astros

O fim está próximo

O Sol ingressa em Capricórnio por volta do dia 22 de dezembro de cada ano. Para os romanos, essa era a época das Saturnálias: uma semana de festa, com comida e bebida à vontade, em que a autoridade era subvertida, a ordem social era suspensa e identidades eram alteradas. No dia 24, trocavam-se presentes. O cristianismo situou seu principal feriado próximo a esta data porque seria impossível abolir a celebração popular, então era melhor cooptá-la. Já os puritanos ingleses depois rebelaram-se contra a missa de Cristo, a Christ Mass, e Cromwell chegou a aboli-la, argumentando com certa razão de que não passava de uma orgia pagã com um verniz cristianizado.

As Saturnálias começavam sob a regência de Júpiter, e terminavam sob a de Saturno. Portanto, acompanhavam a passagem do bastão de Sagitário para o signo da Cabra. Faz sentido: um último período de licenciosidade e abundância antes do início de uma época de restrições, com a perspectiva de futuros constrangimentos motivando toda uma semana de excessos. Mas Capricórnio não precisa ser visto como um arquétipo tão árido. Após o momento sagitariano do zodíaco, ele trata, sim, da necessidade de alcançar certo equilíbrio, através de ações responsáveis e intervenções consequentes no mundo. Porém o tipo de ajuste que está em jogo agora pode ter uma importante dimensão espiritual, e é bom ter isso em mente nessa passagem de 2019 para 2020, quando a coisa toda ganhará outras proporções.

Agora, o ingresso do Sol em Capricórnio o levará de encontro a Júpiter, Saturno, Plutão e Ceres. Por volta do dia 10 de janeiro, quase todos esses astros (com o acréscimo de Mercúrio) estarão alinhados com exatidão em 20º de Capricórnio, o mesmo grau onde acontecerá então um eclipse lunar em Câncer – portanto em oposição ao aglomerado capricorniano. Quem tiver planetas no mapa natal em torno de 20º de Capricórnio, Câncer, Áries ou Libra tende a sentir o fenômeno com mais impacto. Isso vale, por exemplo, para quem está por volta dos 40 anos agora, e tem Plutão nessa região do signo de Libra, ou para quem faz aniversário por volta dos dias 09 de abril, 11 de julho, 13 de outubro e 10 de janeiro mesmo. Mas esses trânsitos têm força suficiente para ter repercussão na vida de todo mundo.

Esse é inclusive o tipo de configuração que em outros momentos seria o suficiente para criar a expectativa pela vinda do Anticristo, bastando para isso a conjunção de Saturno e Plutão que irá se consumar. A propósito, a última vez que essa conjunção aconteceu em Capricórnio foi em 1517, um mês depois de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na igreja do castelo de Wittenberg, portanto em perfeita sincronicidade com o início da reforma protestante (que pode ser vista como um ajuste de grandes proporções diante do momento de excessos na Igreja Católica). Se os astrólogos da época soubessem a respeito de Plutão e seus demônios, isso acrescentaria um elemento talvez decisivo nas muitas polêmicas em torno do mapa de Lutero. Mas o sistema solar ia só até Saturno mesmo, o que já era o suficiente para que se chegasse a previsões bastante precisas a respeito do Apocalipse.

No entanto, é para o plano individual, para nossa experiência diária, para a mente e o espírito de cada um de nós, que, na minha opinião, todas as nossas atenções e cuidados devem estar voltados nas próximas semanas. O conjunto de trânsitos e aspectos que vão se suceder a partir da Lua Nova e do eclipse solar do dia 26 de dezembro não são o fim do mundo – e acho até que farão desse intervalo um momento de rara oportunidade para retomarmos o prumo que foi perdido nos últimos anos. É sobretudo isso que estará em jogo nesse início de 2020, creio eu: uma chance de recomeçar a partir de novas bases. E esse recomeço passa por uma definição final a respeito daquilo que não nos serve mais, e que continua fazendo parte de nossas vidas por força do hábito ou de uma exaustiva e esgotada insistência.

Isso pode acontecer em diferentes áreas da experiência, variando de acordo com o arquétipo solar e outros componentes do mapa individual. Libra, por exemplo, pode viver esse tipo de definição em relação à família, e nesse caso, curiosamente, toda essa energia no eixo Câncer-Capricórnio, tão familiar e apegado às tradições, servirá para ceifar de vez aquilo que se desgastou e vem capengando no âmbito das relações familiares. Para todos os signos, porém, esse deve ser um momento para dar um fim efetivo ao que já está acabado. Até porque, a essa altura, o que está acabado já vem acabando há tempos, e nesse processo de lento acabar-se está acabando com nossa paz de espírito e nossa saúde mental.

