sagitário

O mundo de Sagitário

Quando jogos de computador começaram a existir, ou pelo menos quando passei a ter contato com eles, o meu preferido era um chamado Where in the World Is Carmen Sandiego?. A personagem do título era uma criminosa ladina e cosmopolita procurada no mundo inteiro pela Interpol, e a tarefa do jogador era reunir pistas em diferentes lugares para descobrir onde ela estava se escondendo. As cidades visitadas durante a investigação (Cairo, Reykjavik, Kathmandu, Buenos Aires, Oslo, Bagdá, Bancoc, e por aí vai) apareciam com ícones de sua arquitetura ou paisagem ao fundo, enquanto a fonte do detetive fornecia uma informação que podia ser importante na busca. Mas metade da graça do jogo estava em ficar indo de uma cidade para a outra, com seus nomes estranhos e familiares ao mesmo tempo.  

A investigação é uma arte que se aloja no arquétipo de Escorpião. Porém, nesse caso, metade da graça do jogo era sagitariana. Pois é em Sagitário que sentimos esse frêmito de excitação diante de coisas que são simultaneamente próximas e distantes, cujos símbolos conhecidos atiçam nosso desejo e curiosidade, porém dizem respeito àquilo que não está acessível de imediato. Quando digo “próximas”, portanto, não falo de coisas ou cidades que estejam perto: digo apenas que essas coisas existem e fazem parte deste mundo, são realidades possíveis e inclusive já realizadas pela humanidade, estão aí faz tempo e não vão embora tão cedo. Roma, no jogo como na vida, tinha a vantagem de ser Roma e de nem por isso ser uma invenção de um filme ou de um livro ou de um jogo. Istambul era não apenas uma cidade fantástica e quase inconcebível com suas mesquitas e minaretes, era isso e era também um lugar que um dia eu ia conhecer.

Funciona assim: primeiramente, a criança entra em contato com o mundo através daquilo que está ao alcance da mão. Seu raio de atuação e conhecimento se expandem um pouco nos primeiros anos – para a vizinhança, o bairro, a escola – mas até certo ponto tudo permanece no âmbito do arquétipo de Gêmeos. Em algum momento, entretanto, ela conhecerá também sinais e vestígios de todo um enorme mundo a ser explorado. Basta um mapa-mundi para colocá-la em contato com uma espécie de vastidão que não é a vastidão do cosmos, e sim a vastidão do globo, portanto uma enormidade, mas uma enormidade de proporções humanas, compatível com nossos cálculos e medições rotineiros, passível de ser percorrida por aviões e caravelas.

Tudo isso acontece em Sagitário, em movimentos simultâneos de redução e expansão: um globo terrestre cabe na prateleira de um escritório, porém para a mente sagitariana não deixa nunca de ser uma representação de outras coisas incríveis que realmente existem lá fora. Quem colecionou aqueles álbuns com as bandeiras de todos os países sabe do que estou falando. As figurinhas mesmo podiam ser simples, um conjunto de formas e cores sem maior ambição artística, mas cada bandeirinha no álbum tinha a enorme de virtude de não ser simplesmente um desenho. Elas sempre remetiam a algo de muito diferente, que existia em alguma parte do globo terrestre, e por isso existia um pouco também ali, através daquela bandeira.

É lógico que a gente vai sempre se lembrar com carinho de alguns detalhes interessantes ou enigmáticos: a estrelinha na bandeira da Tunísia, os escritos na bandeira da Arábia, a folhinha na bandeira do Canadá. Assim como existem lugares no mundo que dá vontade de conhecer só por causa do nome, como o rapaz que protagoniza O Que Diz Molero, um romance do português Dinis Machado, e que no final do livro percorre o mundo escolhendo destinos de acordo com a sonoridade das palavras: a Pensilvânia, a Groenlândia, o Panamá. Ainda assim, por mais exóticos que possam ser os símbolos e os nomes de territórios sobre a Terra, insisto no ponto principal: todos esses lugares têm a virtude de existirem. Não são invisitáveis, por assim dizer – e isso é muito mais do que podemos dizer de muitos outros lugares.

Por exemplo: imagino que, para uma criança sagitariana e fã de Harry Potter, seja um pouco duro descobrir que Hoghwarts é um lugar fictício. A essa altura ela já fez planos de ir até lá. Para uma criança de Peixes, vamos supor, isso talvez seja um problema menor: tudo bem, ela vai pensar, Hoghwarts pode não ser algo que exista nesse mundo, mas isso nunca foi pré-requisito para as coisas existirem na minha imaginação. Sagitário, por sua vez, é imaginativo, mas está sempre antecipando com entusiasmo acontecimentos possíveis – ainda que pouco prováveis, ainda que exagerados – dos quais se vê um indício, mínimo que seja, de que um dia venham a acontecer.

