capricórnio

Mulher de Capricórnio

[Edward Hopper | Compartment C, Car 193]

Não sei se devia confessar isso aqui, mas a essa altura já confessei: em outros tempos, tive um preconceito astrológico contra as mulheres de Capricórnio. Ele começou na infância, por conta de uma situação que envolvia uma tia meio astróloga e outra tia meio pilantra, com a primeira repetindo sempre o mesmo parecer diante das patifarias da outra: “Ah, mas isso é coisa de mulher de Capricórnio!”. Cresci ouvindo aquilo e aquilo me marcou, a tal ponto que cheguei a evitar capricornianas em minhas primeiras interações afetivas. Mas o feitiço se quebrou quando tive uma namorada capricorniana por volta dos 20 anos (acho que demorei a saber a data de aniversário dela), e a partir daí conheci outras tantas capricornianas que me fizeram rever radicalmente meus conceitos.

Então esses dias me perguntei o porquê do preconceito da minha tia, e qual seria o motivo da ressalva ser voltada para mulheres capricornianas especificamente, e não capricornianes em geral. Devia haver um componente de machismo estrutural aí, mas a questão é qual componente, o que exatamente ela via nas capricornianas que lhe parecia condenável de antemão nas mulheres e não nos homens. “Capricornianas são dissimuladas”, me lembrei dela dizendo, com insistência e nitidez. Parei para pensar nas capricornianas que conheço. Não, elas não me parecem particularmente dissimuladas, muito pelo contrário. Parecem antes ter todos os cuidados para que a gente não se engane: você vê o que você leva, você leva o que você vê.

Tenho, porém, uma hipótese a respeito do ponto de onde ela estava partindo. Pois o que realmente chama minha atenção nas mulheres de Capricórnio é sua capacidade de manter a calma e o senso prático em situações limítrofes e emocionalmente carregadas. Isso vale tanto para o término de relacionamentos quanto para a administração de mantimentos em meio a uma catástrofe: a capricorniana será aquela que consegue traçar limites claros e evitar o pior, assumindo o controle quando todo mundo está perdendo o juízo. O semblante blasé que é capaz de preservar nessas horas decorre, por um lado, da concentração na tarefa em curso, e por outro de um melancólico senso de repetição das mesmas cenas e das mesmas catástrofes. A capricorniana sente que já esteve ali antes, que já administrou a mesma crise outras vezes – e que ninguém aprendeu muita coisa desde a última vez.

Homens de Capricórnio, é verdade, também são capazes de fazer isso. Eles simplesmente não serão objeto de um mesmo tipo de julgamento por terem ostentado um semblante prático e melancólico quando o mundo começou a ruir. Sei que eu, por exemplo, nunca tive problemas com os aspectos mais áridos da minha personalidade, e pelo silêncio resignado com que às vezes expresso minhas emoções. Por outro lado, da mulher se espera certa exibição de traços sentimentais que, quando ausentes, a tornam suspeita de estar escondendo alguma coisa. Daí o “dissimulada” da minha tia. Ele passa antes pelo “insensível”. Acontece que a sensibilidade de Capricórnio funciona em outro tempo, o que lhe permite plena eficácia prática mesmo quando um significativo trabalho de luto está acontecendo em segundo plano.

A capricorniana que executa seu compromisso com a eficiência e a ética no manejo dos assuntos mundanos, portanto, o faz a partir da consciência profunda de uma perda, e de que nunca será possível reparar de fato o que foi perdido. Só é possível uma aproximação nesse sentido – mas o que for possível será feito, ao menos no que depender dela. Essa dedicação obstinada não deixa muita margem para cuidar das aparências, através da exibição dos sentimentos condizentes com o que a etiqueta social pede dessa ou daquela situação. Aliás, Capricórnio consegue ser tão contrário a ser julgado pelas aparências (você vê o que leva, leva o que vê), que chega a aparentar o inverso do que realmente é. Aqui, possivelmente, existe sim um curioso mecanismo de dissimulação.  

Pois, se o imenso cuidado com o mundo da mulher de Capricórnio pode passar por desinteresse ou fastio (uma vez que se expressa através de atos concretos que são executados com as mãos, enquanto olhamos para seu rosto), eventualmente ela vai esconder sua tristeza na mesma medida em que os julgamentos sociais a acusem de não sentir tristeza nenhuma. Não digo que venha a dissimular seus sentimentos; ela apenas não vai fazer esforço algum para ostentá-los. Daí o risco de que assuma uma feição mais ríspida ou indiferente. Tanta falta de esforço num determinado sentido pode se tornar uma espécie de esforço no sentido contrário.

Mas isso apenas em alguns casos. No geral, a mulher de Capricórnio não precisa mesmo esconder nada para que acreditem que está escondendo alguma coisa. É verdade que isso acontece também nos arquétipos de Ar e de Fogo – mulheres sendo julgadas por não se adaptarem a expectativas e modelos sociais –, mas talvez o caso de Capricórnio seja particularmente notável porque todos os signos de Terra são femininos. Algo muito semelhante, aliás, poderia ser dito sobre as virginianas, considerando o tipo de controle que elas possuem sobre o ambiente imediato e sobre si mesmas. Touro, porém, traz com maior evidência um componente que não deixa de ser essencial para os outros dois, quando nos faz lembrar que os arquétipos de Terra dizem respeito ao corpo.

E os assuntos do corpo, enfim, são conhecidos pelas mulheres de um modo que a gente nem imagina. Eu pelo menos só posso suspeitar. Mas sei que passa por aí a mais profunda afinidade entre os signos de Terra e o feminino. Em todos eles, a dimensão sensível e palpável da experiência é a que vem antes de tudo, o que torna ainda mais equivocado que às capricornianas seja atribuída qualquer forma de insensibilidade. O que elas possuem (as taurinas e virginianas também) é força suficiente para sentir e fazer ao mesmo tempo – e talvez essa sobreposição seja aquilo que minha tia chamava de “dissimular”. Ou não, sei lá, vai ver que a outra tia era meio pilantra mesmo. Só não venham me dizer que ela era assim porque era uma mulher de Capricórnio.

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