gêmeos

O amigo geminiano

Quando estava com uns oito ou nove anos, eu tinha um amigo que era bastante malcriado com a mãe. Eu gostava de ir na casa dele sobretudo por isso – porque ele era malcriado com a mãe. Mas não do jeito que vocês estão pensando. Os dois pareciam ter uma espécie de pacto, em que ele fazia as vezes do filho exasperante, ela ficava no papel da mãe exasperada, e eu assistia a tudo como se fosse uma pantomima envolvendo gritos e fugas e chinelos sem grande risco de desandar para a catástrofe. Era engraçado, embora com frequência eu tivesse que segurar o riso. E certamente devia haver algum limite que ele não podia cruzar para que as coisas permanecessem assim. Seu nome era Emiliano.

O Emiliano era geminiano. Bom, não sei se era mesmo, mas passou a ser a partir do momento que que resolvi escrever esse texto. Não simplesmente porque ele era travesso, mas porque ele era bom nisso: era travesso com estilo, era levado com arte. Não se tratava apenas de rebeldia; dava para notar que ele estava testando os limites da mãe e do mundo, verificando até onde podia ir nas diabruras sem ficar de castigo, arriscando-se em pequenos desvios e contravenções experimentais, que me causavam a fascinada excitação de quem vê um amigo cruzando um círculo de fogo e saindo ileso do outro lado.

Ou melhor, pensando agora: ele era um pouco como um atacante ligeiro que faz firulas com a bola sob o risco de tomar uma bordoada. Pois há sempre um limite que atacante habilidoso não deve ultrapassar diante de um zagueiro casca grossa. E o Emiliano – assim como os geminianos – não era nem zagueiro casca grossa, nem lateral elegante (Libra), nem volante de contenção (Touro), nem meia armador criativo de lançamentos longos (Sagitário). Ele era aquele ponta que finta para o lado só para ver se consegue se safar sem uma rasteira. O atacante irreverente que tenta sempre um drible a mais só por amor à arte de fazer troça dos marcadores. O Edilson Capetinha do zodíaco.

Por falar em capetinha, uma das cenas mais deliciosas da mitologia grega é aquela em que Hermes, ou Mercúrio, o regente de Gêmeos, prega uma peça em seu irmão mais velho, Apolo, e é descoberto. Ele nega até o fim: “Como assim, Apolo, vê se pode, nasci não faz nem dois dias, tudo que quero nessa vida é dormir e tomar banho quentinho e beber o leitinho da mamãe”. Seu discurso segue nessa mesma toada inocente e petulante até chegar em Zeus, chamado para arbitrar a disputa dos filhos, e o próprio Zeus não consegue deixar de rir da audácia do fedelho. Hermes, é claro, acaba se safando.

Em resumo, Gêmeos gosta de cutucar a onça com vara curta, e improvisa uma graça para desarmar a onça se ela ficar enfurecida demais. É claro que isso pode acontecer de diversas maneiras. Gêmeos com ascendente em Aquário, por exemplo, pode usar esse talento em favor de causas coletivas ou humanitárias, cutucando os padrões tradicionais de conduta; Gêmeos com Escorpião pode testar os limites da exposição em público daquilo que é normalmente ocultado na vida social, em uma interessante mistura de leveza e intensidade. Há também os geminianos que são cem por cento recatados pessoalmente, sem nenhum indício do moleque travesso da lenda, mas estão sempre ameaçando fechar a internet por conta dos comentários que fazem e memes que compartilham. “Postei e saí correndo” é uma frase tipicamente geminiana. 

“Publiquei e saí correndo” também existe, em se tratando de livros, poemas, canções; é só uma versão um pouco mais elaborada e mais antiga do mesmo procedimento. A propósito, tenho outro amigo, geminiano e escritor, que escreveu um livro e me deu para ler antes de publicar. Ele queria minha apreciação, mas queria também saber o que eu achava de algumas passagens em que ele poderia ter sido impertinente ou ofensivo ou sincero além da conta, inclusive na auto-exposição, ou referindo-se a situações e pessoas que podiam ser facilmente identificadas. O livro inteiro era um pouco sobre essa questão da sinceridade, até por ser em formato de diário, então ele precisava correr alguns riscos nesse sentido. Mas demonstrou preocupação com uma eventual reação mais agressiva, a bordoada de um zagueiro bravo, de um crítico zeloso ou de um leitor sensível.

Gêmeos pedir a Capricórnio (no caso, eu) esse tipo de juízo é uma situação arquetípica. Afinal, Gêmeos confia em Capricórnio para lhe dizer quais as barreiras da moral e dos bons costumes que ele não deve ultrapassar. Porque aí ele vai lá e faz, nem que seja pra ver o que acontece. Capricórnio, naturalmente, ficou escandalizado com algumas passagens do livro, e disse a Gêmeos que de jeito nenhum ele devia publicar aquilo revelando aquilo outro sobre aquelas pessoas, nem sobre ele mesmo, porque vai saber como elas iam se sentir, como ele ia se sentir no futuro, e o que se passa na cabeça das pessoas e aí por diante. Mas, secretamente, eu queria mesmo era que ele publicasse tudo para ver no que dava, ver até onde se podia ir. Igualzinho acontecia lá na casa do Emiliano.

