astros

Os amores difíceis

Corações Livres (2002) | Dir. Susanne Bier

“Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante, e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava”. Essa frase – referindo-se a um começo – curiosamente encerra A Dama do Cachorrinho, um relato do escritor russo Anton Tchekhov que frequenta todas as listas de melhores contos de todos os tempos. O trecho surge quando o par romântico da história percebe que não encontrará tão cedo solução para o problema que enfrenta durante a narrativa: o de se amarem, mas já estarem casados com outras pessoas. Seja por circunstâncias históricas, seja por questões éticas, parece-lhes impossível resolver o assunto em um lance só. Não enfrentar o problema, porém, tampouco é uma opção. De tal modo que se veem enredados em condições bastante complicadas, que não dizem respeito diretamente aos seus sentimentos mútuos, mas são incontornáveis para que esses sentimentos possam se expressar.

Me lembrei desse conto em particular porque Juno está pairando sobre nós com particular intensidade esses dias, e eu diria inclusive nos últimos tempos. Em consultas e com amigos, andei conversando com muita gente – direta ou indiretamente – sobre Juno. Do ponto de vista astronômico, trata-se de um grande asteroide, conhecido por esse nome desde 1804. Do ponto de vista astrológico, diz respeito a acordos, condições e contratos que regem os relacionamentos. Creio que este é um assunto cuja dificuldade e complexidade só aumentou desde que Tchekhov publicou seu relato em 1899 (de fato, as coisas estavam apenas começando), e isso se reflete nas maneiras bastante concretas como ele se apresenta agora cada um de nós.

Mas permitam-me uma digressão: lá atrás, já encontramos a figura de Juno vinculada a assuntos como a infidelidade, a quebra de contratos, e o que cada um está disposto a aceitar para manter uma relação. Juno foi a esposa de Júpiter na mitologia romana, assim como Hera foi de Zeus na mitologia grega. Ganhou fama de ciumenta e intratável por conta de suas reações diante das escapadelas do marido, porém era bastante engenhosa na hora de traçar os limites do tolerável. Podia agir com uma capacidade de definição que não tinha de irracional ou colérica, quando decidia que havia chegado o momento de tomar uma atitude mais brusca. Já a partir daí, podemos ter uma ideia não apenas dos temas que são regidos por Juno, mas também do tipo de comportamento que ela estimula ou incita.

A gênia dos asteroides Martha Lang-Wescott se refere a Juno como um “ponto do casamento”, que conecta as energias de Vênus e Plutão. Em Vênus, os afetos se manifestam em uma feliz troca de cortesias e carinhos que não precisa nunca se deter em negociações e definições restritivas, ou lidar com as realidades duras da vida; em Plutão, tudo é definitivo em um plano sexual e espiritual mais oculto ou profundo, onde acontecem as fusões dos pares e as separações irrevogáveis como a morte. Se Juno está entre uma coisa e outra, ela é responsável justamente pela dimensão prática, cotidiana ou contratual que não encontramos em nenhum desses lados, mas é parte importantíssima dos relacionamentos. Até porque, em última instância, pode fazer com que relacionamentos comecem e, sobretudo, terminem – mesmo quando o amor e a atração sexual nunca deixaram de existir entre duas pessoas.

Juno retém de Plutão, portanto, uma dimensão trágica nos assuntos que a envolvem, mas tem na conexão com Vênus o recurso à diplomacia e aos acertos retificadores de um mundo em vias de dilacerar-se. Se as coisas vão andar num caminho em outro é o que muita gente está se perguntando agora. Pode acontecer, por exemplo, da questão sobre ter ou não filhos assomar e tornar-se tão complicada quanto incontornável entre duas pessoas. Não há alternativa, nesse caso, que não seja colocar o assunto sobre a mesa, para descobrir se há uma solução negociada ou não há solução alguma. O mesmo pode acontecer nos acordos a respeito de relacionamentos à distância, nas opções por relacionamentos não-monogâmicos, nas reverberações de casos extraconjugais: Juno pede disposição para a conversa, mas não garante que ela seja o suficiente para se encontrar uma saída.

