capricórnio

A alma e as formas

Natividade | Giotto di Bondone (c. 1305)

Reparando aqui: a Noite de Reis e o dia do astrólogo (sim isso existe) acontecem na mesma data, seis de janeiro. Não é difícil identificar a relação entre as duas coisas. Eram astrólogos persas, ou magi, os “três homens sábios” que leram os sinais dos céus para encontrar o local de nascimento do menino Jesus, segundo o Evangelho de Mateus. O império persa, a propósito, foi um dos que conferiu à prática da astrologia um amplo papel social, depois do babilônico e do egípcio. Seus magos eram reconhecidos no oriente como sábios não apenas pelos conhecimentos técnicos e científicos que acumularam, como também pela participação em momentos chave da vida política da região. É possível inclusive que o evangelista os tenha incluído na história de Cristo para conferir maior legitimidade à sua narrativa.

Criação, de Gore Vidal, é um belo romance histórico sobre a Pérsia e arredores alguns séculos antes do nascimento de Cristo. Ele se passa durante o reinado de Xerxes, portanto no século V a.c., e é narrado por um embaixador do império nas terras do oriente e do ocidente, que durante suas viagens entra em contato direta ou indiretamente com personagens como Sócrates, Buda e Confúncio. Afinal, esse foi o período em que foram concebidas as transformações filosóficas, espirituais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo e criaram os fundamentos de muito do que veio a seguir. Com a astrologia não poderia ser diferente, de modo que nesse intervalo, até a queda do Império Romano, estabeleceram-se não apenas uma, mas diversas e antinômicas bases possíveis – éticas, científicas, espirituais – pelas quais podemos hoje nos guiar no estudo dos astros.

A antiguidade astrológica deixou como legado vários livros e nomes importantes, mas gostaria de mencionar agora particularmente um deles, hoje menos conhecido. Jâmblico, ou Iamblichus, foi um filósofo e astrólogo de origem síria que veio a ser também biógrafo de Pitágoras. Até determinado ponto, seguiu filósofos neoplatônicos como Plotino e Porfírio em suas reflexões sobre os possíveis caminhos e saídas para que a alma encarcerada no mundo físico pudesse dele escapar. Mas, no decorrer de seus estudos, concluiu que a vinculação da alma à matéria não era de todo indesejável, possuindo potencialidades que estavam ainda por ser exploradas, o que justificava o aprimoramento dos instrumentos de orientação da nossa vida nesse corpo e nessa Terra (para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendo muito essa palestra de Robert Hand sobre astrologia, moralidade e ética; a parte seguinte desse texto se baseou nela).

Jâmblico sugeriu que o instante do nascimento de indivíduo era aquele em que as potencialidades de desenvolvimento da alma em um determinado corpo ficavam estabelecidas de acordo como retrato do movimento dos planetas. Esse retrato, por sua vez, representava um ideal ao qual a experiência humana em um determinado corpo podia apenas almejar – mas não devia deixar de almejar. O estudo da astrologia serviria então exatamente para que a alma, através de um determinado corpo, encontrasse uma maneira única de expressar-se e aprimorar-se, segundo as especificidades de uma configuração planetária ao mesmo tempo eterna e momentânea. Desse modo, a alma individual não estava exatamente submetida à dinâmica celeste como uma fatalidade imposta desde cima: ela era essa dinâmica, e ao mesmo tempo uma manifestação parcial dela aqui nesse mundo, que contava com as pistas deixadas lá em cima para reencontrar-se consigo mesma.

Hoje em dia, muita gente pensa que os adeptos da astrologia buscam uma espécie de reino encantado e esotérico para não encarar os sofrimentos e dificuldades da vida terrena, e que ela não possui nada a oferecer além disso. Outros entendem que a astrologia até funciona, e pode funcionar muito bem, mas não tem dimensão ética alguma, e é somente uma técnica que pode estar a serviço dos objetivos menos nobres. Há precedentes para sustentar as duas hipóteses. Mas a posição de figuras como Jâmblico representa uma alternativa no mínimo interessante nesse cenário, uma vez que reafirma o valor do mundo físico tal como o conhecemos, e ao mesmo tempo indica que ele pode sim orientar-se eticamente de acordo com coordenadas astrológicas.

