astros

“Testes”

Foto: Byron Harmon / Whyte Museum of the Canadian Rockies

De restrições e provações esta vida está cheia, mas nem tudo é uma etapa em um processo de autoconhecimento ou amadurecimento ou superação. Algumas coisas são só encheção de saco mesmo; outras são obstáculos que não precisam necessariamente ser contornados ou compreendidos, estão ali apenas para serem aceitos. E, em meio a tantas variantes de fenômenos que exigem tanto de nossa paciência, ou simplesmente acabam com ela, há que se encontrar formas de diferenciá-los de maneira criativa. Há que se gastar algum tempo representando-os em suas particularidades. Por exemplo:

Tem aquela história de um rapaz que queria muito receber os ensinamentos de determinado guru, e para isso subiu com esforço a montanha íngreme que levava até ele. Chegando lá, o guru disse com rispidez: “Vá embora, não tenho nada a lhe ensinar!”. E o rapaz não teve opção senão ir embora mesmo. Mas, chegando no pé da montanha, olhou para trás, e viu que o guru lhe fazia sinais para eu voltasse. Ele pensou: “Ah, essa desse ser uma daquelas situações em que o mestre impõe dificuldades ao discípulo para testar sua resistência e determinação”. Resolveu voltar, e usou suas últimas forças para subir a montanha novamente. Chegando lá o guru disse: “E mais uma coisa: não me volte mais aqui com esses disparates sobre ‘testes’!”.

Acho que qualquer um de nós já passou por alguma situação em que algo parecia exigir somente um pouco mais de esforço, paciência ou maturidade para consumar-se, e no final das contas não era para ser mesmo. Ou, pelo menos, não era para continuar sendo. Está bem representada aí a diferença na pedagogia de dois grandes ‘mestres’ astrológicos: Saturno e Plutão. Saturno tem um viés mais convencional, rigoroso porém recompensador, exigindo esforços e realizando testes que favoreçam nosso amadurecimento; Plutão é aquele que traça uma linha intransponível diante da qual qualquer insistência é inútil. Pela maneira como ambos andam se relacionando no céu ultimamente, fica difícil saber qual é qual nas manifestações com que nos deparamos aqui na Terra. Que coisas na vida estão apenas precisando de um pouco mais de trabalho. Que coisas estão precisando da mais completa aceitação.

Mas a partir de agora, e nos próximos meses, acredito que isso vai ficar mais claro. Ou pelo menos espero. Ultimamente tenho reclamado muito de algumas pessoas, comportamentos, circunstâncias. E até acredito que o mau humor é parte importante da existência, mas reclamações repetitivas sobre o mesmo assunto podem indicar que estamos insistindo onde o que se requer é desistência. Desistir das coisas é bom, dá um certo barato, pode ser feito com certa leveza, ou beleza, inclusive. Aí esses dias me apareceu a lembrança da citação de uma entrevista que o Leonard Cohen deu pouco antes de morrer. Nela, ele dizia que não deveríamos nunca “reclamar casualmente”. E que, se for para lamentar a inevitável derrota final de nos aguarda a todos, que isso seja feito com beleza e dignidade.

Tenho lamentado muito casualmente, de coisas que que provavelmente não são nenhum tipo de teste ou provação pela qual eu tenha que passar em meu percurso cármico sobre a Terra. Ou talvez sejam, mas se forem não é reclamando que vou resolver o assunto. Saturno, como disse, exige trabalho, dedicação, paciência. Já Plutão diz respeito à inevitável derrota final que nos aguarda a todos, e às derrotas pontuais que exigem nossa absoluta capitulação no decorrer da vida, diante das quais os lamentos precisam ter um quê de coro trágico, para fazer justiça ao massacre de nossas vastas esperanças.

Até janeiro de 2020 ambos estarão ainda se confundindo, nos últimos passos de uma dança desastrada que enfim está chegando a uma conclusão parcial, e é possível que por essa época realizem uma fusão completa, no momento da derrocada final de edificações que levaram muito tempo para ser erigidas. Pelo menos isso abrirá espaço para que algo de realmente novo seja construído no lugar. Vale tanto para alguns aspectos da experiência coletiva quanto em alguns desdobramentos de histórias pessoais. De modo que, agora, o que desejo a cada um de nós nesse meio tempo é uma variação da oração da serenidade. Uma que diria assim, “Deus me dê perseverança para insistir naquilo que requer minha insistência, falta de saco para desistir daquilo que requer minha desistência – e sabedoria para perceber a diferença”.

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