astros

As separações segundo Ceres

Eu estava com meu filho de cinco meses quando aconteceu. Ele me deu o sorriso. Não um sorriso, não qualquer sorriso, mas o sorriso: inquestionável, arrasador, fulminante, destituído das ambiguidades desse mundo, amplo e aberto como a própria vida, irradiando o mais puro prazer sem dentes e a mais pura alegria sem propósitos, como se a existência fosse motivo de excitação suficiente para o contorcer de todos os músculos da face em uma inesperadamente harmônica profusão de luz em forma de lábios arqueados e olhos vívidos. Bebês são bons nessas coisas. Na hora, pensei: ih, tô apaixonado. No entanto, pensei também: que difícil, isso.

Bom, não sei se pensei essas coisas. Devo ter sentido algo assim, e ao mesmo tempo algo tão difícil de explicar que a explicação mais fácil fica sendo tão correta quanto as outras. Mas, se não é incomum a gente sentir alegria e dor ao mesmo tempo, a pontada de lamento atravessando essa cena doméstica foi meio inesperada. Mesmo para mim, que sou um capricorniano dado a ambivalências e melancolias, essa singular mistura de sentimentos saiu não sei de onde.

Fui então olhar quais eram os trânsitos astrológicos mais significativos naquele momento, para verificar que símbolos do horóscopo estavam interagindo entre si, e se eles me diziam algo a respeito. Em uma primeira checada, nada. Mas, olhando outra vez, percebi que, ao atentar para os planetas canônicos principais, estava deixando passar o corpo celeste que naquela situação específica era o mais importante.

Estou falando de Ceres, que, sim, estava incrivelmente ativa no céu do dia e em relação ao meu mapa. Havia acabado de ingressar em Capricórnio, após um longo período de idas e vindas em Sagitário que durou mais da metade do ano passado. Realizava um aspecto difícil e exato com Quíron naquela manhã mesmo, o que tornava potencialmente dolorosas as experiências relacionadas a filhos para todos nós. Mas por si só Ceres já carrega certa dose de tristeza, ainda que não necessariamente em assuntos relacionados à prole, e não de maneira irreversível ou extrema – pois ela diz a respeito ao possível equilíbrio que podemos alcançar nos ritmos pendulares que são a regra em boa parte de nossas experiências.

Ceres foi o nome que os romanos deram para Deméter, deusa da agricultura e das colheitas na mitologia grega. Já falei um pouco mais a esse respeito em uma brincadeira que fiz com os taurinos (nesse post aqui). Ela relaciona-se com Touro não apenas através da questão da alimentação, mas também através dos ciclos produtivos e reprodutivos, que implicam uma determinada relação com o trabalho. Naquele mesmo dia, por exemplo, li uma postagem de uma amiga escritora e capricorniana falando de como lida com os períodos “improdutivos” entre um livro e outro, alternando entre o medo de ter perdido a mão e a reparadora confiança de que lá na frente a mão vai voltar.

Ela volta. Pelo menos no mito ela volta. Porque Ceres/Deméter é justamente sobre a perda e o retorno cíclico de algo ou alguém. Mãe de Perséfone, ela teve a filha raptada por Hades/Plutão e acabou conseguindo um acordo para que a filha passasse metade do ano com ela e metade do ano no submundo. Ceres é sobre a regularidade das estações do ano, sobre a relativa previsibilidade com que perdemos e renovamos nossas energias e talentos, mas é também sobre as concessões que a gente faz para garantir esses retornos. Pense nessas concessões como uma espécie de repouso. Se deixarmos o solo quieto por uns tempos, a primavera há de florescer na terra descansada.

Eu sei, eu sei: falando assim é tudo muito bonito. Na vida mesmo tem umas horas que esses ciclos e suas rupturas (ainda que previsíveis, ainda eu reversíveis) doem demais, e doem com regularidade. Eu me lembro de quando eu e mãe do meu primeiro filho nos separamos. O fim de um casamento não costuma ter nada de rotineiro, e conosco não foi diferente; Plutão, Netuno e Urano estavam envolvidos; transformação, desilusão, instabilidade nos avassalaram. A princípio foi o caos, inclusive em termos práticos, pois tive que me mudar de cidade por uns meses, e meu convívio com ele ficou condicionado por muitos imprevistos. Até que consegui um emprego no Rio, me mudei de volta para cá, e ele passou a estar comigo em intervalos regulares, que com frequência terminavam aos domingos.

