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De Aquário e outros demônios

Muito se discute sobre qual signo é o grande vilão do zodíaco. Na minha opinião, as coisas acontecem mais ou menos assim. Satanáries sai na frente por razões óbvias, mas acaba ficando no segundo páreo por razões óbvias também: é incapaz do tipo de manipulação estratégica que uma atitude realmente demoníaca requer. Escorpião é outro candidato natural, e talvez gostasse de ficar com o título, mas seu potencial para a vilania é comprometido pelas intensas crises existenciais que o tiram de cena de tempos em tempos. Há quem aposte em Gêmeos como um candidato surpresa, e vejo bastante potencial aí – o problema é que um verdadeiro vilão precisa saber se levar a sério. Enfim, acho que consigo encontrar uma limitação ou outra como essas em todos os arquétipos. Menos, entretanto, quando se trata de Aquário.

Ironicamente, trata-se do mais aéreo e desencarnado dos signos, uma espécie de anjo zodiacal, com frequência oscilando entre a curiosidade, a excitação e a indiferença diante dos assuntos humanos. Aliás, da última vez que escrevi sobre aquarianos, citei uma fala de uma personagem humana d’A Tempestade de Shakespeare, mas agora me ocorre que Aquário aparece na peça sob a forma de Ariel, criatura espiritual sem nenhum verdadeiro compromisso com os perrengues desse mundo.

Para Aquário, então, todos os outros signos se manifestam em criaturas corpóreas de traços distorcidos e presas ao solo pela força da gravidade – enquanto ele flutua entre nós. Isso, porém, o coloca em uma posição de permanente deslocamento, de tal modo que o inadequado parece ser ele. É justamente sua leveza que o torna suscetível de incorrer em algumas das mais terríveis manifestações de vilania, por causa da complexa dinâmica que gera no que se refere aos temas da adequação e do pertencimento. Qualquer desequilíbrio nessa balança é uma ameaça: o senso de inadequação cria o impulso para participar de grupos e coletividades, mas esse impulso requer o contraponto de uma reserva e de uma distância que de algum modo precisam ser preservadas.

Nesse sentido, acho, sim, que Aquário deve manter sempre algo de sua excentricidade e de seu desinteressado interesse nos dramas que nos ocupam tanto aqui nesse planeta. A indiferença que de costume lhe é atribuída como uma falha ou deficiência de caráter é, na verdade, sua salvação.  Pois o aquariano que busca uma total adequação à forma humanoide, envolvendo-se demais em nossos dramas e mimetizando nossos padrões mais ordinários de conduta, está condenado a sofrer um tipo de rejeição cujo resultado é um ressentimento incurável e destrutivo. Reparem em como essa dinâmica está bem representada em algumas de suas nuances no mais aquariano dos vilões: o Coringa.

Refiro-me aqui especificamente à maneira como ele foi representado na última produção cinematográfica que protagonizou. Pois existe, naturalmente, uma dimensão geminiana no joker como comediante e piadista, capaz de fazer malabarismos com a linguagem e dar piruetas nos nossos padrões morais; e existe também nele um aspecto escorpiônico, intensamente destrutivo e cheio de profundas reentrâncias psicológicas. Mas o recente Coringa de Joaquin Phoenix se notabilizou por ser um sujeito excêntrico e um espírito delicado que se alça à condição de ídolo das massas em condições extraordinárias, após sofrer uma série de humilhações em seus esforços por integrar-se de maneira regular à sociedade. Embora não destituído de questões psicológicas (e psiquiátricas), é na dinâmica da exclusão e do pertencimento que se situam os aspectos mais significativos da trama de sua ascensão.

Ou, melhor dizendo, a trama de sua descida ao inferno. Pois, como bem notou minha amiga Carolina Assunção em seu podcast sobre o ethos do Coringa, as imagens da descida ao subsolo são decisivas na composição cênica do filme. É de lá que Arthur Fleck vai ressurgir como um barão da ralé, um atiçador de ânimos, um rabble rouser luciferino que lidera quase involuntariamente a insurreição das massas contra as estruturas do sistema.  

