e trágica experiência de habitar o mundo. Vale como literatura de boa qualidade. Da minha parte, quero vida com frestas para entrada de luz, condição pela busca da integridade, sabendo de sua imperfeição . Bjos e um bom domingo

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  2. Que delicioso o seu texto! Não tenho conhecimento aprofundado das obras de Borges e Cortázar (uma situação que me encantaria mudar), mas a análise me ajudou a entender e acolher muito de mim mesma

    Curtido por 1 pessoa

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