astros

Escrito nas estrelas

Existe um filme dos anos 1990 em que Deus aparece para os personagens através de um grande painel luminoso de beira de estrada. Eu me lembro de pouca coisa desse filme; sei que era com a Sarah Jessica Parker e com o Steve Martin, e que Deus aparecia para eles através de um grande painel luminoso de beira de estrada. O engraçado disso era a maneira escancarada e nada enigmática com que Ele se comunicava, sendo ao mesmo tempo capaz de passar totalmente desapercebido (porque, né, quem ia acreditar que era o Próprio se manifestando ali em letras garrafais, ao lado das varandas de um motel ferrado nos arredores de Los Angeles). A razão pela qual me lembrei agora desse filme e dessas cenas é a mesma que me fez ter vontade de deixar aqui mais algumas observações sobre os trânsitos astrológicos de 2020.

Para ser direto, até porque esse texto é um também um pouco sobre como as mensagens do cosmos podem ser claras, luminosas e garrafais, eu diria que Deus pode estar se comunicando com cada um de nós exatamente assim nesse início de ano. Está se expressando de maneira inequívoca, grosseira, até escrachada, porém por meio de artifícios tão ostensivos que por isso mesmo podem não parecer, digamos assim, divinos. Nós esperamos de Deus que se comporte com certa dignidade, que respeite o decoro do cargo, que mantenha um mínimo de compostura – não que nos jogue verdades na cara como uma tia bêbada que perdeu a paciência com as sutilezas da família na ceia de natal. Jesus Cristo, por exemplo, trouxe sua palavra através de delicadas e elegantes parábolas, e inclusive recusou lançar mão de quaisquer recursos cênicos milagrosos para provar seu poder e aumentar seu rebanho.

Agora, já que Jesus entrou na história, é bom deixar claro de que tipo de deus estou falando. E o deus de que estou falando atende pelo nome de Plutão, ou Hades, o soberano dos infernos na mitologia grega, e que na astrologia responde pelas camadas mais profundas da psique, por nossa relação com a mortalidade, e pelos comportamentos mais desviantes ou abusivos do ser humano. De modo que é uma mensagem vinda lá de baixo, de um lugar para onde normalmente não queremos olhar, sobre assuntos que normalmente não queremos remexer, que está sendo enunciada, sublinhada, destacada, gritada, berrada e balida para muita gente esses dias. O fato de ser uma mensagem possivelmente indesejada não a torna menos bem-vinda, e talvez ela esteja recebendo esse tratamento agora exatamente para que a gente enfim a aceite, e, com isso, a vida possa seguir adiante.

De um ponto de vista técnico, a percepção condiz com o significativo conjunto de planetas que está formando um quase inédito alinhamento em torno de Plutão até meados de janeiro de 2020. Vale notar que o fenômeno inclui Mercúrio, o mensageiro dos deuses, também aquele que fazia a ligação do plano terreno com o submundo – e, portanto, em sua aparente superficialidade, um agente fundamental da sincronia entre fenômenos psíquicos profundos e as vastas dimensões astrais. Mas creio que todos os integrantes da trupe estarão cada um à sua maneira enfatizando uma verdade que já está aí há algum tempo, mas que podemos ter tentado evitar de todo jeito até agora. Não mais: é a definitiva consciência dessa mensagem, por mais difícil que seja, que vai nos permitir começar de novo e voltar ao jogo em 2020.

É também disso que estava falando quando disse na última postagem que “o fim está próximo”. O fim é essa consciência de algo não tem mais jeito, não tem conserto, não tem remédio, nem nunca teve, na verdade. Ou, como descreveu a psicóloga e astróloga Liz Greene: “Plutão, ao que parece, rege aquilo que não muda nem vai mudar. Essa é uma questão particularmente dolorosa na época das terapias de autoajuda e da disseminada crença de que podemos ser o que quisermos (…) É irônico, e paradoxal, que a genuína aceitação do imutável seja a chave para transformações profundas na psique humana. Essa ironia de fato não parece ser comunicável a não ser nas chamas da vida. Então ela permanece um segredo, não porque ninguém irá contá-la, mas porque ninguém vai acreditar nela, a não ser que tenha sobrevivido ao fogo.”

Greene acrescenta ainda: “Terapias e meditações e dietas e encontros não têm efeito aqui; e a decisão não é mais sobre a coisa certa a se fazer, mas se devo sacrificar o braço direito ou o esquerdo”. Nesse ponto imagino a impotência que ela mesma deve ter sentido como psicóloga para ajudar seus clientes a contornar crises dessa natureza, diante da ineficácia de seus recursos e técnicas e truques terapêuticos. Estamos falando, por exemplo, do momento em que uma mulher compreende que a maneira como foi tocada por um parente quando menina foi sexualmente abusiva, ou que determinado episódio com um ex-namorado violento foi na verdade um caso de estupro – e que isso, o fato de ter sido estuprada, já não se acomoda às explicações que criou ou aceitou para evitar dar o nome às coisas, tornando-se então parte incontornável daquilo que ela é, foi e virá a ser.