Nessa perspectiva, faz sentido que a astrologia seja comemorada em uma data capricorniana. Pois Capricórnio é sobre honrar o mundo físico, desenvolver suas potencialidades, aproveitar seus recursos com inteligência, e entender que suas limitações são a única maneira pela qual a alma passa a existir nas formas. Disso tudo se deduz a possibilidade de um determinado comportamento moral, sem que precise ser moralista. A ética capricorniana passa pelo real e não deixa nunca de utilizá-lo como ponto de partida; assim, longe de conferir à matéria um aspecto vil, isolado do espírito, Capricórnio mostra como ela é justamente o veículo pelo qual o conhecemos, e o instrumento para aprimorá-lo através de nosso corpo por meio do trabalho de uma vida.

Mas Capricórnio pode ser, sim, um signo pesado. Isso acontece sempre que faz o caminho inverso – e, no lugar de elevar a dimensão da matéria, traz para o chão, por força de sua gravidade, tudo aquilo que lhe parece de um idealismo sem bases no mundo concreto. Por outro lado, a leveza possível de Capricórnio está justamente em sua capacidade de erguer o mundo concreto alguns centímetros acima do solo. Curiosamente, talvez isso nos diga algo também sobre a história de um deus que encarna em um corpo humano, e termina por ter a data de seu nascimento associada a esse arquétipo. Sua história termina com uma pesadíssima cruz na qual ele está preso como uma alma estaria presa ao corpo humano, segundo os neoplatônicos. Mas ela começa com a infusão de uma alma divina em um corpo humano, de tal modo que sua carne e pele e ossos não são um obstáculo a ser recusado ou um pecado merecedor de flagelos: são justamente um instrumento que a Alma encontrou para se movimentar entre nós.

Por último, queria enfatizar que o etos do aconselhamento astrológico não prevê nunca uma recomendação de renúncia ao mundo e seus desejos, ambições e disputas. Mas é papel do astrólogo identificar quais desejos, ambições e disputas recebem o suporte do retrato tirado do cosmos no instante do nascimento de um indivíduo, em interação com os que estão acontecendo no momento da consulta. É como se os ciclos planetários formassem uma intrincada rede de fluxos para a qual buscamos uma espécie de adaptação do corpo, embora o corpo neles esteja imerso o tempo inteiro, e não tenha como escapar deles nem querendo – o que torna tão mais significativa a possibilidade de acompanhá-los como quem participa de uma espécie de dança. O fato desses movimentos serem sempre contraditórios e ambivalentes é, por sua vez, o que torna tudo mais difícil, interessante e divertido.

Uma coisa é certa: o fatalismo que a astrologia antiga ou medieval conheceu tem um papel restrito nos atendimentos hoje em dia. Por outro lado, existe certa tendência em consentir com o uso da astrologia para finalidades desprovidas de qualquer justificativa moral, como se fosse apenas uma técnica isenta de premissas e implicações nesse campo. Mas as premissas cosmológicas da experiência da astrologia continuam sendo, ao menos para mim, motivo do maior assombro diante do que enunciam sobre a relação entre o homem e o universo. Acho difícil vê-las assim sem deduzir algumas orientações éticas no meu trabalho e nas minhas relações com os outros. Sou capricorniano, no final das contas.

Além disso, por fim, o fato de poder verificar, diariamente, algumas confirmações exatas da interação entre assuntos humanos com os símbolos do cosmos que temos disponíveis, é motivo sempre para reafirmar o mergulho nesse mundo como o meio para encontrarmos as mais perenes verdades. Por ora, bastam-me inclusive as verdades provisórias com que me deparei até o momento para suspeitar de que um astrólogo sírio que viveu há mais de dois mil anos tem algo de muito certeiro para dizer sobre nosso mundo. Talvez eu não saiba ainda expressar com total exatidão o que vejo de tão correto em sua perspectiva. Mas, se estou aqui nesse corpo, regido por tais e tais configurações astrológicas, ao que tudo indica me sobram motivos para continuar tentando.

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