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Quatro casamentos e um funeral

[Marc Chagall | As luzes do casamento (1945)]

No dia em que eu defender minha tese no Instituto Hogwarts de Altos Estudos Astrológicos, ela provavelmente vai se chamar Da Natureza do Escorpião: um estudo comparativo do mais capetudo arquétipo do zodíaco. A seguir, algumas anotações também sobre Touro, Câncer e Libra, para o capítulo 7, “A questão do casamento”.

TOURO: A questão do casamento surge em Touro. Mas não é ainda um problema cultural intrincado, talvez nem seja exatamente uma “questão”. A união é assunto de subsistência, tem um vínculo imediato com ritmos naturais de reprodução, e envolve um tipo de sensualidade imediatamente vinculada às necessidades e preferências do corpo. Sexo taurino é sexo simples e gostoso. Taurino é o casamento camponês de Levin e Kitty com que Tolstoi encerra o Anna Karenina. Mas simplicidade não significa escassez. O banquete da casamento como celebração da fertilidade do solo e da abundância dos frutos da terra é um fenômeno que acontece no arquétipo de Touro.

CÂNCER: Em Câncer, o casamento ganha uma dimensão social. Envolve não apenas os noivos como também a família, a aldeia, a comunidade. Marc Chagall era canceriano. Suas pinturas de casamentos têm uma ambientação com elementos piscianos, um clima de sonho, mas não deixam de nunca de evocar as tradições da aldeia eslava ou balcânica. Em Câncer, o casamento acontece não apenas na aldeia, mas é algo que acontece à aldeia como um todo. Nesse sentido, casamentos não são apenas uniões e constituição de novas famílias, mas também separações nos lares de que se despedem os noivos. E esse é um dos motivos pelos quais casamentos são felizes e tristes ao mesmo tempo; seu aspecto sentimental é arquetipicamente canceriano.

LIBRA: Em Libra o casamento é o triunfo da inteligência e da diplomacia humanas na resolução de conflitos. Aquilo que Northrop Frye chamou de “predominância do princípio de sociabilidade” ao tratar das comédias de Shakespeare, que geralmente terminam em casamentos. Assim como os casamentos de Chagall compõe-se de Peixes + Câncer, Sonho de uma noite de verão, a comédia shakespereana mais onírica, é Libra + Peixes. Tão destituída de elementos terrenos que praticamente se desprende do solo, porém ainda dependente de algum grau de estratégia para chegar a um final feliz. Qualquer comédia romântica tem um forte componente libriano, é claro. Ao mesmo tempo, em Libra o casamento é um contrato, que prevê equidade e equilíbrio.

ESCORPIÃO: Em Escorpião o casamento não é uma necessidade, não é uma celebração, não é um contrato: é uma morte. Confunde-se com a união sexual, a “pequena morte” do orgasmo, que o simboliza e sacramenta. Mas não é o sexo reprodutivo ou mesmo o sexo gostoso de Touro: trata-se de uma fusão transformadora radical que se dá por trás dos panos, por meio da liberação de energias represadas por um longo tempo. O bom senso taurino, a comunalidade canceriana e a justiça libriana não dão as caras. O que acontece aqui pode muito bem ser bizarro, isolado e desigual.

Em Libra, a propósito, a união presume certa distância, capaz de resguardar o casamento dos riscos da indistinção entre o eu e o outro. Em Escorpião assume-se esse risco. O casamento libriano requer qualidades que atribuímos à amizade, como a admiração mútua e o respeito; o casamento escorpiônico pode prescindir delas. Um amigo uma vez me disse que “o casamento é a relação mais promíscua que existe”. Dá para entender bem essa frase se pensarmos no casamento em Escorpião, não exatamente por causa do sexo, mas por causa do tipo de fusão (e confusão) emocional da intimidade monogâmica, da permissividade afetiva gerada pelo convívio cotidiano. O fim de todos os limites do respeito e da moralidade podem ser experimentados através do casamento. Naturalmente, o ideal é que não seja assim, ou que os limites da moralidade sejam rompidos entre quatro paredes de formas mais renovadoras e catárticas.

Mas o fato é que atitudes e sentimentos normalmente considerados indesejáveis encontram seu lugar no mundo no arquétipo de Escorpião. Acho que fiquei com vontade de fazer essas anotações depois que outro dia li o seguinte nas reflexões diárias um astrólogo que admiro: “Não se permita o exercício da maldade, a não ser que seja por vingança”. Tive que ler duas vezes antes de pensar: ah, é claro, a lua está em Escorpião. Em Escorpião vingança pode, tem justificativa cósmica e licença poética. Por causa da história da fusão e da confusão. Ódio também é ok, às vezes. Mau humor nem se fala: o mau humor é totalmente permitido quando as coisas estão em Escorpião.

O fascinante nesse signo é como o certo se torna errado e o errado, certo. Quanto a parcerias e casamentos, cada um é de um jeito e todos têm um pouco de todos os tipos. Comida, sexo, comunhão e equilíbrio são sempre importantes. Mas existe sempre algo estranho que foge à nossa visão ordinária de como as coisas são ou devem ser. Esse algo é fundamental.

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