Sei que, para quem começou esse texto lendo uma leve e simpática menção a uma comédia romântica, talvez aguardando uma otimista previsão de ano novo, chegamos a um ponto meio sombrio demais para os incautos. Paciência, é isso que que você recebe quando resolve ler alguém o blog de alguém com lua em Gêmeos e ascendente em Escorpião. E a partir daqui não tem mais volta. “A PARTIR DAQUI NÃO TEM MAIS VOLTA”: leia, é o que estão dizendo os sinais. Mas, naturalmente, eles vão afetar uns mais que outros, de acordo com os planetas em seus mapas natais, de maneira que o incontornável pode se apresentar de maneiras mais ou menos intensas para cada um, e pode relacionar-se com assuntos mais prosaicos, embora sempre com um certo grau de evidência e mesmo de acintosa honestidade.

Um exemplo simples é o de alguém que, diante de uma pessoa querida, porém bastante mais velha, de repente percebe com toda clareza a decadência corporal e finitude que essa pessoa encontrará em um futuro não muito distante. Outro é de um indivíduo que vem insistindo no sonho de uma determinada carreira, e se depara com um empregador descuidado, que em uma entrevista irá lhe dizer que não, de maneira alguma, ele não leva o menor jeito para aquilo. Como provavelmente seria o caso nessa situação, quando Plutão e suas barreiras intransponíveis aparecem para nós, a primeira e natural reação é de raiva, ou desespero, ou a mais absoluta impotência. Só com o tempo somos capazes de nos tornar gratos ao entrevistador que nos tirou as mais preciosas esperanças e nos encaminhou a contragosto para uma outra atividade, ou à enfermeira que nos deu uma notícia triste de maneira honesta, ou ao terapeuta que nos levou até o submundo de nossas memórias para revirar o lixo que existe lá. Só com o tempo – se é que.

Se é que: mas gratidão nesse caso é um sentimento de menor importância. Aceitar já basta. E como é difícil, às vezes, aceitar mesmo aquilo que está piscando em luzes ofuscantes diante da gente. Esses dias, para dar um último exemplo, uma pessoa que já mentiu muito para mim no passado – em uma triste história que envolve segredos familiares, manipulação e violência, o pacote completo – resolveu inventar uma história para justificar um comportamento inadequado mais recente. Foi esse o acontecimento que me fez lembrar do filme com Deus no pisca-pisca da beira da estrada.

Bom, eu estava acostumado a pensar que essa pessoa mentiu para mim no passado – não que isso permanecesse como um hábito, não que a história lá de trás continuasse de algum modo agora, com outras pessoas envolvidas. Então precisei escutar uma história escancaradamente mentirosa para cair em mim: mas é claro, essa pessoa mente, sempre mentiu, simplesmente nada mudou. Nesse caso em particular, sinto hoje o distanciamento necessário para ser capaz inclusive agradecer ao destino pelo descalabro da versão dos fatos que me foi apresentada nessa situação presente, até porque ela é bem menos ofensiva do que as anteriores. Era como um outdoor de todo tamanho feito para que eu percebesse: veja, é uma mentira. E não há como ser de outro jeito.

O que eu queria mesmo, é claro, era que me fosse contada a verdade, e sobretudo que a verdade do que vivi e vi lá atrás quando era criança fosse reconhecida, que alguma espécie de retratação me fosse concedida, ou algum traço de arrependimento presenciado. Mas é nessas horas que o destino intervém para dizer: NÃO VAI ROLAR. Disso eu até já sabia há algum tempo, mas Plutão tem esse jeito que reaparecer para a gente às vezes, quando começamos a reassumir esperanças sobre os assuntos que ele governa em nossas vidas. A vantagem é que, depois, a energia que sobra para outros assuntos é imensa, simplesmente porque as energias que gastamos confrontando o inconfrontável, durante grande parte da vida, é desmedida também.

Enfim, outro dia minha mulher me perguntou se é possível identificar um serial killer por seu mapa astral. Tive que dizer a verdade: muitos são parecidos com o meu. Segundo a própria Liz Greene, pessoas com mapas assim (tenho o Sol e Marte em quadratura exata com Plutão, entre outros detalhes adicionais) ou viram assassinos, ou viram psicólogos e coisa parecida. “Astrólogo” foi a coisa parecida que encontrei para mim. De modo que vocês podem continuar contando comigo durante o ano que virá para escrever sobre os astros. Outro dia disse que provavelmente ficaria sem escrever por uns tempos. Mas vejam bem, saímos no lucro com mais essa postagem sobre Plutão, pois tenho que manifestar de algum modo as influências íntimas que ele sempre exerceu em minha vida, e essa parece ser uma das mais inofensivas e saudáveis.

Aí ontem vi uma imagem com um texto que resume bem o que estou tentando dizer sobre os trânsitos desse fim de ano desde a postagem anterior (quem não leu e quiser ler, é só clicar aqui). Ela dizia algo assim: “2017 me mudou. 2018 me quebrou. 2019 me abriu os olhos. É 2020, e estou de volta”. Então, acho que esse comecinho de ano é uma espécie de última chamada para quem precisa ter os olhos abertos, mesmo sobre assuntos complicados, e principalmente sobre eles. Para nossa sorte – se é que a palavra é essa – Deus estará se comunicando conosco através de sinais bem evidentes. Bom, talvez não exatamente Deus, mas vários deles, ao mesmo tempo, de uma vez só. Portanto apertem os cintos, fiquem atentos aos luminosos – e que esse seja um ótimo ano novo para todos nós.

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