Acabou que o livro foi publicado na versão que li, e meu amigo se safou sem nenhuma chinelada, com boas críticas inclusive, até porque trata-se de um romance com estilo e inteligência de sobra para distrair até as onças mais bravas (se você ficou curioso, e se você for de Gêmeos você ficou, é esse livro aqui). Mas era previsível que ele se safasse; conheço esse geminiano há bastante tempo; tem uns vinte anos que ele é meu novo Emiliano. Embora seja uma pessoa séria, prudente e até comedida em público, é também aquele que, numa mesa de bar entre amigos, faz os comentários mais agudos, de um humor no limite do aceitável, mesmo para ambientes descontraídos, e mesmo quando o motivo da piada é ele mesmo (acontece com frequência). Coisas em que eu até poderia pensar com uns dias de atraso, e jamais chegaria a dizer, por ficar com medo de serem malcriadas demais, ou auto-depreciativas demais, afetando a sensibilidade deste ou daquele ouvinte, ou minha imagem perante a audiência.

Ou seja: perco a piada para não perder amigos, sobretudo quando os amigos são valiosos e as piadas não são lá essas coisas. Mas há indivíduos para ao quais esse dilema não existe. Ganham amigos através das piadas, inclusive as piadas ruins, e sobretudo com as piadas sobre si mesmos. Às vezes as duas coisas (a piada ruim e piada sobre si mesmo) andam juntas em uma fusão performática: o trocadilho infame, por exemplo, entra nessa categoria, pois o engraçado não é exatamente o trocadilho, mas o fato de que alguém chegou a pensá-lo e dizê-lo. Por isso é uma arte geminiana, e assim entendemos que a tentativa de fazer graça tem valor por si própria, independente de seus resultados, ou ainda mais quando eles são ridículos ou irrisórios.

Afinal, o trocadilho infame, de tão infame, é uma forma de ser notado. E querer ser notado pode muito bem ser uma forma de modéstia, pelo valor que atribui à atenção dos outros sobre nossos atos. É aqui que eu queria chegar. Gêmeos precisa de atenção por razões mais complexas ou profundas do que a mera vaidade. É claro que a experimentação e a curiosidade em relação ao ambiente imediato têm valor próprio, e podem ser praticadas como um fim em si mesmas; mas quando os objetos começam a ser derrubados das prateleiras, às vezes não é só para descobrir que barulho eles fazem ao se quebrar. O engraçado, aí, é como a criança geminiana que tiver feito isso para receber uma repreensão vai acatá-la com uma face ligeiramente triunfante. Ao mesmo tempo, não perderá nunca certo ar de desamparo por trás da malícia. Seu sorriso será sempre um sorriso meio sem jeito, encantadoramente sem jeito, ao mesmo tempo feliz e constrangido por ter conseguido o que queria.

Gêmeos precisa de atenção porque é assim que aprendeu a receber amor. O geminiano arquetípico é o irmão mais novo de uma família que conta com Hércules, Apolo, Atena e Dionísio, entre outros; se ele não fizesse uma travessura de vez em quando, Zeus poderia mal notar sua existência. Hermes sente que precisa entreter para adquirir valor, e pode fazer isso através da pena, da lira ou da mera traquinagem. A propósito, eu esqueci de incluir Better Call Saul na parte sobre Gêmeos do meu post sobre signos e séries, e deveria ter incluído, não porque se trata de uma peça sobre um advogado vigarista e trambiqueiro (não só por isso), mas porque é sobre um irmão mais novo tentando conquistar a admiração de um irmão mais velho.

Então é assim: Gêmeos pode ser tão carente quanto Câncer, mas onde um apela para o choro, o outro arrisca uma careta. O Emiliano, claro, fazia aquelas traquinagens todas porque estava querendo o amor e buscando a atenção da mãe. Dava certo, eles formavam uma boa dupla. Há ainda crianças que, quando começam a “gostar” de outras crianças, reagem fazendo todo tipo de maldades inofensivas ou ofensas elogiosas, que nunca deixam de ser uma engraçada forma de reverência. Conheço casais que passaram a vida praticando uma saudável zombaria mútua, um refinado sarcasmo, no qual está implicado um profundo respeito. É claro que também aqui há um limite que não deve ser ultrapassado, mas é exatamente porque esse limite existe que existe o jogo, de tal modo que podemos correr riscos pontuais dentro de suas regras, sem colocar sob ameaça a relação como um todo.

Quanto a amigos em geral, e amigos geminianos em particular, me contento em supor que o Emiliano também queria minha atenção, na qualidade de plateia de suas estripulias. No final das contas, é para o público na arquibancada que o driblador faz suas graças. Isso quer dizer que ele respeita o público, assim como o humorista respeita sua audiência, mesmo quando arrisca um comentário que pode suscitar um “alto lá!”. Afinal, não faltam escritores capazes de entender a famosa frase de Gabriel García Márquez: “Escrevo para ser querido pelos meus amigos”. Mas tampouco faltam aqueles que vão atiçar a amizade experimentando seus limites com a sátira e a ironia. Talvez as amizades que comportem uma boa dose de humor sejam inclusive as mais duradouras. Vai ver que é por isso que até hoje eu lembro do Emiliano.

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