Aí eu fico pensando em como deve ser o envelhecer, para esse arquétipo em particular. Se já é complicado pra mim, nem consigo imaginar como deve difícil para Sagitário aceitar as limitações que se impõem na vida na medida em que o tempo passa – como, por exemplo, a de que a gente não vai chegar a conhecer todas aquelas cidades do joguinho da Carmen Sandiego. Pois uma coisa é aceitar que a gente nunca vai chegar à Terra do Nunca do Peter Pan; outra coisa é perceber que podemos morrer sem ter conhecido a Cordilheira dos Andes ou a República Tcheca. Afinal, tudo nessa vida envolve escolhas e concessões, e, por mais dolorosa que seja essa constatação, há coisas nesse mundo mesmo que no final das contas só terão existido para nós sob a forma de uma bandeira ou um nome ou um filme.

O mesmo raciocínio vale para livros que nunca vamos ler, obras inteiras que vamos morrer sem ter conhecido. Sempre que falamos em Sagitário, essa equivalência é válida, pois nesse arquétipo há tanto os que percorrem aeroportos e hospedarias quanto aqueles que habitam livrarias e bibliotecas, sobretudo quando Mercúrio se encontra em Sagitário também. Já para quem tem Vênus em Sagitário, por exemplo, a dor do possível tornado inviável pode valer também para os encontros que nunca teremos, inclusive aqueles que eram de antemão totalmente improváveis e absurdos. Como, vamos supor, um encontro com a Rainha da Inglaterra.

Sim, a Rainha da Inglaterra. Provavelmente ela apareceu aqui porque mencionei a República Tcheca, e é de um poeta tcheco o belíssimo poema chamado Um Guarda Chuva de Picadilly (Jaroslav Seifert), que trata de um eventual flerte do leitor com a monarca britânica. Ele foi traduzido pela poeta brasileira Marília Garcia, e pode ser encontrado aqui. Aliás, bem a propósito, a Marília é uma poeta brasileira e (salvo engano) sagitariana que escreveu livros como Engano Geográfico e Paris Não Tem Centro, e cuja obra tem como marca o trânsito cosmopolita entre línguas e lugares.

Seifert menciona o tal possível encontro do leitor com a Rainha da Inglaterra na primeira estrofe do poema. É claro que esse encontro não vai acontecer; ele não é totalmente impossível, está dentro dos limites do concebível (trata-se da Rainha da Inglaterra, e não de um elfo das terras médias), mas, convenhamos, não é algo que eu ou você vamos experimentar nessa vida. Na sequência, portanto, o poeta oferece razões sábias e maduras para aceitarmos essa impossibilidade, e menciona um guarda-chuva que o filho lhe trouxe uma vez de Picadilly em Londres, para a partir daí falar de seu próprio envelhecimento, e das tantas coisas que foram se tornando impossíveis como tempo. No final, o encontro malogrado com a rainha torna-se um símbolo de todas essas coisas que, ele agora precisa aceitar, tornaram-se igualmente improváveis em sua vida (mesmo as mais simples e prosaicas, como flertar com uma mulher).

A juventude, enfim, é a parte verdadeiramente sagitariana da vida porque nela tudo é possível. Ou melhor, porque nela, tudo o que é possível de um modo geral, é possível ainda individualmente para nós. Com o tempo, mesmo aquilo que não contraria nenhum tipo de lei da física pode tornar-se uma miragem: as sete línguas que iríamos apender (incluindo alemão e russo) tornam-se um inglês instrumental que dá para o gasto, e já nem inventamos desculpas para adiar aquele curso de francês, ele simplesmente não aconteceu. No entanto, se tivermos sorte, nunca perdemos a capacidade de nos deslumbrar com pedacinhos do mundão desconhecido que chegam até nós, como bandeiras de países distantes, palavras de línguas estranhas, ícones de cidades incríveis. Se tivermos sorte, permaneceremos um pouco sagitarianos.

Porque é igualmente sagitariana aquela parte de nós que – não importa a idade – vai se inscrever no curso de alemão, vai comprar a passagem para Istambul, e vai marcar um encontro no Hype Park com uma senhora inglesa que conhecemos pela internet. Por que não? O mundo de Sagitário comporta essas coisas, e a literatura nos conta também que essas coisas nunca deixarão de provocar um frêmito de excitação, para aqueles que se mantiverem encantados com o mundo e suas possibilidades. Que algumas coisas estrangeiras permaneçam estrangeiras é então fundamental para que a gente tenha com o quê se entusiasmar, em qualquer época, em quaisquer circunstâncias. Em um paradoxo apenas aparente, é sagitariana essa necessidade que temos de nunca realmente conhecer o mundo inteiro – para que possamos continuar a imaginá-lo, enquanto estivermos a caminho, durante nossas viagens para lá.

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