aquário, câncer

Inventar de novo o amor


Eu estava ouvindo esses dias a versão que meu amigo André Gardel gravou em seu último álbum para “Me and Bobby McGee”, canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin. O Gardel é um desses librianos cariocas e descolados que a gente que é capiau do mato lá de Minas gosta de chamar de “meu amigo” em público – porque, né, dá uma incrementada na imagem. Ele costumava escrever crônicas literárias sobre futebol em que havia um personagem recorrente identificado como “o atleticano melancólico”, inspirado em minha humilíssima pessoa. Ele poderia me chamar também de “capricorniano melancólico”, ou de “capricorniano mineiro melancólico”, ou de “capricorniano mineiro atleticano melancólico”, dá mais ou menos no mesmo. Mas eu gostava do título, então nada mais justo que retribua a gentileza. 

A gravação da faixa é elegante, alto-astral, cheia de gingado (libriana, carioca, descolada). Tem a participação de uma vocalista, Samantha Jones, que também nos oferece um bem dosado tom de malemolência. Mas, talvez por isso mesmo, fiquei pensando em como a situação descrita na letra é dolorosa, e em como ela tem a ver com o par Câncer/Aquário no zodíaco. É difícil encontrar um motivo para falar desses dois num mesmo texto: Câncer diz respeito ao passado, ao apego, ao aconchego, às sensações de proximidade e pertencimento, e Aquário projeta-se para o futuro, é desapegado, livre, distante. A princípio as duas coisas andam separadas, ou pelo menos em descompasso. Mas quando a gente encontra uma canção que diz, “eu daria meu futuro / por um dia no passado [and I’d give all my tomorrows / for a single yesterday]”, a gente sabe que se deparou com as dimensões canceriana e aquariana da vida nos mesmos versos.

O fato de estarem juntos não quer dizer que estejam em sintonia. Há uma dissonância na ideia de que possamos ser apegados à liberdade. Faltou dizer que liberdade é o tema da faixa, que narra uma viagem musical de dois amantes para arremeter com o famoso refrão: “Freedom is just another word for nothing left to lose…”, a liberdade é só outra palavra para não ter nada a perder, e por aí vai. O detalhe é que canção inteira é também sobre perda, o sentimento da perda, e portanto sobre o apego àquilo que foi perdido. Todos os eventos que ela menciona estão situados em um passado distante, e não há fórmula invocatória capaz de trazê-los para o presente, a não ser sob a forma de ausências em geral e de uma pungente saudade em particular. Nenhuma barganha, e nem todos os amanhãs do mundo, vão trazer aquele momento com o Bobby de volta.

Mas é interessante como essa balada pungente e carente fez sucesso na forma de um blues roqueiro, no timbre singular de Janis Joplin. O ascendente de Janis era em Aquário, e isso deve ter alguma coisa a ver com o fato de que vamos sempre lembrar da imagem de hippie diferentona que a consagrou, com aquele jeitão meio destrambelhado de quem está na estrada sem lar e sem banho faz tempo (deve ter alguma coisa a ver também com o fato de ter se tornado um dos mais sintéticos ícones de Woodstock – segundo o cartaz, “an aquarian exposition”). Mas a Lua de Janis era em Câncer. Então, também não deve ser por acaso que sentimos lá no fundo de sua voz um blues inconsolável, de quem foi arrancado do lugar a que pertencia para ter que se virar no grande mundo.

Aliás, conheço uma outra gravação da faixa em que um de seus compositores, Kris Kristofferson, a anuncia em um show assim: “Essa é uma canção country, e é assim que ela deve ser tocada, como uma canção country”. Segue-se uma execução convencional, bonita e previsível, mais próxima do que aguardamos de uma balada sertaneja. Não conheço o histórico da polêmica ou desavença que isso parece indicar, mas esse modo meio autoritário ditar as regras para a execução de uma obra tem não apenas um sabor virginiano como também um elemento de Câncer, em seu apego à tradição de um gênero musical. Sei lá, talvez Kristofferson fosse canceriano – e a música sertaneja decididamente é, não apenas pelos temas da vida na terra natal e no campo (nesse sentido é igualmente taurina), como também pelos chororôs e pelos Xororós que a povoam, pelos chamegos que reclama, pelas dores que lamenta.

