virgem

Um diamante em sua mente

Mutus Liber (1677)

Outro dia vi um meme de uma pessoa dizendo que com a idade tinha se tornado o que mais temia: aquela que diz “nossa, tô mals, acho que vou fazer uma faxina”. Talvez essa pessoa esteja ficando mais velha; talvez esteja apenas ficando mais virginiana. Mas não entendam esse comentário como uma redução do virgianismo ao faxinismo. Além disso, o vínculo entre Virgem e a faxina é incompreendido se não levamos em conta o “tô mals” da frase. Precisamos considerar a faxina como processo de cura, a faxina como prática terapêutica. E através desse vínculo é possível perceber inclusive a relação da faxina com o sagrado, que a meu ver explica muita coisa sobre o arquétipo de Virgem.

A tarefa desse arquétipo é basicamente honrar o mundo espiritual através da matéria. Já falei um pouco disso no post sobre as virgens vestais. Mas não só “honrar”: o que acontece aqui é também a transformação do mundo espiritual através do material, um ao mesmo tempo do outro, o que – de acordo com os estudos de C. G. Jung em Psicologia e Alquimia – era o propósito dos alquimistas que se dedicaram a investigações aparentemente infrutíferas sobre a natureza das substâncias químicas, em estranhos laboratórios da idade média e no início da idade moderna (a partir daqui as coisas podem ficar um pouco herméticas, mas percebam: quando falamos em “transformar o mundo espiritual através do material”, em momento algum saímos do raciocínio de “ai que deprê, acho que vou dar uma limpada na casa para melhorar”).

Jung alega que em muitos casos a Alquimia esteve relacionada a processos psíquicos, que se desdobravam através da meticulosa observância de protocolos laboratoriais, mas correspondendo em seu ritmo e direção a um propósito terapêutico. Assim, quando falavam na busca da substância mais pura, do ouro mais genuíno, do lapis original, e dos respetivos procedimentos dessa busca, os alquimistas estariam falando de algo ao mesmo tempo mais ambicioso e mais modesto do que a transubstanciação da matéria: a purificação da alma. Supõe-se que as duas coisas acontecessem simultaneamente, ou ao menos que as tentativas de alcançá-las fossem equivalentes. Existia uma espécie de projeção nas coisas de desdobramentos mentais, que dependiam delas para se realizar, de acordo com o princípio da ressonância entre o ‘dentro’ e o ‘fora’.

As vinculações entre ambas as esferas são várias. Mas, em especial, do mesmo modo como os alquimistas presumiam de que havia espíritos com qualidades especiais alojados nas substâncias e aguardando ser revelados pela ação humana, eles falavam em “pedras filosofais” e “diamantes” escondidos na alma humana, e que dependiam de práticas alquímicas para ser descobertos. Dada a concentração que essas práticas exigiam, não é difícil observar suas semelhanças com hábitos de meditação oriental, por exemplo; considerando suas detalhadas instruções, existe uma semelhança com métodos do cuidado-de-si de filósofos da antiguidade clássica. Tudo isso pode se tornar extremamente complicado, é verdade. Mas no geral essas técnicas devem servir não para complicar as coisas, e sim para retirar o entulho acumulado sobre o que há de mais elementar, intocado e perfeito em nós.

Ou, como diz com simplicidade a canção de Tom Waits lindamente regravada por Solomon Burke: “Always keep a diamond in your mind”, tenha sempre um diamante em sua mente. Na mesma linha, lembrei de uma passagem do Angels in America de Tony Kushner – de resto uma narrativa escorpiônica – em que uma personagem diz a outra, contaminada pelo vírus HIV e atordoada pelo desespero numa época em que a AIDS era uma síndrome desconhecida: “Lá dentro de você, há uma parte de você, a parte mais profunda, que está totalmente livre da doença. Eu vejo isso”. Dá para remeter essa citação a um comentário do alquimista Dorneus, de 1602: “Há, escondida no corpo humano, uma substância metafísica conhecida por poucos e que não necessita de qualquer medicamento, pois ela mesma é um medicamento incorruptível” (citado por Jung, Psicologia e Alquimia, p. 286).

Encontrar essa “substância metafísica” é a tarefa dos alquimistas, e dos virginianos. Para isso, ambos precisam compartilhar determinadas virtudes, como a compenetração, a organização, a humildade e a atenção a detalhes. É claro que tudo isso pode sempre desvirtuar-se em uma índole excessivamente crítica e controladora, ou em um apego excessivo a técnicas e rituais automatizados, descritos em linguagem exaustiva. Evitadas essas ameaças, tanto o virginiano quanto o alquimista estão em condições de executar os “mágicos rigores” de que falou o escritor argentino (e virginiano) Jorge Luis Borges.

Mas não só eles. Você que me lê: saiba que você também tem um diamante em sua mente, uma parte de você que está totalmente livre da doença, da ansiedade e do cansaço, uma coisa que não precisa de medicamento algum porque ela mesma é o medicamento incorruptível. Essa “coisa” pode muito bem ser um momento: aquele em que um cientista contempla as plácidas rotinas do mundo natural no silêncio de um laboratório, aquele em que alquimista executa os movimentos de sua cura através das misturas de suas provetas, aquele em que o faxinista percebe que terminou seu trabalho e a casa ficou um brinco. Nesse momento o sagrado e o cotidiano se encontram. Mas você não precisa correr para pia para experimentar um instante de tão elevada condição. Pare, respire, perceba: o diamante está aí.

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