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Inferno astral

Down By Law/ Dir. Jim Jarmusch

Esses dias me perguntaram sobre o “inferno astral”. Vou deixar aqui minhas impressões a respeito. Há quem entenda que ele acontece durante a passagem do Sol pelo signo anterior ao da pessoa (agora que o Sol está em Leão, por exemplo, seria o inferno astral dos virginianos). Mas é possível também senti-lo nas semanas que antecedem nosso aniversário, mesmo que o Sol tenha já ingressado no nosso signo (tecnicamente, nesse momento o Sol em trânsito está em relação balsâmica com o Sol natal do indivíduo). De um jeito ou de outro, e deixando de lado os detalhes, a lógica é que nessa etapa ficamos mais sujeitos a forças que não podemos controlar, sem a energia necessária para confrontá-las, ou inseguros em relação ao caminho a seguir. Ou seja, um período de confusão e incerteza, que antecede o início de um novo ciclo, como a hora mais escura da madrugada que precede o nascer do sol.

Em todas as suas concepções, o inferno astral está de algum modo vinculado à décima-segunda casa do zodíaco, associada ao signo de Peixes. Trata-se de uma casa que remete ao sacrifício do ego, a uma entrega (ainda que temporária) do indivíduo a instâncias que ele desconhece e que trabalham nos bastidores de sua psique. Em seus aspectos considerados infernais, a casa 12 é lugar de instituições como hospitais, sanatórios, prisões e inclusive monastérios, onde a pessoa se encontra sujeita a forças maiores, renunciando à sua vontade para entregá-la a médicos, à lei ou a Deus. E a experiência da casa 12 pode ser mesmo infernal, sobretudo quando a dissipação do ego através de álcool e drogas exige uma internação forçada, a restrição da liberdade se dá através de ‘forças maiores’ representadas pela autoridade do Estado, ou a entrada em um convento implica uma renúncia à vida mundana motivada pelo desespero existencial.

Há um cansaço nessa faixa do zodíaco que pode levar à capitulação. O desejo de ‘entregar tudo’ e não fazer mais nada é real e intenso. Isso se manifesta de diferentes maneiras na trajetória de um indivíduo, e aquilo que conhecemos como ‘inferno astral’ seria apenas uma versão mais previsível e regular dessa experiência, porém não menos palpável para quem a está vivenciando (pela lógica de sua definição, é possível também atravessar “infernos astrais” em outras épocas da vida e do ano, não necessariamente sincronizadas com nosso aniversário, mas aí você precisa de um astrólogo profissional para identificá-las). Muitas vezes tudo o que esse período requer é paciência para aguardar a restauração de forças e a abertura do horizonte. Parece que a gente até sabe disso lá no fundo: retrospectivamente, sobretudo, a gente depois entendendo assim o que estava aconteceu. O difícil é aguentar a ansiedade e o medo de que a situação vá durar para sempre, enquanto ela está acontecendo.

Por outro lado, partindo desse mesmo ponto podemos concluir que todo inferno astral é uma oportunidade que temos para viver as experiências da casa 12 (e de Peixes) em um viés mais positivo. A entrega e a renúncia podem ser um momento de descanso, de abrir mão do controle e permitir o curso natural das coisas, incluindo aí o legítimo exercício da preguiça. Reparem, a casa 12 é uma casa cujos personagens – o louco, o monge, o doente – não trabalham; curtir um inferno astral é, por assim dizer, curtir uma febrinha; trata-se de permitir que um processo de recuperação e de cura se dê a seu tempo, sem a exaustiva interferência de nosso desassossego.

E, dependendo do caso, podemos incluir aí até uma experiência mística de dissipação do ego no cosmos, de perda das definições e limites que separam mundo interior e exterior. Isso vai acontecer ou não dependendo das tais forças maiores, aquelas sobre as quais não temos controle algum, e portanto não é uma experiência que dependa de uma decisão nossa (por mais que a gente possa tentar induzi-la através da meditação ou do uso de narcóticos). Quando acontece, porém, temos um momento que não é de restrição da liberdade, mas sim de autêntica libertação, na medida em que percebemos como o ego não deixa de ser uma espécie de prisão, onde estamos provisoriamente encapsulados.

Em dimensões variáveis, estamos sempre falando de um possível descanso do trabalho de ser humano e ficar tomando decisões o tempo inteiro. Dito isso, parece-me que o interesse na ideia de inferno astral cresce em períodos como esse, em que vivemos uma espécie de inferno astral coletivo, simbolizado pela maneira como Saturno e Plutão estão se relacionando no céu desse ano de 2019. Já expus minhas observações sobre esse trânsito em mais detalhes aqui e aqui; porém, não é demais reforçar que dificilmente (de um ponto de vista astrológico, pelo menos) esse seja um ano de definições e decisões que venham a perdurar, que tenham consistência para isso. No mínimo, podemos dizer agora que quem está confuso não está só. Nessa perspectiva, estaríamos em compasso de espera, sem condições de ver um palmo além do nariz, e por ora mal nos movimentando em meio a uma terrível neblina.

Enfim, isso condiz com a sensação de que nosso cotidiano político se tornou um macabro baile de máscaras onde figuram os mais deploráveis personagens, uma hora do pesadelo povoada de assombrações criadas nos bastidores de nossa psique coletiva. A boa notícia nesse caso seria a de que esses personagens não vieram para ficar, de que eles não têm consistência para isso, de que são oportunistas se aproveitando de um momento de enorme indefinição e ansiedade social. Quanto aos personagens que vão surgir e se estabelecer depois deles, isso já é uma outra história. Que, por definição, não pode ser contada agora, no meio dessa neblina infernal, e a essa hora da madrugada.

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