Então, se Juno diz respeito ao casamento, tem tudo a ver com separações também. É aí que sua capacidade de tomar uma decisão difícil mais claramente se sobrepõe às flutuações venusianas. Até porque seus piores traços se manifestam quando uma decisão dessa natureza é evitada em nome de uma suposta harmonia, gerando um possível ciclo de agressões, ressentimentos e vinganças. Aliás, Juno é também sobre o balanço de créditos e débitos que nunca deixa de existir em parcerias, eventualmente envolvendo questões financeiras mesmo, que requerem uma abordagem ao mesmo tempo prática e sensível às circunstâncias. Considerar a realidade desses trâmites é parte importante do tipo de atenção de Juno requer e proporciona, quando está particularmente ativa no céu ou em relação a um mapa pessoal.

Ela nos permite entender melhor aquilo que é inegociável, e as condições sem quais não estamos dispostos a prosseguir. É natural que a gente aceite algumas decisões em comum a contragosto numa relação, mas o peso desses gestos para nós pode muito bem acarretar um desequilíbrio que não terá como ser corrigido depois. Há casais que se mantêm por anos em uma divisão de papéis no qual o lugar de quem “abriu mão de muita coisa” é ocupado um dos parceiros com certa luxúria recriminatória e inclinações passivo-agressivas, que não têm como chegar a bom termo. Chegar a um termo já é uma conquista nesse caso.

Por outro lado, e pelos mesmos mecanismos, Juno nos faz perceber aquilo que pode ser sim objeto de concessões e acordos. Mas isso não necessariamente é sinal de facilidades, muito pelo contrário: parte daquilo que se complicou para nós desde a publicação do conto de Tchekhov decorre da ampliação do espectro de temas que precisam ser discutidos e acertados com frequência em um relacionamento. Santa complicação: assuntos que em outros tempos eram definidos pela tradição, pelos costumes religiosos ou pelos papeis sociais de gênero, por exemplo, passaram a ser colocados sobre a mesa em uma base diária, requisitando uma busca de soluções tão criativas quanto provisórias. É bom que seja assim, por mais que a gente tenha ainda muito o que aprender com o tipo de flexibilidade e dinamismo que isso envolve.

Minha impressão, portanto, é a de que nossa sensibilidade para esse tipo de demanda nos relacionamentos só vai aumentar – e que com isso eles vão continuar ficando mais difíceis, complicados e recompensadores. Pensem: até outro dia as pessoas não podiam nem se separar, as mulheres eram subjugadas das formas mais ostensivamente legais (do ponto de vista jurídico), e ter amantes regulares era uma opção vulgarizada para contornar os efeitos dessa rigidez. O conto de Tchekhov acontece justamente quando duas pessoas decidem se insurgir contra essas circunstâncias, mas ainda não sabem por onde fazê-lo, mas não conseguem desistir de tentar.

Não sei qual é o mapa astral do conto, não cheguei a ver em quais condições estelares Dimitri e Anna se conheceram, mas suspeito estavam sob uma forte influência de Juno. Ela, que antigamente era vista como a deusa do casamento, responsável pela dimensão contratual das parcerias afetivas, passou a ser também deusa das separações – e das infinitas zonas de sombra que existem entre uma coisa e outra. Quanto a essas zonas de sombra, acho também que muito do que caracterizam como o ‘amor líquido contemporâneo’ decorre da nostalgia de um tempo em que as convenções sociais conferiam uma espécie de rígida estabilidade aos relacionamentos. O que temos agora é realmente mais incerto, mas nem por isso é menos consistente.

Muito pelo contrário. Enfim, se eu estiver certo, e Juno passar a fazer cada vez mais parte de nossas vidas, estaremos justamente repassando a cada dia os acordos e definições que temos como nossos parceiros. Isso não nos transformará em frios advogados de causas interminavelmente recorridas por um motivo simples: há, sim, uma importante dimensão afetiva nesses diálogos, por mais pragmáticos que possam parecer. Se o ressentimento e a agressão impensada são decorrentes de assuntos mal manejados nessa esfera, isso quer dizer que o respeito, o cuidado e a inteligência são as virtudes necessárias para manejá-los bem. Contratos não são apenas representações de afetos: eles são também um lugar onde os afetos acontecem. Ajustá-los com atenção e justiça é também uma forma de carinho. Juno não diz respeito apenas a problemas e conflitos práticos que precisam ser resolvidos. Ela vê os problemas e conflitos como um outro espaço em que o amor pode se manifestar.

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