Falei em Lúcifer não por acaso. É ele, afinal, o tema arquetípico que melhor expressa a sombra no arquétipo aquariano, e sua associação ao signo é um forte argumento a favor do título de príncipe das trevas para um signo de resto tão angelical. Pois Aquário, por um lado, tem no mito grego de Prometeu uma de suas narrativas decisivas, vinculando-se à ideia do “portador da luz”, aquele que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens (isso explica muito do impulso aquariano de tornar-se um agente de desenvolvimento das ciências e tecnologias, voltado sempre para a evolução e aprimoramento da espécie humana). Por outro lado, Lúcifer também significa, exatamente, “portador da luz”, e não por acaso é um anjo decaído. Aquário, em resumo, é um signo do capeta, literalmente falando, e isso parece ter uma relação justamente com o lado mais iluminista e luminoso de sua personalidade.

Voltando então ao Coringa, onde as duas coisas também se encontram e se confundem. Notem que há um ressentimento satânico por todas as humilhações e derrotas sofridas durante a descida ao inferno; porém, em sua figura arquetípica, nunca deixa de existir o potencial de iluminar com o riso os aspectos mais patéticos de nossa sociedade. O jogo social precisa do Coringa – ou de alguma de suas variações aquarianas – para não se perder por completo na aparência de seriedade de suas brincadeiras. Nós precisamos que Aquário permaneça sempre uma espécie de lembrança da bobagem que são nossos trâmites cotidianos. Pois tudo o que se passa na sociedade é de certo modo brincadeira, convenção, jogo; o problema é que a gente se esquece muito facilmente disso.

Nesse sentido, o Coringa tem o potencial de cumprir um papel semelhante ao do bobo da corte nos seus primórdios, isto é: lembrar ao rei o que há de ridículo em toda sua pompa e circunstância, assim como em todo o aparato que rodeia as câmaras e decisões reais. O bobo tem uma função política e terapêutica que representa bem a importância de uma figura que participa e não participa do jogo ao mesmo tempo. Pode ser uma figura totalmente anômala, mas de costume será apenas levemente bizarra e excêntrica, o suficiente para deslocar-se um pouco do centro do palco do drama humano.

O interessante aqui é que essa é figura dispensável para a sociedade como um todo, ou pelo menos, digamos assim, para seu funcionamento regular; e, por isso mesmo, a sociedade depende dela para existir com um mínimo de consciência do seu modo de funcionamento. De tal modo que o riso do Coringa não é necessariamente um sinal de sua danação; pode muito bem ser um indício da nossa, pois, se as coisas chegaram ao ponto em que a denúncia do ridículo que nos rodeia é feita com tal estardalhaço, é porque as coisas foram longe demais. Curiosamente, portanto, interessa-nos que alguns aquarianos mantenham um ar de indiferença e distância em relação a essas rotinas: é desse ponto de vista que se tornam capazes de corrigir nossas esquisitices e evitar que a gente se enrede em círculos infernais.

Sim, o inferno somos nós. E Aquário só se torna o signo mais satânico do zodíaco porque, de saída, não está equipado para lidar com as baixezas de nosso comportamento. Sua disposição para integrar a sociedade, mesmo estando de antemão separado dela, é a própria origem das rasteiras que vai levar de modo desavisado no percurso. De modo que, aos aquarianos que decidiram participar do jogo com gosto e entusiasmo – existem nesse tipo também –, o que a gente recomenda é precaução, porque o ser humano é um bicho vil, ingrato e imprevisível, e nunca se sabe o que é capaz de fazer para se dar bem contra quem resolve se envolve na luta corpórea que travamos aqui com tantos golpes abaixo da cintura.  

Agora, na medida em que algo em Aquário permaneça à parte, diferente, distante, à salvo da humanidade, o arquétipo permanecerá sendo o próprio meio pelo qual a luz se propaga entre nós. Trata-se, é verdade, de uma luz eventualmente irônica, muitas vezes anárquica, que com frequência expressa através de um riso malicioso e desconcertante, porém que, em toda a sua leveza, fica para sempre marcada em nossas retinas  – como a meia-lua do sorriso do gato aquariano da Alice, pairando por um momento no céu escuro, antes de desaparecer.

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