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O poder de Peixes

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Hoje vou contar pra vocês um caso estranhíssimo que se passou comigo. Começou quando passei a falar de astrologia na internet. A princípio eram comentários eventuais de amigos ou conhecidos: “Escreve mais sobre Peixes”, “Por que você não escreve sobre Peixes?”, “Sou pisciane me explica aí plmdds kkkkkk”. Até certo ponto, era possível atribuir o comportamento ao estereótipo do signo (Peixes tem mesmo suas carências), e eu não iria muito além disso me pedissem para explicar a razão dos apelos esparsos. Aí aconteceu o inexplicável.  

De repente, do nada, sem aviso prévio, as requisições começaram a chegar de todos os lados. Já não eram só amigos, e a coisa se deu de tal maneira que cheguei a desconfiar de que havia até robôs forjados na deep web para advogar pela causa pisciana. Era como se eu estivesse devendo um tratado inteiro sobre o arquétipo; como se nunca tivesse escrito nem uma palavrinha sobre ele; como se minha vida dependesse disso. Até meu filho mais velho, que não é pisciano nem nada, referiu-se a um amigo que lê o blog e que teria lhe dito: “Fala pro seu pai que é pra ele escrever sobre Peixes”.

Pois bem. Cá estou eu escrevendo sobre Peixes. Não é que tenha me sentido forçado a isso, mas preciso reconhecer que eles conseguiram o que queriam, sobretudo depois dessa última leva de investidas. O que ela teve de especial foi parecer um movimento quase organizado de múltiplas frentes e braços que me atacou por todos os lados sem deixar margem de manobra, envolvendo na operação até meus familiares mais próximos e queridos. Então me pergunto: por que isso aconteceu assim precisamente agora, se os pedidos esparsos já vinham desde antes? E como eles conseguiram isso?

É aqui que, a meu ver, as coisas ficam interessantes. Desconfio que a resposta tem a ver com a questão do carma, e com a maneira como ela se expressa em Peixes, o que por sua vez se relaciona com uma espécie de superpoder que piscianos têm em comparação com outros signos. É isso que vou tentar explicar na sequência. Não sei até que ponto vou conseguir, porque um dos problemas que tenho com Peixes é que a respeito desse arquétipo suspeito de muita coisa, mas não tenho certeza de nada. O ponto de partida da investigação é o momento exato em que as pressões aparentemente articuladas começaram a chegar. Isso aconteceu exatamente logo depois que eu disse que a página ficaria sem novas publicações por um tempo.

Bom, eu estava precisando de um descanso, ou pelo menos achei que precisava. Acontece que eu estava, de fato, devendo um texto sobre Peixes. Então, na hora que anunciei minha retirada de cena, ainda que provisória, criaturas marinhas de todos os tipos apareceram para cobrar a minha dívida. Se você parar para pensar, faz sentido que as coisas funcionem assim. Você não anuncia que vai sair da cidade sem criar uma fila de credores na porta da sua casa. Se você quiser mesmo ir embora, você não diz o que vai fazer: você simplesmente vai.

Essa é inclusive a metáfora que alguns comentaristas do Zen e de outras filosofias orientais utilizam para referir-se ao possível despertar que tem o potencial de nos libertar da roda cármica (o nirvana, ou sartori, ou seja o que for). Não é recomendado, portanto, que quem vá se submeter a rigores espirituais em busca da iluminação saia por aí divulgando seu objetivo. Na verdade, o indivíduo não deve nem chegar a enunciá-lo para si próprio. As dívidas cármicas têm um apurado sexto sentido, e vão perceber fácil se você estiver planejando uma escapada. São elas que vão se apinhar no seu encalço já no dia seguinte.

Nessa lógica, o texto novo sobre Peixes que já havia prometido algumas vezes antes era o débito que eu precisava quitar; e tratá-lo como uma obrigação de caráter espiritual, sujeita ao controle do Grande Escritório de Deveres Acumulados e Promessas Não Cumpridas, não me parece totalmente despropositado, em se tratando justamente de Peixes. Pois é nesse arquétipo do zodíaco que desembocam todos os outros, e é nele que se dá o balanço de encerramento da roda zodiacal. Talvez por isso os próprios piscianos com frequência parecem carregar todos os sofrimentos do mundo nas costas. E, talvez por isso, o tema da fuga (para o mato, para o sonho, para o convento, para a enfermidade, para as drogas) seja tão comum quando se fala em Peixes.

Ou seja: piscianos precisam às vezes fugir do mundo, ou pensam nisso com frequência, porque recebem um influxo desproporcional de percepções a respeito do mal que existe nele. Nem sempre se colocam do lado de quem cobra, de quem se vitimiza, de quem sente que tem crédito com a humanidade; com frequência pendem para o de quem sente que tem uma conta enorme a pagar. Essa conta é na verdade a conta de todos nós, como se Peixes tivesse sido deixado sozinho na mesa do bar depois de todos os outros signos encherem a cara a noite inteira. O que Peixes faz nessa hora? Pede outra dose, ou dá no pé, claro. De um jeito ou de outro, a ideia é não estar mais ali.

Agora, não acho que a fuga pisciana esteja sempre condenada ao insucesso. Se a pessoa tem o ascendente em Peixes, por exemplo, ela tem mais é que encontrar mesmo sua porta de saída para toda essa encrenca que aprontamos aqui, e que será também uma porta de entrada para um mundo diferente (pode ser o mato, pode ser o sonho, pode ser a meditação, ou algum alucinógeno com o qual se entenda bem). Uma pessoa com um ascendente em Peixes, um barulho de água e uma brisa no rosto não quer guerra. Uma pessoa com um ascendente em Peixes não deve nada a ninguém.

