libra

Libra é um perigo

Tem um filme chamado Mulher Solteira Procura que ficou conhecido nos anos 1990. Não me lembro muito bem da história, mas sei que era sobre uma jovem que se tornava colega de apartamento da tal mulher, ficava também amiga íntima dela, e ia se mostrando cada vez mais obcecada e psicopática nessa relação. A cena mais famosa era uma em que ela aparecia com exatamente as mesmas roupas e o mesmo corte de cabelo da outra, exibindo um olhar inocente, meio meigo, meio demoníaco. Não sei agora quem era a atriz. Não me lembro o nome da personagem. Mas tenho certeza de que era libriana.

Que o libriano é o best friend forever da lenda, isso é claro. Se você tem um amigo da vida toda pra chamar de seu, ele pode não ser de Libra, mas o relacionamento é. Que o libriano é o stalker do zodíaco – bom, isso também todo mundo sabe. Perdoem-me os itálicos e anglicismos, mas é que “perseguir” e “estalquear”, até onde entendo, são coisas bem distintas – e você provavelmente tem um libriano dando uma estalqueada nos seus perfis na internet nesse exato momento. Não quer dizer que esteja te investigando que nem um maluco, tampouco quer dizer que esteja isento de traços compulsivos. É libriana aquela fungada no cangote que a gente sente com um misto de terror e prazer quando escuta alguém cantarolando logo atrás, “every breath you take / every move you make / I’ll be watching you”.

Olhe de novo para poema do Leonard Cohen que coloquei aí em cima: “Você siga seu caminho. / Eu vou seguir o seu caminho também”. Pois é. Que docinho de coco. E que medo. Aliás, me lembro de ter tido uma fase bem libriana na minha vida, em que, por exemplo, se acontecia de alguém me pedir uma informação na rua, eu acabava me disponibilizando a acompanhar a pessoa até o lugar onde ela ia.

Na época eu achava que estava sendo super desprendido, super simpático – e que as pessoas que me pediam informação na rua deviam chegar em casa à noite falando do rapaz legal que tinham conhecido. Não pensava então que pudessem chegar em casa falando do rapaz estranhíssimo que tinham conhecido, do medo que sentiram dele na hora em que resolveu fazer junto o caminho inteiro até o ponto de ônibus a sete quarteirões de onde estavam, sendo que ele nem ia pegar ônibus nenhum. Nada disso me ocorreu na época. Ocorreu agora, pensando em Libra.

Por outro lado, sabemos também como Libra pode ser narcisista; os pratos da balança acabam pesando mais para algum lado, o da dedicação ao outro ou o da atenção para si, e isso quando os extremos não se apresentam simultaneamente (“como estou sendo desprendido, simpático, modesto”, vejam bem, é um pensamento libriano). Pois o fato de Libra representar esses dois polos implica exatamente algum tipo de desequilíbrio entre eles. A existência de “dois” – em um sentido estrito, é isso que Libra inaugura – cria a busca pela harmonia, pela justiça, pelo equilíbrio, mas em um mundo em constante movimento essa busca não tem começo nem fim, é feita de constantes ajustes pontuais que presumem desajustes exagerados, intensas oscilações, bruscas mudanças de ideia.

Nesse sentido, o interessante mesmo é como o comportamento desviante já está implicado no comportamento dito “normal”, e por isso não seria tão desviante assim, por representar algum tipo de necessidade primária ou arquetípica do ser humano. Tanto o narcisismo extremado quanto a adaptação doentia são previstos pelo arquétipo de Libra. Então, talvez o que caracterize o libriano seja menos a tendência a algum tipo de excesso – todos os arquétipos permitem e sugerem excessos –, quanto a dificuldade em assumir essa possibilidade, inclusive para ele próprio.

Aí vou dizer algo que não sei se devia, porque não sei se vou saber me explicar. Mas vou tentar pelo menos: o libriano é meio sonso. Não no sentido de ser abertamente hipócrita, mas por conseguir manter aquela cara de paisagem de Monet mesmo quando assuntos e sentimentos da mais profunda complexidade estão em jogo. Manter-se na superfície das coisas é um talento libriano, e, como tudo na vida de Libra, também isso se torna uma arte. Em resumo: o libriano é um fingidor. E finge tão completamente, que chega a fingir que é amor, o amor que deveras sente.

Percebam: não é que Libra tenha algum mecanismo de sedução ou manipulação que nos torne inconscientes de suas artimanhas (esse é Escorpião); Libra tem algum mecanismo que o torna, ele próprio, placidamente inconsciente, obstinadamente inconsciente de suas artimanhas. Li esses dias que até o século II a.c. Libra nem era signo, que era Escorpião mesmo que ocupava uma faixa ampliada do zodíaco por onde passava o Sol entre fins de Setembro e de Novembro. Faz sentido então que Libra tenha emergido de um profundo e atávico emaranhado de sensações escorpiônicas, buscando algum tipo de clareza nas relações a dois, tentando estabelecer a harmonia, criar a arte dos relacionamentos, elevar-nos para além dos instintos mais básicos e corpóreos – e criando todo um outro tipo de confusão nesse processo.

Sendo assim, Libra pode esquecer, ou fingir esquecer, que vem do mesmo lamaçal que todos nós. Porém, quando isso acontece, nunca se sabe como o lamaçal vai se manifestar através de Libra. O doutor Jekyll e seu amigo Mr. Hyde (o médico e o monstro de Stevenson) estão aí há tempos contando essa história, das consequências que sucedem a tentativa de pular etapas na busca da justiça e da beleza. As bizarrices que se ocultam na simpatia e na elegância librianas podem ser da natureza mais vil. Quer dizer, são da mesma natureza vil que existe em todos nós, mas que se torna de algum modo mais perversa ao se manifestar no mundo através das vestes de Vênus.

É por isso que eu digo: Libra é um perigo. Agora, se você tem amigos librianos que são pessoas declaradamente confusas, instáveis e desequilibradas, nesses você pode confiar. Na verdade, são inclusive essas as pessoas que sem saber estão nos conduzindo a uma experiência mais justa e mais bela da vida, através de tentativa e erro, indecisões e precipitações, oscilações e conflitos. Mesmo quando perdem tardes inteiras estalqueando o crush, ou mesmo quando passam as horas do dia investigando o espelho, basta que saibam rir de de si mesmas para exercer essa capacidade de corrigir os excessos de si e do universo. O riso sincero restabelece a harmonia no cosmos como nenhum outro gesto; talvez por isso, Libra sabe rir de si mesmo como nenhum outro signo. E os librianos que fazem isso são provavelmente as pessoas mais equilibradas em seu desequilíbrio que conheço. Desses não tenho medo nenhum. Para esses, deixo aqui o registro sincero da minha mais completa gratidão.

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