capricórnio, escorpião, leão, virgem

Ditadores do zodíaco

O Grande Ditador (1940) / Dir. Charlie Chaplin

Acredito que todos os arquétipos do zodíaco conhecem um caminho próprio para o autoritarismo, tendo como ponto de partida inclusive as virtudes de cada um, mas em alguns casos esse percurso é mais evidente. Podemos imaginar como e porque uma ditadura se instala de acordo com as inclinações de diferentes signos específicos; o exercício será tão útil quanto uma horinha de academia para nossas articulações psico-astrológicas, com a vantagem de não deixar nossos bíceps fatigados.

Em Capricórnio, por exemplo, existe uma inteligente competência para lidar com assuntos mundanos; ele pode ser até mesmo convidado a exercer essa qualidade, assumindo posições centrais no governo sem o intermédio de uma escolha popular, em circunstâncias de desorientação coletiva; mas ninguém garante que vai abrir mão do poder obtido, depois que as coisas se acalmarem. A figura do capricorniano como um ditador é célebre, e em muitos casos decorre desse apego ao controle, a uma pretensiosa imaginação de que sem Capricórnio o mundo recai no caos e na bandalheira. Mas também não custa lembrar que o termo “ditador” foi criado na Roma Antiga para designar o magistrado escolhido para exercer um governo com prerrogativas emergenciais – e, portanto, não necessariamente presumia um golpe ou um regime despótico, mas uma espécie de janela para o restabelecimento da ordem institucional e para a retomada das práticas regulares do Estado.

Em Escorpião, como de costume, as coisas ficam “interessantes” (leia-se: ganham uma conotação sexual), e nesse caso porque o poder puro e simples – incluindo os poderes mais obscuros – é um tema de Escorpião. Aqui o fato de que determinados seres exercem força sobre outros, não porque merecem, não porque precisam, não porque desejam, mas simplesmente PORQUE SIM, é parte importante do mistério da vida. Em Escorpião estão os fenômenos – como a morte – que precisam ser aceitos, por mais que a gente os considere injustos ou despropositados (para mais detalhes sobre esse tema, tem esse texto). Em Escorpião está o Dragão, esta força da natureza que causa destruição e carnificina de acordo com seus humores, e que esconde um inestimável tesouro oculto em sua caverna (nesse caso tem esse outro). Por isso em Escorpião também está o Tirano: aquele que mata por prazer, que quer o controle pelo controle mesmo, para o exercício da manipulação e do ódio.

O problema aqui não está no fenômeno do poder absoluto e desumano em si, mas nessa sua manifestação mundana e humana através de um indivíduo. Ela torna pontual e contingente algo que tem uma dimensão cósmica inegociável, conferindo sempre um elemento de banalidade ao Mal Radical que exige respeito e reverência. O dragão é o Dragão – e o Tirano, no final das contas, é só uma pessoa. Além disso, todo autêntico poder escorpiônico tem sua origem no oculto e no mistério, e é de caráter experimental, alquímico, investigativo, como por exemplo aquele que se obtêm através do estudo da astrologia; não se tem licença para exercê-lo em assuntos de outra ordem, que os desvirtuam e rebaixam. Uma plutocracia é um governo dos muito ricos – os que acumulam tesouros em suas cavernas – ou de forças ocultas – aquelas que transitam nos porões de ditaduras. As duas coisas muitas vezes andam juntas. Num caso como no outro, as virtudes plutônicas da concentração de energia e da transubstanciação alquímica se manifestam em versões mais vis, as da concentração de dinheiro e a da manipulação conspiratória.

Agora, sobre Virgem, uma notinha rápida: nesse caso estamos falando menos de um personagem vultuosamente ditatorial, e mais de um possível exército de tiraninhos que regulam os mais ínfimos detalhes da vida cotidiana, uma máquina burocrática que continua funcionando mesmo quando destituída de uma figura central. Em O Processo, de Kafka, encontramos algo parecido, pois ali já não importa nem qual é a Lei que está sendo obedecida, mas que os protocolos do código processual sejam todos seguidos. Há também um elemento virginiano em Gilead, a locação da distopia de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, com seus cenários ordenados, seus figurinos repetitivos e suas aias submetidas a vários protocolos de conduta restritíssimos. A impressão do elo com Virgem é reforçada pelos tenebrosos ritos sexuais que ocorrem em ambientes assépticos, para a suposta salvação da humanidade. Como comentei com mais calma aqui, há algo dessa busca de uma cura através do sexo (por práticas secretas de funcionárias do estado) no caso das virgens vestais da Grécia Antiga. No entanto, nada mais distante do potencial de Virgem para a cura e a fertilidade do que a violência de Estado travestida em um ritual sacro, seja na Grécia ou em Gilead.

Por fim, temos o déspota clássico, o Rei-Sol, o Rei-Leão. Aqui o que impressiona não são as variações modernas da tradição, mas a persistência de manifestações tradicionais em roupagens que são sempre as mesmas. Em Leão, idealmente, a autoconfiança e a autossuficiência geram a admiração pública, mas não têm esse objetivo, até porque a alma leonina se contenta com a contemplação do próprio aspecto régio, não precisa que ninguém o confirme, e por isso mesmo a audiência confirma: reconhece o Rei que merece esse nome. Porém poucos merecem, e é frequente que o caminho para a tirania esteja na própria insegurança do governante, que sente depender de sua imagem de invencibilidade, na qual não acredita de fato, de modo que não se permite nenhuma exposição de fraqueza. Assim ele vem a assumir as medidas mais autoritárias e desproporcionais – isto é, motivadas pela insegurança que não permite ameaça ao seu frágil reinado.

Em Édipo Rei, por exemplo – a tragédia clássica de Sófocles que também já traduzida como Édipo Tirano –, a confiança da população de Tebas é provisoriamente conquistada por Édipo quando ele chega à cidade e soluciona o enigma da esfinge. No entanto, num cenário de novas mazelas, e diante das más notícias e presságios que chegam ao castelo, Édipo se mostra irritadiço, melindroso, e não demora a repetir (para o cego Tirésias, para o cunhado Creonte, para os mensageiros) algumas variações das frases que caracterizam a figura do orgulhoso ditador no arquétipo de Leão. “Cortem-lhe a cabeça”, “expulse o forasteiro”, “destruam-se as provas”: o que importa aqui é menos o ato em si do que o que ele revela a respeito do governante. Ele revela basicamente que o governante está com medo. E um governante leonino pode ser uma beleza de exemplo e inspiração para os que o seguem; mas um governante leonino amedrontado (dá para ver isso inclusive em seus traços, em suas expressões) está a caminho de tornar-se um déspota.

Leão é também um dos signos que tem maior dificuldade em reconhecer a própria sombra. Talvez por isso Édipo só venha a compreender que é ele o assassino violento, o filho incestuoso e a raiz dos males de Tebas diante de um terrível impacto trágico. Toda tirania está sujeita a uma força ou outra que em última instância será o seu fim – nem que essa força seja outro regime despótico, que se coloque em seu lugar. A história da humanidade às vezes parece mesmo ser uma sucessão de tiranias que se distinguem só pelo tipo: há as capricornianas, as escorpiônicas, as virginianas, as leoninas. Mas é perfeitamente possível, pelo menos teoricamente, que cada um desses arquétipos nos ofereça o quem tem de melhor, inclusive no plano político. Como disse, mesmo seus piores gestos só se tornam possíveis por causa das virtudes que têm o potencial de manifestar.

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