Peixes, portanto, tem um potencial verdadeiro para se desvencilhar num pulo das labutas desse mundo. E tenho muito a aprender com Peixes para a próxima vez que resolver tirar um descanso. Mas não é exatamente esse, ainda, o poder de que falei no título. Isso não explica o curioso fenômeno do ataque do cardume cobrador, pelo menos não em seu aspecto de um esforço articulado e bem-sucedido. Esse tema explica o momento em que o ataque se formou – Peixes pode sim estar do lado de quem cobra, que quem se vitimiza, de quem reclama que o mundo não lhe dá os créditos devidos -, mas não sua abrangência e eficácia.

Pensem bem, como é impressionante isso de terem me encurralado tão logo fiz conhecer meu desejo de repouso. Até meu filho capricorniano entrou na história. Mas não creio que Peixes estivesse me manipulando emocionalmente, de maneira insidiosa, ao recorrer a meu filho; esse seria o caso de Escorpião, e já escrevi inclusive um texto sobre isso, está aqui. Não: Peixes estava conseguindo o que queria meio que sem querer mesmo. Quer dizer, sem querer querendo.

Como disse antes, é sempre meio complicado explicar as coisas que acontecem nesse arquétipo. Mas passa por aí: do mesmo modo como Peixes colhe o que não plantou em termos de culpas e fardos de outras pessoas, ele também consegue o que não necessariamente construiu com suas próprias mãos, o que não necessariamente planejou em sua mente, e até o que não necessariamente quis, pelo menos não querendo mesmo. O universo conspira a favor de Peixes tal como conspira contra Peixes, fazendo com que o arquétipo reúna tanto o papel de vítima (e esponjinha receptora da truculência do cosmos), quanto o de supremo ganhador da loteria universal (capaz de ganhar inclusive sem ter apostado). Naturalmente, se o pisciano se identificar com somente um desses aspectos, estará sujeito ao tipo de desequilíbrio que afeta todos os signos de uma forma ou de outra. Nesse caso, alguns vão se perguntar porque as coisas sempre dão errado para eles; outros, vão acreditar que não precisam fazer nada para dar tudo certo no final.

Existe, porém, uma razão genuína para essa última atitude, que não deve ser desconsiderada. É aí que está o poder de Peixes. O zodíaco conhece duas formas destacadas de otimismo: na primeira, sagitariana, as coisas vão dar certo porque vão acontecer como a gente imagina; na outra, pisciana, as coisas estarão certas do que jeito que acontecerem. Peixes, com isso, é bem capaz de delegar o rumo das coisas para forças além do seu alcance. Boa parte da ansiedade típica do signo, aliás, decorre de um bloqueio dessa função de estar de boa com o cosmos, tão importante de ser desenvolvida em alguma medida, quando se trata de Peixes. Importante porque, se você vai lidar com o cosmos como um todo (e é isso basicamente que Peixes faz), é bom você estar em condições de aceitar que ele tomará um rumo certo independente de seu controle. Porque você pode até tentar controlar sua casa, você pode até manipular as pessoas – mas controle do universo é algo que por definição você nunca vai ter.

E a verdade é que ninguém controla nada, no final das contas. Mas, enquanto nós outros podemos manter essa ilusão em uma área ou outra da vida, Peixes, olhem que coisa engraçada, o arquétipo aparentemente mais iludido do zodíaco, não se deixa enganar nesse sentido. E, diante dessa verdade inescapável do descontrole, ele não tem alternativa a não ser de fato render-se, entregar-se, renunciar à vontade pessoal como quem se entrega ao sono e ao sonho. Daí começam a expressar seus desejos como quem na verdade não quer nada, como quem não espera que aquilo seja realmente seja realizado. E a partir desse momento o inexplicável ocorre: o universo passa a funcionar do jeito que eles querem.

De modo que, para concluir a investigação, devo dizer que nunca houve nenhuma grande conspiração da Máfia dos Mares, mas apenas palavras ao vento que chegaram a mim de um jeito ou de outro. Talvez os piscianos mesmo já nem fizessem muita questão de que eu escrevesse o texto prometido; com certeza já estavam pensando em outra coisa, e foi aí que tudo se encaixou para que seus desejos fossem atendidos. Essa espécie de mágica, enfim, não deixa de ser a grande ironia que nos aguarda a todos no fim da roda cármica, pois escapar dela não depende de terminarmos o pagamento de qualquer tipo de dívida. Assim como assumir o controle do cosmos depende de entender que é impossível fazê-lo.

Enfim, o momento do despertar acontece quando a gente percebe, de repente, que nunca houve dívida alguma, e que a gente nunca paga nossa dívida cármica: a gente simplesmente sai da cidade e esquece que ela um dia existiu. Por via das dúvidas, enquanto estou funcionando nesse plano, aqui está, para todos os efeitos fiscais, o texto que eu tinha prometido sobre Peixes. Mas, quem sabe, mais cedo ou mais tarde, eu não escapo desse tipo de precaução, eu não me livro desse tipo de cálculo. Suponho que isso possa acontecer um dia – sobretudo se eu conseguir entender realmente, um dia, do que estamos falando quando falamos de Peixes.

2 comentários sobre “O poder de Peixes

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