Em resumo, se me permitem a esquematização: o rock é aquariano, o country é de Câncer. Mas o rock poucas vezes se desprendeu de suas raízes no blues (os Rolling Stones, essas pedras desapegadas porém às vezes tão lamentosas, estão aí para nos mostrar isso), assim como o country e o sertanejo encontraram o futuro não somente através da guitarra elétrica, como também na frequente liberdade em relação a convenções musicais desgastadas, na experimentação com outros gêneros, no contraste entre seus fundamentos e a inserção de algum elemento totalmente particular – como a voz de Janis Joplin.

De modo que Aquário e Câncer podem sim conviver, e serão sempre mutuamente enriquecidos pela experiência de sua intersecção. Aquário, quando consegue introduzir o afeto no seu comportamento, torna-se irresistível; Câncer, quando se arrisca na inovação, é capaz de inventar de novo o amor.  Claro que não é fácil, claro que há conflito nessa relação, mas nem sempre como a gente imagina. Conheço mães que, se não são de Câncer, são do tipo canceriano, e se desesperam com a liberdade que beira a indiferença de seus filhos aquarianos. Mas conheço também mães do tipo aquariano, que estão longe de estimular o apego em seus filhos, e querem mais é que eles criem asas, ou então deixem o cabelo crescer, montem uma banda de rock e saiam mutcholokos por aí.

Há, por último, a questão dos vínculos humanos a que ambos dizem respeito. Câncer rege a família, e Aquário as relações em rede, os grupos impessoais, em última análise nosso vínculo com a Humanidade. Aqui mais uma vez dá pra ver como as relações Câncer/Aquário podem sobrepor-se e variar. O indivíduo pode tanto entender que a Humanidade é sua família, quanto sentir-se diferente e deslocado onde deveria ter um senso de pertencimento. Interessante notar também que a Era de Aquário foi saudada pela geração hippie como um momento de libertação em que os indivíduos humanos iriam reencontrar uma conexão entre si, independente dos vínculos familiares e sociais. Muitos previram que a essa altura estaríamos interconectados pela telepatia. Em certo sentido acertaram, porque em linhas gerais estavam prevendo a internet.

Foi um revertério inesperado que a internet tenha afinal servido para reforçar preconceitos e bairrismos, através – por exemplo – do grupo da família no Whatsapp. Mas Câncer não é o único arquétipo responsável pelo mau uso da rede: Gêmeos contribui com a mentira, Leão com a vaidade, Escorpião com a deep web, e o próprio arquétipo aquariano não é tão neutro quanto gostaria de parecer. Do mesmo modo, sabemos hoje como a transmissão de carinho e cuidado através de frios sinais digitais é totalmente possível. Mais uma vez, Câncer e Aquário se mostram capazes de trabalhar bem juntos, porque representam não exatamente o passado e futuro, mas duas formas de presença em que se conciliam o afeto e a liberdade.

Enfim, não será preciso reinventar o amor, porque há bastante amor circulando por aí em todos os meios e mensagens – basta sintonizar nossas antenas para recebê-lo e compartilhá-lo. A gente espera que também não seja necessário redescobrir a liberdade, mas felizmente teremos sempre Janis para nos lembrar de que um dia ela foi possível e valeu a pena. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, o Gardel deu um jeito genial de colocar lá em sua versão, citando livremente Pessoa. Talvez o Kristofferson não gostasse muito desse tipo de folga. Paciência. “Me and Bobby McGee” foi inventada de novo, para que a gente sinta com frescor e alegria a falta que o Bobby faz.

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