É disso que estou falando quando me refiro à energia que haverá disponível agora para retomarmos um certo equilíbrio. Tenho visto muita gente vivendo o desespero da tentativa de preservar o que já está findo ou remediar o que não tem conserto. Nisso, ganham em volume e estridência as discussões que parecem se dar em um mundo anterior à queda, porque presumem proximidades onde há distâncias, ou parecem querer restaurar o paraíso perdido, nem que seja na marra e na base do murro. O momento que vamos viver agora é de reconhecimento que nada disso tem volta. O que pode ser uma coisa triste, mas a essa altura creio que para muitos de a percepção virá com uma boa dose de alívio.

Amigos já me perguntaram umas duas ou três vezes, meio à brinca e meio a sério, se com esse encontro tão exato de tantos planetas e um eclipse ainda por cima o mundo finalmente acaba, depois de tantas previsões infundadas. Minha resposta tem sido que o mundo já acabou, e que agora nós estamos na expectativa é dele recomeçar. Mas, quando digo isso, penso sobretudo nas experiências individuais que estão implicadas na ideia de “mundo”: é o mundo de cada um de nós, pelo menos um aspecto importante dele, que vai encarar de vez a finitude no começo de 2020, para abrir espaço para que tudo comece de novo nessa área da vida. Então, para que isso se execute, será mesmo bem-vinda uma boa dose de energia capricorniana.

Isso, em primeiro lugar, porque Capricórnio sabe traçar limites como nenhum outro signo. Capricórnio tolera muita coisa, suporta o que der e vier, mas tem sempre um “alto lá” para quem se exceder nas liberdades com a cabra – até porque ela entende que certas coisas são inegociáveis. Em segundo lugar, Capricórnio é um tipo que conhece o silêncio, convive bem com a solidão, e acredito que boas doses de silêncio e solidão vão ser importantes nesse processo. Conjunções planetárias são fenômeno cuja sincronicidade experimentamos com nosso corpo e coração inteiros, de acordo com sentimentos que vêm de dentro, sem necessariamente serem acionados por acontecimentos externos. Mas, para vivê-los, a gente precisa deixar que elas aconteçam em nós.

Passadas as festividades natalinas, portanto, virá o tempo de preparação para essa virada significativa, muito mais significativa que a virada de ano. Terminadas as Saturnálias, será tempo de entender o que mais tem que findar. Repito que a transição tem um forte componente espiritual, apesar de tratar também de fatos concretos e realidades duras da vida. A Lua Nova do dia 26 será um belo e harmonioso impulso para o instante mais denso que há de chegar uma quinzena depois. Quem tiver um pouco de senso usará essa largada para colocar-se em posição de escuta em relação às próprias emoções e aos próprios pensamentos, pois são eles que trarão as respostas que cada um de nós aguarda, e os gestos com que vamos delimitar o primeiro dia do resto de nossas vidas. Finalmente: nós já estamos esperando isso há algum tempo.

Para terminar, lembrei de um poema de Leonard Cohen, intitulado “Discussão”, cujos primeiros versos dizem: “Você talvez seja uma pessoa que gosta de discutir com a Eternidade”. Da maneira como o poema se desenvolve, entendo esse ‘discutir com a Eternidade’ como uma discussão com finitude e com a morte. De um modo ou de outro, todos nós discutimos com a morte, tentamos confrontá-la, expressamos nossa contrariedade em relação a ela, ou diante do fato de que as coisas acabam (assim como o amor acaba, no texto de Paulo Mendes Campos). Mas chega o momento em que perdemos nossas forças para continuar essa discussão, percebemos que não há como vencê-la, e com isso – quem diria – a vida se renova e segue adiante.

Acho que esse momento vai chegar pra muita gente em breve. Da maneira como as coisas estão se arranjando no céu, vejo Plutão como o agente da finitude e da morte que estamos confrontando há algum tempo. O Sol, a Lua Cheia eclipsada e os demais planetas que vão se reunir em torno dela me parecem ter vindo para encerrar essa briga, não necessariamente pacificando os ânimos, mas silenciando-os o suficiente para que entendam: já não há pelo quê brigar. As coisas se moveram e se transformaram a ponto de terem desfeito o próprio mundo onde a briga começou. A partir daqui a história é outra, e qual será nós não sabemos – mas tenho esperança de que, também em breve, a gente saberá por onde começá-la. Feliz 2020 para todos nós.


3 comentários sobre “O fim está próximo

  1. Aprecio e acompanho as belas e consistentes escrituras de Gustavo Naves. Em linguagem sempre precisa, elegante e poética, esse autor generoso expressa profundidade de estudos e sensibilidade para temas que nos afetam e demandam conexões atemporais ou altamente temporais, situadas no contexto atual e em nossas subjetividades – sejam em trânsito, mutantes, angustiadas, esperançosas e abertas a reinvenções (de preferência com muita ajuda de conjugações cósmicas!). Obrigada por compartilhar páginas tão lindas e impactantes!

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