astros

Mercúrio e os símbolos

[Frederik de Wit – mapa celestial holandês do século XVII]

Mercúrio ganhou fama pelo movimento aparentemente retrógrado que três vezes por ano sincroniza-se com atrasos e equívocos nos assuntos humanos. Mas, como rege a linguagem e as comunicações, Mercúrio governa também os símbolos, de modo é essencial para o próprio uso da astrologia, embora seja um planeta menos comentado. Uma consulta astrológica é sempre uma nova chance de dar uma forma, uma narrativa ou uma manifestação simbólica àquilo que foi vivido mas nunca atingiu o plano de uma expressão consciente de seus significados e desdobramentos. Ao mesmo tempo, ela oferece uma terminologia capaz de criar novas relações com o que estamos vivendo no momento presente e o que será experimentado num futuro próximo.

Boa parte do papel da astrologia consiste em oferecer símbolos para a experiência. Quando alguém diz que passou ou está passando por um ‘retorno de Saturno’, é ela, a pessoa, que está passando pelo trânsito, mas a consciência disso lhe oferece uma perspectiva nova, de tal forma que ela está também assistindo ao que acontece, observando como Saturno realiza seu retorno através de si, como um personagem de sua história. Quando alguém diz ‘ah, mas minha Vênus em Câncer é assim mesmo’, está dando um símbolo a um aspecto de sua personalidade que consegue ver de maneira destacada das demais, mas isso não quer dizer que este aspecto de fato exista de maneira independente (é a linguagem, no caso a linguagem astrológica, que nos permite vê-lo assim).

Astrólogos não criam nem inventam a relação entre esses planetas, trânsitos e outros aspectos com a personalidade ou a vida das pessoas. Eles os identificam, de acordo com técnicas ao mesmo tempo antigas e sempre renovadas, e com a tecnologia isso vai se tornando uma das partes mais fáceis. O complicado está na maneira como lidamos com a questão da responsabilidade e da culpa a partir dessas descobertas. Dizer que uma pessoa foi ‘vítima’ de um trânsito difícil, em um período depressivo por exemplo, é uma forma de aliená-la de partes importantes da trajetória da sua vida; por outro lado, existe sim um papel para esta separação entre o sofrimento e sua expressão simbólica ou narrativa. Alertar alguém sobre a possibilidade de um momento mais complicado, relacionando-o a um trânsito de Plutão, é oferecer um modo que a pessoa terá de viver e narrar este momento ao mesmo tempo, o que pode torná-lo mais significativo e valioso.

Nada disso nos exime de responsabilidades, muito pelo contrário: ser responsável por mobilizar da melhor forma um Quíron na casa 5, ou por viver verdadeiramente uma oposição de Urano sem causar todo tipo de transtorno à nossa volta, é coisa para caramba. Astrólogos podem oferecer aconselhamento e orientação para que o indivíduo manifeste de maneira consciente esses aspectos de um mapa natal. Isso vai depender também do momento, pois esses componentes do mapa podem ser acionados de maneira mais aguda em determinadas passagens da vida; também por isso, uma consulta assinala os instantes no futuro em que algo de significativo e que permanece em estado de latência pode assumir o primeiro plano na vida de uma pessoa, enquanto outras questões, até então mais impactantes, tornam-se de repente quase irrelevantes. A percepção dessas mudanças é extremante valiosa para que as pessoas se permitam acompanhar mais livremente os fluxos e alterações de foco de sua consciência, uma vez percebida a correlação entre nossas extremas ou inesperadas mudanças de ânimo e a dança dos símbolos cósmicos com que se relacionam. É também tarefa do astrólogo oferecer uma outra linguagem para a narrativa dessas variações, uma linguagem que estabelece correspondências e corresponsabilidades, e não aquela que vê os astros como culpados pelas tristezas e sofrimentos que vivemos nesse mundo.

Os símbolos astrológicos oferecem-se assim como transformadores da experiência (Jung usou esse termo para falar dos símbolos da psicologia analítica). Têm o potencial de transubstanciar os fatos da vida de modo qualitativo e alquímico; nesse sentido terapêutico, vinculam-se ao arquétipo de Virgem. Uma vez deixei aqui um texto cogitando a possível substituição do tradicional regente virginiano por outro astro, como Vesta. No entanto, reconheço que Mercúrio realiza através da linguagem algo muito semelhante ao que as sacerdotisas vestais faziam com os implementos sagrados, cuidando de sua disposição para os rituais de purificação. Da mesma forma como elas transformavam as energias que circulavam nos recintos antigos com o uso de objetos específicos, e eram capazes de converter momentos prosaicos em instantes de reverência, Mercúrio e a astrologia fazem uso de palavras especiais para converter até nossas experiências mais corriqueiras em histórias de planetas, deuses e heróis.

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