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O ascendente

[Foto: Tuk Narumol | Wikimedia]

Primeiro, uma breve informação técnica. Chamamos de ascendente a região do zodíaco que estava surgindo no horizonte no momento exato do nascimento de uma pessoa, a partir de seu ponto de observação (local de nascimento). Essas regiões do zodíaco são as doze partes de um cinturão no firmamento que atribuímos a diferentes arquétipos ou signos, associados a constelações, embora não atrelados a elas geometricamente. O lugar onde o Sol encontra o equador celeste (isto é, a linha do Equador projetada no céu) assinala grau zero do zodíaco, ou seja, o Ponto de Áries. O ascendente equivale a esse pontinho no mapa de cada pessoa, porém em cada um ele vai aparecer num lugar diferente, e bastante específico, porque muda de grau a cada quatro minutos e de signo a cada duas horas.

Tudo isso e mais alguma coisa aponta para o fato de que o ascendente marca a experiência de um início. Algo aí está surgindo, algo está nascendo, com um frescor e um poder de renovação desconhecidos para a própria pessoa que irá manifestá-lo. Trata-se de algo belo que ela apresentará ao mundo sem saber muito bem como nem por quê, mas, possivelmente, com uma satisfação destituída da ansiedade que acompanha expectativas desmedidas ou infundadas. Algo que estamos começando não é algo que dominamos completamente, não é algo em que possamos pretender a excelência – mas pode muito bem ser algo que fazemos com maior espontaneidade e alegria.

Quase todos os demais componentes de um mapa astrológico presumem uma experiência acumulada em outras vidas. Isso pode ser entendido de modo literal ou metafórico, mas em geral a teoria astrológica implica a ideia de reencarnação. Na astrologia indiana, a propósito, os planetas são conhecidos como grahas, do termo sânscrito que significa “segurar, reter”, relacionado ao inglês grabbers e ao nosso agarrar. Isso lhes confere uma dimensão cármica que também pode ser compreendida como uma espécie de “peso”, porque as coisas de fato parecem se apegar a eles, do mesmo modo como nós nos apegamos às coisas.

Dá para ter uma visão positiva dos planetas, é claro, como muitas vezes temos do nosso signo solar (tipo, “ah, sou sincero assim mesmo, sou de Sagitário”). Nada de errado nisso, e se a ideia de carma é pertinente nós temos que lidar com esse peso de alguma forma, além de aproveitar o que há de bom na bagagem que trazemos. Uma leitura de um mapa astral é em grande parte uma análise desses elementos. Mas, se me permitem a caricatura, nessa perspectiva um mapa astrológico natal é a representação de um monte de tralhas que fomos juntando no decorrer das nossas vidas anteriores, que podem inclusive ser bastante úteis ou amáveis (como diz a canção: “in these bare bones / there’s something lovely after all“), mas nunca serão o que temos de realmente novo para viver agora.

O caso do signo lunar é o mais sintomático: ele geralmente se refere a experiências e talentos que um indivíduo espera reproduzir, seja por força do hábito, seja para repetir antigos sucessos. Daí a percepção de que a “Lua” de uma pessoa indica seu signo solar na última encarnação, o que pra mim faz sentido na prática. Vejo as pessoas de fato se apegando àquilo que apreciam em seus arquétipos lunares, ou repetindo comportamentos que os caracterizam, com uma “naturalidade” que beira o automatismo. As pessoas geralmente gostam de suas luas; mais uma vez, nada de errado nisso, até certo ponto.

Uma Lua em Leão, por exemplo, pode indicar indivíduos que têm a sensação de ter pertencido à realeza ou de ter recebido uma enorme atenção do público em outras vidas, e por isso, durante boa parte dessa vida, aguardam um tipo de respeito e reverência especiais. Há uma legítima reivindicação aí. O risco é tornarem-se excessivamente suscetíveis a quaisquer pequenos sinais de desatenção ou menosprezo do mundo, uma espécie de síndrome do orgulho ferido. Já um ascendente em Leão pode muito bem exercer o fascínio que a realeza e as estrelas de cinema exercem, porém sem ter essa expectativa, sem ter esse objetivo. Fazem isso através do amor que demonstram em atividades performativas, do prazer que têm na criação artística, ou no convívio lúdico com crianças, por exemplo.

Minha sensação é de que no ascendente estamos diante de algo livre da tralha cármica das sucessivas encarnações, das expectativas de retorno que não são nunca satisfeitas, da busca por resultados que se depara sempre com constrangimentos e frustrações. Nessa leitura, ele se torna o ponto mais positivo do mapa de uma pessoa, ao contrário de outras interpretações que o reduzem a uma idiossincrasia ou máscara social do indivíduo. Ele certamente tem a ver com o conceito de persona, tal como o propôs o psicólogo C. G. Jung, e isso está relacionado à maturidade que requer para manifestar-se. Mas seria necessário qualificar o termo junguiano para que o vínculo seja compreendido.

Vou escrever um pouco mais sobre isso em uma segunda parte desse texto, e devo falar mais sobre a relação do ascendente com a aparência – acho esse tema fascinante – e quem sabe escrever uma série de postagens sobre o ascendente em cada signo do zodíaco. Por ora, queria compartilhar a percepção e a hipótese de que as ações através das quais o ascendente se manifesta têm uma leveza que não se verifica no signo solar. É uma espécie de arte não premeditada, que pode surgir em atos cotidianos, na vida pública, ou em interações pessoais, sempre nas maneiras menos deliberadas com que nos apresentamos no mundo.

Com muita frequência percebo que o que mais aprecio e admiro em uma pessoa são traços de personalidade e de comportamento vinculados a seu ascendente. Mesmo em relação a gente com quem tenho pouco contato, conhecidos pelas redes sociais por exemplo, isso costuma acontecer. Geralmente nesses casos dá pra sentir que há certa despreocupação com o resultado de um gesto, que não há intenção de agradar, que não há medo do julgamento público (as pessoas causam más impressões pelos motivos de sempre, e boas impressões por razões que elas nem imaginam). Geralmente isso acontece também através de ações e comportamento muito específicos; é aquela história do ascendente como idiossincrasia, mas na qual vejo um componente mais interessante e promissor.

Se você for meu amigo ou conhecido em redes sociais, pode me contar seu ascendente, que eu vou ficar feliz em saber. Sim, depois disso vou ficar reparando, até porque nunca esqueço um ascendente depois que me dizem, mas é pelos melhores motivos. Tem gente que tatua o símbolo do signo solar na pele; no caso do ascendente, creio que a pele já é tatuagem, mas aí há tantas variações do símbolo quanto há pessoas no mundo. E tem aquela pergunta: uma zebra é um cavalo preto pintado de listras brancas ou um cavalo branco pintado de listas pretas? Resposta: é um cavalo invisível que foi pintado de branco e preto pra gente não tropeçar nele. Acredito que o ascendente é esse tipo de tinta. Gosto de ficar observando seus matizes.

2 comentários sobre “O ascendente

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