Aí as coisas entraram nos eixos novamente. Mas aqueles domingos podiam ser difíceis exatamente porque integravam o ciclo normal das coisas. Depois que eu o deixava na casa da mãe e voltava para o meu apartamento, era às vezes tomado por uma sensação de falta que acontecia sempre do mesmo jeito, e era ao mesmo tempo inesperada. Não havia outros motivos de angústia; como na lenda, eu e a mãe dele nos entendemos e chegamos a um bom arranjo; ele parecia feliz com as duas casas (sim, Perséfone acabou gostando se tornar a rainha dos infernos, pelo menos durante parte do ano). Mas ficava a percepção de que mesmo os melhores acordos reparadores do mundo vão estar sempre condicionados às perdas irreparáveis que os antecederam. Uma vez raptada, Perséfone nunca volta a ser o que era. Uma perda não se torna fácil pelo simples fato de se tornar repetitiva ou cotidiana.

Não parei para olhar os trânsitos que vivi nessa época, mas às vezes a astrologia consegue ser incrivelmente literal, e aspectos de Ceres podem indicar questões envolvendo a guarda de filhos. Ou então envolve as brigas, separações e acordos dos nossos pais. Uma amiga virginiana postou esses dias sobre o filho adolescente que está para se mudar de cidade; Ceres está transitando justamente a casa que para Virgem se refere mais especificamente aos filhos mesmo, e em especial aos filhos adolescentes. Porém, às vezes as coisas são mais sutis, e envolvem o aprendizado do convívio com algum outro tipo de ciclo – como quando, depois de um início animador de um relacionamento, a gente percebe o entusiasmo refluindo, como se estivesse indo embora mesmo. Se for um relacionamento feito pra durar, isso fatalmente vai acontecer. Depois ele volta, amadurecido e mais constante. É Ceres que dita os ritmos a partir daí.

Agora, meu filho mais velho está fazendo os vestibulares, está se despedindo de muitas coisas, considerando até a possibilidade de estudar em outras cidades. Isso nessa idade é parte da curso regular da vida, e ainda assim dá uma sensação mais aguda de que o tempo passa e os ciclos continuam sua marcha ordinária tão inclemente. Na foto aí de cima, nós dois estamos imantados em um quadro de metal daquele apartamento, em meio a outras lembranças, foto com fotos tornada memória das memórias daquele tempo. E, de novo, estou diante de uma situação de chegadas e partidas a princípio metafóricas mas possivelmente bastante reais num futuro próximo. Acho que, por mais destituído de ambiguidades que tenha sido o sorriso do Gabi, minha percepção dele foi atravessada pelo fato de que pouco antes eu havia falado sobre esses assuntos com o Tiago.

Parece-me então que as grandes rupturas e transformações podem criar a sensação de que estamos à mercê de forças além do nosso alcance, mas é nas perdas mais cíclicas, rotineiras ou previsíveis, que se aloja o verdadeiro mistério. Quando o trágico é evidente, a gente pode recorrer a filosofias e metafísicas para dar um sentido ao inexplicável; quando nem se nota, contamos apenas com nossos próprios recursos para engolir o choro e seguir adiante.

Enfim, tem certas coisas com que a gente não se acostuma nunca, e não tem dia em que a gente não perca algo de muito valioso. Por outro lado, isso quer dizer também que que todos os dias recuperamos algo muito importante, e todo amanhecer é o renascimento de um sol que morreu para boa parte do mundo horas antes. Só que, para que isso aconteça, é preciso que a gente o deixe ir embora, que renuncie à guarda do Sol e aceite que ele tem outras coisas para fazer na vida. Ou, dito de um modo não menos verdadeiro: para que isso aconteça, é preciso que a gente se permita descansar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.