aquário

De Aquário e outros demônios

Embora frequentemente confundida com o sarcasmo, a ironia pode ser explicada como a convivência de dois significados aparentemente contraditórios e igualmente verdadeiros num mesmo discurso: uma ambivalência que põe em cheque a própria contradição, por mostrar como os contrários coexistem de maneira muito mais íntima que supomos. Todos os símbolos oníricos e imagens arquetípicas têm esta natureza, pois carregam consigo discordâncias que nossa linguagem usual mal poderia suportar, mas que neles alcançam uma espécie de síntese misteriosa, na qual intuímos as limitações de nossa consciência. O signos do zodíaco são assim – irônicos repositórios de antagonismos que neles se mostram como verso e reverso de uma mesma figura, ainda que permaneça difícil para nós observar ambos os lados ao mesmo tempo.

Um dos casos mais notáveis é o de Aquário, que é anjo e demônio ao mesmo tempo. É verdade que todos os signos são, mas Aquário talvez o seja de forma mais específica e instigante. Trata-se, por um lado, do mais aéreo e desencarnado dos arquétipos zodiacais, com frequência oscilando entre a curiosidade, a excitação e a indiferença diante dos assuntos humanos, o que muitas vezes se estende à relação de Aquário com o próprio corpo, que ele vê com certo distanciamento e estranheza. Aliás, da última vez que escrevi sobre aquarianos, citei uma fala de uma personagem humana d’A Tempestade de Shakespeare, mas agora me ocorre que Aquário aparece na peça sob a forma de Ariel, criatura espiritual que contrasta com os baixios de Calibã, sem nenhum verdadeiro compromisso com os perrengues desse mundo.

Por outro lado (ironicamente), Aquário aparece também como o signo mais comprometido e até mesmo entusiasmado com assuntos bastante mundanos e concretos: esforços de reforma social, impulsos de evolução científica, festivais de comunhão carnavalesca. Isso tem tudo a ver com ironia central do arquétipo: o comum é ser diferente, e ser diferente é buscar o comum. Aquário tem uma imensa disposição para participar de qualquer obra ou celebração coletiva que encontre pelo caminho, exatamente porque, de largada, está excluído desse tipo de fenômeno. É uma criatura à parte, cuja excentricidade convive justamente com um desejo pelo ordinário, o que pode muito bem resultar em saltos revolucionários e enormes conquistas no campo da técnica, desde que realizados coletivamente pelo conjunto da galera.

Mas até aqui estamos basicamente no plano angelical. Resta saber o que afinal Aquário tem de especificamente demoníaco. Entendo assim: para Aquário, todos os outros signos se manifestam em criaturas corpóreas de traços distorcidos e presas ao solo pela força da gravidade, enquanto ele flutua entre nós. Isso, porém, o coloca em uma posição de permanente deslocamento, de tal modo que o inadequado parece ser ele. É justamente sua leveza que o torna suscetível de incorrer em algumas das mais terríveis manifestações de vilania, por causa da complexa dinâmica que gera no que se refere aos temas da adequação e do pertencimento. Seus desequilíbrios nessa balança são a grande ameaça: o senso de inadequação cria o impulso para participar de grupos e coletividades, mas requer o contraponto de uma reserva e de uma distância essenciais para Aquário (e para a sociedade como um todo) preservarem sua sanidade.

Esta é ironia e a ambivalência que Aquário precisa encarnar, sem abrir mão de nenhuma de suas facetas. Por mais engajado e participativo que venha ser, deve manter sempre algo de sua excentricidade e de seu desinteressado interesse nos dramas que nos ocupam tanto aqui nesse planeta. A indiferença distanciada que eventualmente lhe é atribuída como uma falha de caráter é, na verdade, sua e nossa salvação. Pois o aquariano que busca uma total adequação à forma humanoide, envolvendo-se demais em nossos dramas e mimetizando nossos padrões mais ordinários de conduta, está condenado a sofrer um tipo de rejeição cujo resultado é um ressentimento incurável e destrutivo. Reparem em como essa dinâmica está bem representada em algumas de suas nuances no mais aquariano dos vilões: o Coringa.

Refiro-me aqui especificamente à maneira como ele foi representado na última produção cinematográfica que protagonizou. Pois existe, naturalmente, uma dimensão geminiana no joker como comediante e piadista, capaz de fazer malabarismos com a linguagem e dar piruetas nos nossos padrões morais; e existe também nele um aspecto escorpiônico, intensamente destrutivo e cheio de profundas reentrâncias psicológicas. Mas o Coringa de Joaquin Phoenix se notabilizou por ser um sujeito excêntrico e um espírito delicado que se alça à condição de ídolo das massas em condições extraordinárias, após sofrer uma série de humilhações em seus esforços por integrar-se de maneira regular à sociedade. Embora não destituído de questões psicológicas (e psiquiátricas), é na dinâmica da exclusão e do pertencimento que se situam os aspectos mais significativos da trama de sua ascensão.

