touro

Touro é um mistério

Tarsila do Amaral | Paisagem com Touro (1925)

“La casa de Astérion” é um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges em que o Minotauro faz o relato de seus dias no interior do labirinto na ilha de Creta, enquanto aguarda a chegada de um herói que o virá redimir. Ele fala de suas rotinas, afazeres, apetites; é honesto, afável, simplório até; está longe da figura do monstro devorador de donzelas que seria assassinado por Teseu. No entanto, terminada a história, sentimos que algo de sua experiência nos escapou, no mesmo instante em que foi revelado. De modo que, por mais generoso que tenha sido o relato, o Minotauro permanece um mistério.

Acho que algo semelhante pode ser dito a respeito de Touro. Por um lado, é um signo que aceita simplificações, e tem um aspecto pragmático, que não reclama de ser reduzido aos nossos assuntos mais palpáveis: comida, sexo, dinheiro. A besta mitológica que está por trás do arquétipo ganha assim ares bastante terrenos. No entanto, uma vez alcançada a matéria bruta de nossos apetites mundanos, descobrimos que eles mesmos contêm algo de misterioso, ou melhor: que eles mesmos são misteriosos. Não sabemos de onde vem essa vontade de comer, de foder, de viver. Nem precisamos saber, é verdade, mas isso não torna o assunto menos enigmático. 

Todo signo sabe de algo que os outros não sabem. Mas acho que Touro tem a peculiaridade de saber algo muito simples que ele próprio não entende direito, ou talvez não possa verbalizar, por ser algo que existia antes do verbo. Exatamente por isso, é silenciosamente obstinado: não saberia explicar porque faz o que faz, mas isso nem de longe é motivo para deixar de fazer. Talvez você já tenha estado diante de um taurino que tomou uma decisão, e talvez você tenha considerado essa decisão um equívoco, e talvez tenha tentado dissuadi-lo de agir assim. Lembra de como o taurino parecia até estar te escutando enquanto você falava, e depois fez o que tinha decidido fazer de qualquer jeito? Pois é.

Enquanto a gente fala, Touro aproveita o tempo para se entreter com as sensações que o motivam a agir, e que são motivos mais fortes do que quaisquer argumentos. Enquanto a gente argumenta, ele entra em contato com o fato de que certas coisas simplesmente precisam ter andamento, porque as forças primitivas que o movem assim decidiram. O que a gente vê em seu rosto é só a superfície serena de convicções tão profundas quanto a certeza de que a gente precisa comer quando está com fome, e dormir quando está com sono. Touro é uma espécie de energia, de élan vital, de força motriz do universo. No entanto, por mais que isso possa parecer algo de outro mundo, nenhum outro signo é mais dessa Terra.  

Touro é um mistério, portanto, que se manifesta naquilo que é ordinário (o extraordinário é do âmbito de Escorpião, seu oposto complementar). De modo semelhante, os chamados mistérios medievais eram encenações simples e populares em que as imagens mais elevadas do cristianismo ganhavam corpo por intermédio de companhias teatrais de artesãos e camponeses, que as adaptavam de acordo com suas realidades materiais e cotidianas. Aliás, a cena da Natividade, muito comum nessas quermesses, com seus pacíficos boizinhos e bezerros rodeando o milagroso rebento de Maria, é a cena mais prosaica da história de Cristo – e é uma cena muito taurina.

Já os festivais gregos intitulados Misteria eram dedicados a Deméter, uma versão humanizada de Gaia, a mãe Terra, e mais amplamente àquilo que Goethe chamou que “segredo público sagrado”, isto é, a natureza. Pois a natureza é de conhecimento comum e está disponível ao olhar de todos; porém, ela parece guardar um segredo que todos nós sentimos des-conhecer, como se um finíssimo véu a cobrisse, mesmo diante de suas paisagens e criaturas mais vulgares, ou sobretudo diante delas. O culto ao segredo que existe nos ciclos mais previsíveis do mundo natural parece existir desde que existe a humanidade, ou pelo menos desde a taurinidade existe. Touro é a expressão de verdades muito básicas – e ao mesmo tempo seu encobrimento.

Conheço taurinos que reagiriam com certo fastio diante dessas digressões: não complica, a gente é simples mesmo, não estamos escondendo nada. Sim, eu sei: comer, foder, viver. Maravilha. Não disse que não existe simplicidade aí. Mas se, por um lado, o simples se opõe ao complicado, por outro não exclui o maravilhoso. Um pouco como na história do discípulo que perguntou ao mestre qual seria o sentido da vida. O mestre ergueu os braços, um pouco escandalizado com a pergunta, e disse: “Mas eu não estou te escondendo nada!”. O rapaz ficou sem entender, e deixou pra lá. Dias depois, ele e o mestre estavam caminhando no campo. Céu azul, vento fresco, barulho de água. O rapaz comentou como o dia estava bonito e agradável. O mestre: “Viu como não estou te escondendo nada?”

É possível maravilhar-se com as coisas mais imediatas e terrenas. Para todos os efeitos, Buda era taurino, a propósito. O aniversário do príncipe Sidarta Gautama é comemorado no fim de abril. Que ele tenha aquele jeitão satisfeito e rechonchudo talvez não seja uma mera coincidência, afinal. Mas, sério: aquele sorriso, o sorriso do Buda, aquele sorriso satisfeito do Buda, aquele sorriso rechonchudo do Buda, é disso que estou falando no final das contas. Nunca me pareceu coisa de quem evadiu do plano físico para algum tipo de dimensão espiritual impalpável com algum nome exótico em japonês. Não: o Buda ri daquele jeito porque está ali em seu corpo e só ali em seu corpo e em nenhum outro lugar. Parece que acabou de limpar um belíssimo prato de arroz. E no entanto, apesar disso, ou por causa disso mesmo, seu sorriso permanece um enigma.

Isso me faz lembrar a história de um monge que, quando perguntado sobre o que é o Zen, respondeu: “Quando estamos sentados, estamos sentados. Quando estamos em pé, estamos em pé. Quando estamos comendo, estamos comendo”. Percebam: não tem nada de muito complicado para se interpretar nessas frases. Elas não estão aludindo a algum tipo de segredo inacessível para nós. Elas são o que são. E no entanto, não deixam de soar um pouco inesperadas. É mais ou menos como se perguntássemos aos céus qual é a realidade fundamental do cosmos, e um boi ao nosso lado respondesse com um mugido. Seria uma resposta adequada, simples, direta, creio que bastante correta até. E ainda assim nos deixaria um pouco perplexos, e ainda assim ficaríamos desconcertados.

Em resumo, Touro é um mugido. E eu não acredito que escrevi um texto inteiro para chegar a uma conclusão assim, quem sabe até levemente ofensiva. Talvez eu mesmo esteja tentando criar algum tipo de desconcerto, e imitar o tom de benevolente sarcasmo que costumo perceber por trás do sorriso tauríneo, assim como percebo no sorriso do Buda – um sarcasmo tão sutil que me parece vir de profundezas anteriores ao verbo e ao próprio sorriso, e que me causa uma fascinada perplexidade. Não, eu nunca vou conseguir imitar esse sorriso. Mas me contento bastante em ser aquele que o vê aqui do lado de fora. Acho que o sorriso de Touro é uma espécie de segredo público sagrado. Assim como a natureza. E comer, foder, viver. Enfim, todas essas coisas que são comuns até não poder mais – e que, por outro lado, talvez sejam exatamente as coisas que a gente vai encontrar como solução para o enigma da esfinge, após todos nossos esforços para chegar ao centro do labirinto.

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