câncer, escorpião, peixes

Camadas de memória

[Foto: Elliot Erwitt]

“Os mortos” é um conto do escritor irlandês James Joyce em que se narra um tradicional jantar de Noite de Reis na Dublin do início do século XX. O protagonista é Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, queridinho das tias, homem de família, responsável pelo bom andamento dos ritos cerimoniais (como destrinchar o frango e controlar a língua do tio bêbado). Tudo se passa como teria se passado nos anos anteriores, exceto por uma ou outra indicação de que algo não anda bem. No final da história, Conroy vai descobrir como aquele senso de continuidade é uma espécie de ilusão, ao escutar o relato de sua mulher sobre um jovem que teria literalmente morrido de amores por ela no passado distante. Logo fica claro que, após a lembrança súbita da morte do rapaz, ela estivera pensando nele a noite inteira.

A maneira como a morte, o sofrimento e a paixão irrompem no encerramento do texto é notável. Não que elas não estivessem lá o tempo todo, ocultas, insinuadas no destrinchar do frango e nas conversas elegantes, porém reprimidas pelas rotinas civilizatórias de que falou Sigmund Freud. O mesmo Freud, aliás, que teria dito que os irlandeses são o único povo impermeável à psicanálise. Isso pode ser lido como um atestado de sua simplicidade, mas também como uma referência a seu compulsivo apego à terra pátria e suas tradições. Nesse sentido, a ruptura que se estabelece na experiência do protagonista de Joyce é significativa. Atordoado com a percepção de recantos traumáticos da memória em suas camadas sobrepostas, de repente ele se torna um irlandês complexo e, por assim dizer, psicanalisável.

É sobre essas camadas, de um modo mais geral, que eu gostaria de falar. Os arquétipos de água – Câncer, Escorpião, Peixes – são aqueles em que está o passado, aqueles em que estão nossos mortos. No caso de Câncer, o interessante é que os mortos ainda estão vivos. Eles são o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, ou seja, as pessoas através das quais – se tudo ocorrer dentro do esperado – nós entraremos em contato com a finitude. Exatamente por ser uma experiência de continuidade e pertencimento, Câncer aloja a percepção mais imediata da ruptura. É a perda do que temos de mais familiar. A memória canceriana é a lembrança de coisas que estiveram aqui há pouco tempo, a lembrança de lugares em que vivemos até outro dia, e de pessoas com quem convivemos o suficiente para tornar sua presença um hábito doce e confortável.

Já o jogo de desenterrar do passado coisas estranhas das quais já não havia resquício de lembrança foi inventado por Escorpião (e, em certo sentido, por Sigmund Freud). É uma brincadeira perigosa, mas potencialmente terapêutica e restauradora, pois o que foi reprimido emerge destruindo o que já não tem condições de existir. Os mortos e esquecidos ganham vida para mostrar que o que parece vivo na verdade já está morto. A crise plutônica é um abalo sísmico, que deixa um lastro de destruição de tudo o que considerávamos mais inabalável; por outro lado, o terremoto faz surgir ruínas arqueológicas em que nos reconhecemos. Não importa que sejam sejam indícios de épocas violentas. O passado em Escorpião é justamente aquilo que foi soterrado para dar lugar a uma versão mais sensata e civilizada de nós mesmos.

Agora, se em Câncer os mortos são familiares que se afastam, se em Escorpião os mortos são estranhos que se reaproximam, em Peixes estão TODOS os mortos. A memória pisciana é a presença indistinta de ancestrais longínquos e das pessoas próximas; em última instância, do mesmo modo como perde a noção de realidade e de sonho, ela não consegue distinguir uns dos outros. Porém essa imersão no oceano da ancestralidade cria a possibilidade de percepção daquilo que preexiste a cada indivíduo, e que se revela em cada história individual, ou seja: um inconsciente coletivo traduzido na forma de arquétipos. A diferença da abordagem psicológica junguiana em relação à de Freud reside sobretudo no delineamento dessas histórias, e da maneira como as representamos. Não por acaso, Jung dedicou todo um livro ao “arquétipo do si-mesmo”, que seria um arquétipo em separado e ao mesmo tempo uma reunião de todos os arquétipos, correspondendo em todos os aspectos a símbolos piscianos.

Há portanto a experiência de uma vinculação imediata ao passado, que se traduz na percepção da perda; uma relação fraturada com o passado, que se revela na crise, na lembrança do trauma, na chance da restauração; e uma imersão oceânica no passado, em que está a imprecisa memória de todas as coisas próximas e distantes. No conto de Joyce, as três se sucedem, de tal modo que no final da história Gabriel Conroy vai até a janela: “Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos”. Uma solução pisciana para um texto que começa em Câncer (o jantar em família), prossegue em Escorpião (o retorno do reprimido), e termina reunindo-os todos sob a mesma neve. Há nesse desfecho uma promessa de descanso que pode muito bem ser uma ilusão. Seja como for, ele termina juntinho com o zodíaco: buscando a paz em uma saída de cena, e na conclusão de todas as histórias que existiram, existem, e estão por existir.

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