leão

Coração de Leão

Os arquétipos do zodíaco estão vinculados a diferentes partes do corpo humano, interagindo uns com os outros de acordo com relação entre essas partes, que manifestam características dos signos a que estão associadas. Acho interessante nesse sentido o caso de Leão/Aquário, opostos complementares que regem o coração e o aparelho circulatório, respectivamente. Da mesma forma como o Sol, regente leonino, signo de fogo, depende do céu (Ouranos, regente aquariano, signo de ar) para difundir sua luz, o coração precisa das veias e artérias para fazer chegar o sangue a regiões distantes do corpo.

Mas o vínculo Leão-Coração vai além de tudo o que os outros signos conhecem. Porque aqui já não se trata apenas de uma parte ou função de nosso organismo, mas de um dos símbolos mais presentes em nossa cultura, de uma ideia, que está espalhada em nossa poesia, em nossa dramaturgia, em nosso cancioneiro. Quando falamos em ‘coração’, estamos falando em tudo o que existe de mais importante em nossa experiência anímica e afetiva. Trata-se de um caminho rápido para nos colocarmos em cena com a maior inteireza, ou de afirmar que todo nosso ser está em jogo, um pouco como nos famosos versos do poeta russo Vladimir Maiakovski (“mas comigo a anatomia ficou louca / sou todo coração”), com o qual todos nós já nos identificamos em um momento ou outro da vida.

Maiakovski tinha Vênus em Leão, o Sol em Câncer. Já Caetano Veloso é leonino com Vênus canceriana, e talvez por isso tenha escrito os versos em que uma alma dilacerada pela memória ainda assim ambiciona abarcar a totalidade do espaço e do tempo no centro do peito: “Meu coração vagabundo / quer guardar o mundo / em mim”. Ou seja: experiência leonina arquetípica é a de um envolvimento pleno e inegociável no sentimento que pulsa, na ação em curso, no gesto em cena, mesmo que seja a afirmação de uma carência e de uma falta. Em seu melhor, Leão transforma em ouro tudo o que toca, e faz brilhar mesmo os recantos mais doloridos e escuros da alma, trazendo-os à luz do dia – como o rei Mufasa erguendo seu pequeno filhote, alto e sobranceiro, no cume do despenhadeiro.

Nossa cultura pop, aliás, está atravessada por imagens em que ele está lá, o coração, como símbolo de totalidade, e ao mesmo tempo indício de sua perda, porém de tal forma que o ato criativo transforma tudo de novo em uma coisa só, e é de certa forma, ele próprio, a cura necessária para as dores e angústias que declara. Corações machucados, corações dilacerados, corações despedaçados, não são exatamente moléstias que possam se resolver com um curativo, ou mesmo com uma cirurgia, mas nossas canções preferidas são sempre capazes de reverter esse quadro no mesmo instante do diagnóstico, sobretudo quando elas literalmente nos levam de volta pra pista. E de novo: “você partiu meu coração” é um frase em que um pedacinho nosso é usado como se fosse o ser inteiro de cada um de nós. Não dá pra dizer que a mesma coisa aconteça com os pés (Peixes), com os ossos (Capricórnio) ou mesmo com a cabeça (Áries). “Você quebrou o meu fêmur” geralmente vai ser lido de modo mais literal mesmo – e talvez por isso seja um verso pouco promissor, poeticamente.

O coração, por outro lado, está presente também em tudo que fazemos com gosto, em tudo o que fazemos com entusiasmo, em tudo o que fazemos com amor. Por isso é pródigo na vitalidade que distribui: ele é a própria vitalidade, é aquilo que em nós pulsa de desejo e de prazer. Muito antes de ser compreendido como um órgão, o coração era um ritmo, que repercutia em todo o corpo e não se diferenciava dele. O coração sustenta em cada batida a vida do organismo, e portanto pode não ser exatamente uma parte dele, mas algo que está em todas as partes, através da reverberação do seu pulsar.

Escrevi antes, aqui, sobre como os símbolos do arquétipo de Leão têm esse poder de síntese e simplificação. Gosto de fazer esses links porque meu coração está, entre outras coisas, com a astrologia: amo escrever esses textos, estou inteiramente neles. É uma experiência leonina que tenho, pelo prazer que me dá. Imagino que o bom mesmo é ser leonino, ser esse coração cheio de vida que pulsa e distribui energia para todos ao redor, e que mesmo quando está dilacerado consegue reverter a dor em beleza, e exercê-la com a mais nobre e desesperada dignidade. Enfim, acho que queria ser leonino inclusive para sofrer como um leonino. Mas sou feliz em ter aqui esse aspecto da vida em posso exercer minha leonice, através dessas pequenas pulsações literárias, que percorrem as veias aquarianas de um mundo interconectado.

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