astros

As lições de Hermes

[Loki, em um manuscrito islandês do Sec. XVIII]

Mercúrio retrógrado é que nem crase: não foi feito para humilhar ninguém, mas ajuda saber umas regrinhas básicas para quando a ocasião pedir. Esqueci uma dessas regras em um episódio dessa temporada de Mercúrio retrógrado em Escorpião que está terminando agora, e vou fazer um breve registro aqui, que é para não fazer igual mais.

Uma amiga me ligou dizendo que estava passando dias difíceis. Entre outros motivos, havia o resultado de um exame que estava para sair. Nessas horas, sei que estou sendo consultado como astrólogo também, e não vejo problema em abrir o mapa da pessoa e ver se há algo de evidente em seus trânsitos que eu possa comentar sem uma consulta formal. Havia. Um aspecto de Netuno em trânsito com o Mercúrio do mapa natal indicava possibilidade de inquietação e ansiedade referente a diagnósticos, e que provavelmente ela estaria com uma visão distorcida da realidade nesse aspecto. Em resumo, ia ficar tudo bem.  

É o tipo de situação em que a tecnologia pode ser útil; em tese, bastaria um áudio no aplicativo de mensagens para que eu pudesse tranquilizá-la um pouco. Mas foi aí que eu errei. Pois, como se não bastasse aquele aspecto, Mercúrio retrógrado estava envolvido na história também, e a possibilidade de erros de comunicação era imensa. Resultou que mandei o áudio sem o devido cuidado que a situação exigia. Misturei o assunto mais imediato com outros, de médio e longo prazo. Acabei fazendo a informação realmente importante complicar-se num emaranhado de outros prognósticos. No dia seguinte, quando escutei a resposta, percebi que ela estava ainda mais apavorada.

Não tive o devido cuidado que seria necessário com uma pessoa que – como eu bem sabia, pela análise de seu mapa – estava propensa naquele momento a ver as coisas de um modo equivocado. O equívoco maior, portanto, foi sem dúvida o meu. Mas, além disso, ignorei Mercúrio retrógrado e sua capacidade de pregar este tipo de peça na gente. Curiosamente, meu vaticínio acabou se concretizando também por obra de minhas próprias palavras, na medida em que elas reforçaram as distorções que estavam querendo assinalar.  

Moral da história: toda consulta a um astrólogo, seja formal, informal, pontual ou ampla, implica o momento em que as perguntas são feitas e respondidas. Isso nos ajuda inclusive a lembrar que a astrologia, da maneira como a entendo pelo menos, não é um pseudociência porque não pretende ser uma ciência. Ela presume uma identidade inconsciente de sujeito e objeto e a imersão de ambos em um mesmo contexto, em que não há um observador externo capaz falar de um ponto de vista estável, mas um constante fluxo de relações que se transfiguram a todo instante.

Esse é o universo da relatividade e da complexidade, que não por acaso remete a algumas experiências do mundo antigo e do mundo oriental (e do nórdico, do africano, do ameríndio), como já foi observado com frequência na literatura científica e antropológica. Do mesmo modo, o grande desafio da experiência da astrologia não é muito diferente daquele que enfrentam em seu cotidiano os indivíduos imersos em culturas politeístas. Há que se prestar reverência a diversos deuses, muitas vezes contraditórios e caprichosos, e cujos altares se erguem em uma intrincada e labiríntica rede de templos interligados. No caso, Mercúrio retrógrado é um deles.

Mas o que ele pede não é muito. Durante cerca de três semanas, três vezes ao ano, temos que ter maior cuidado em nossas comunicações, ter paciência com pequenos entraves, ter atenção com minúcias e detalhes. Aquilo que foi negligenciado vai estragar, vai exigir reparos, vai exigir conserto – e isso vale tanto para aparelhos eletrodomésticos quanto para relações humanas. Mercúrio retrógrado, portanto, é sempre também uma oportunidade de restituir uma tessitura mais firme à esgarçada rede de deuses abandonados por nossas preces.

Porém nada disso exige que a gente se ajoelhe ou acenda velas aos pés de imagens. Nada contra velas e imagens, muito pelo contrário. Mas é bom enfatizar que agora nossos atos cotidianos e nossas atenções mútuas são mais do que suficientes para respeitarmos todas as divindades, Mercúrio retrógrado inclusive. Aliás, talvez mais do que nenhum outro, Mercúrio é um deus que fica satisfeito com essas miudezas do dia a dia. Através do cuidado com as miudezas do dia a dia, enfim, nós só temos a agradecê-lo com/por isso.

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