Ou, melhor dizendo, a trama de sua descida ao inferno. Pois as imagens da imersão no subsolo são decisivas na composição cênica do filme. É de lá que Arthur Fleck vai ressurgir como um barão da ralé, um atiçador de ânimos, um rabble rouser luciferino que lidera quase involuntariamente a insurreição das massas contra as estruturas do sistema. Refiro-me a Lúcifer não por acaso. Pois Aquário, por um lado, tem no mito grego de Prometeu uma de suas narrativas decisivas, vinculando-se à ideia do “portador da luz”, aquele que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens (isso explica muito do impulso aquariano de tornar-se um agente de desenvolvimento das ciências e tecnologias). Por outro lado, Lúcifer também significa, exatamente, “portador da luz”, e não por acaso é um anjo decaído. Aquário, em resumo, é um signo do capeta, literalmente falando, e isso parece ter uma relação justamente com o lado mais iluminista e luminoso de sua personalidade.

Voltando então ao Coringa, onde as duas coisas também se encontram e se confundem. Notem que há um ressentimento demoníaco por todas as humilhações e derrotas sofridas durante a descida ao inferno, porém, em sua figura arquetípica, nunca deixa de existir o potencial de iluminar com o riso os aspectos mais patéticos de nossa sociedade. O jogo social precisa do Coringa – ou de alguma de suas variações aquarianas – para não se perder por completo na aparência de seriedade de suas brincadeiras. Nós precisamos que Aquário permaneça sempre uma espécie de lembrança da bobagem que são nossos trâmites cotidianos, uma vez que tudo o que se passa na sociedade é de certo modo brincadeira, convenção, jogo. O problema é que a gente se esquece muito facilmente disso.

Nesse sentido, o Coringa tem o potencial de cumprir um papel semelhante ao do bobo da corte nos seus primórdios, isto é: lembrar ao rei o que há de ridículo em toda sua pompa e circunstância, assim como em todo o aparato que rodeia as câmaras e decisões reais. O bobo tem uma função política e terapêutica, que representa bem a importância de instalar uma figura tão anômala no âmago das instâncias de poder. Ele tem algo da ambivalência tipicamente aquariana, porque participa e não participa do jogo ao mesmo tempo. Agora, quando o idiota se torna ele próprio o rei, quando as decisões passam a ser atribuições dele, e quando você passa a perceber um componente de perfídia e de vingança em cada um de seus atos, pode saber que está diante de um pandemônio sem remédio – que começou no dia em que ele foi enxotado de algum grupo ou organização da qual queria participar.

Isso acontece quando abandonamos a ambivalência e a ironia: a frustração do desejo unilateral pela realização de um dos potenciais inscritos no arquétipo resulta em uma ênfase desequilibrada no outro. A rejeição pela sociedade em que se quis ingressar torna-se ódio destrutivo e ressentido contra a sociedade. Reparem, porém, como o bobo é por natureza ambivalente: sua figura é dispensável para a sociedade como um todo, ou pelo menos, digamos assim, para seu funcionamento regular, e, por isso mesmo, a sociedade depende dela para existir com um mínimo de consciência do seu modo de funcionamento. Curiosamente, portanto, interessa-nos que alguns aquarianos mantenham um ar de indiferença e distância em relação a essas rotinas, pois é desse ponto de vista que se tornam capazes de corrigir nossas esquisitices e evitar que a gente se enrede em círculos infernais.

Sim, o inferno somos nós. E Aquário pode se tornar o signo mais endiabrado do zodíaco só porque, de saída, não está equipado para lidar com as baixezas de nosso comportamento. Sua disposição para integrar a sociedade, mesmo estando de antemão separado dela, é a própria origem das rasteiras que vai levar de modo desavisado no percurso. De modo que, aos aquarianos que decidiram participar do jogo com gosto, o que a gente recomenda é precaução, porque o ser humano é um bicho vil, ingrato e imprevisível, e nunca se sabe o que é capaz de fazer para se dar bem contra quem resolve se envolve na luta corpórea que travamos aqui com tantos golpes abaixo da cintura.

Agora, na medida em que algo em Aquário permaneça em certo grau à parte, diferente, distante, à salvo da humanidade, o arquétipo permanecerá sendo o próprio meio pelo qual a luz se propaga entre nós. Trata-se, é verdade, de uma luz eventualmente irônica, talvez um tanto satânica, muitas vezes anárquica, que com frequência expressa através de um riso malicioso e desconcertante, porém que, com sua aérea leveza, fica para sempre marcada em nossas retinas  – como a meia-lua do sorriso do gato aquariano da Alice, pairando por um momento no céu escuro, antes de desaparecer.

3 comentários sobre “De Aquário e outros demônios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.