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O coaching segundo Quíron

[Doukas Ioannis, Quíron e Aquiles / National Gallery]

Quando minha mulher estava no final da gravidez, recebemos aqui uma pessoa que foi indicada para auxiliar no parto e nos momentos seguintes com o bebê. Não sei como ela se identificava; não era exatamente uma doula; logo percebemos que se tratava de uma espécie de coach. Com retórica voltada para a realização de nossos sonhos, otimização de recursos e dinamização da sinergia do casal, ela nos fez sentir que haveria algo de muito errado com todos os partos que aconteciam sem aquele tipo de auxílio. Era caro. Resolvemos correr o risco de fazer do jeito errado mesmo. Deu tudo certo.

Há algo de errado com esse negócio de coach. Quer dizer, tenho um amigo que é um competente coach de atores há muito tempo, e não merece a má fama que a atividade tem recebido; eu que sou astrólogo sei bem como é isso, com a recente circulação do termo nas páginas de política. Mas temos que reconhecer que, de fato, tanto a astrologia quanto a coachlogia são ramos de uma picaretologia sem limites. Embora não sejam os únicos, é claro. Eu que sou professor universitário e vivo no meio de gente que tem doutorado e tudo vou dizer para vocês uma coisa, ou melhor, nem vou dizer.

Mas não é apenas da incapacidade do coaching, da astrologia e de outras práticas semelhantes para efetivamente ajudar as pessoas que estou falando.  As coisas podem sempre piorar para quem procura esses serviços, e porque elas procuraram esses serviços. O coaching pode sempre criar demandas onde não havia antes, dando a entender que consegue resolver problemas que você nem sabia que tinha. Do mesmo modo, uma pessoa que procura uma consulta astrológica pode sempre acabar sentindo que algo está errado com ela: tipo, os astros estão favoráveis, Júpiter está na sua casa 10 e tudo mais, é você que não está devidamente sincronizado com ele.

Isso acompanha a lógica de sucesso (monetário) do mercado de livros de autoajuda. Primeiro, cria-se a ideia de que a “realização pessoal” é algo muito diferente do que cada um de nós tem ou vive, porém algo que está disponível, basta acreditar para chegar lá (em nós mesmos, nos astros, no coach). Depois, quando a realização pessoal não vem, existem infinitos argumentos para explicar a frustração que foi criada, com destaque para o fato (real) de que nós não acreditamos de verdade, nós tivemos um monte de dúvidas, nós tivemos pensamentos impuros, nós negamos Júpiter três vezes antes do nascer do sol. Enfim, percebemos que nosso pensamento foi “negativo”, e para recuperar o pensamento positivo e a fé em nós mesmos nós precisamos de algo mais – nós precisamos de outro livro, nós precisamos de outra sessão, nós precisamos de outro coach.

Repete-se aí a regra de um ciclo de consumo bem conhecido no mercado editorial. A quem tiver interesse no assunto, recomendo muito a leitura de The Antidote: happiness for people who can’t stand positive thinking, de Oliver Burkeman. Ele estudou esse assunto e esse mercado – incluindo o das palestras motivacionais – para em seguida avaliar algumas alternativas terapêuticas baseadas no “pensamento negativo”, que no final das contas não é nada além do hábito de pensamento oriental de proceder por exclusões: não é isso, não é isso, não é aquilo.

É claro que também o “pensamento negativo” corre sempre o risco de tornar-se uma panaceia de grande êxito corporativo. Aí é hora de pensar: não, não é isso também. Pois ele vai justamente de encontro à ideia de que existe algum problema a ser resolvido, algum problema a ser resolvido com urgência, de que existe algo de fundamentalmente errado conosco e nossas atitudes, que nos impedem de realizar nossos sonhos e alcançar a realização pessoal. Ele diz: gente, a vida é mais ou menos isso aí mesmo que vocês estão vendo. Aguentem, deixem estar, aproveitem quando der.

Mas há como dizer isso de modos muito mais bonitos. As tradições chinesa, indiana e sufista estão cheias de história interessantes para exemplificar. Minha preferida é aquela do discípulo que perguntou a seu mestre qual é o sentido da vida. O mestre ergueu os braços, um pouco escandalizado com a pergunta, e disse: “Mas eu não estou te escondendo nada!”. O rapaz ficou sem entender, e deixou pra lá. Dias depois, ele e o mestre estavam caminhando no campo. Céu azul, vento fresco, barulho de água. O rapaz comentou como o dia estava bonito, agradável, e o mestre respondeu: “Viu como eu não estou te escondendo nada?”.

Que beleza de coach! Queria um desse pra mim. Mas tive duas coisas parecidas: um orientador que, além de guiar meus estudos e minha tese (o orientador é tipo o coach de quem faz doutorado), tornou-se uma pessoa importantíssima na minha vida, embora fosse tudo menos um mestre zen; e uma astróloga-mestra que, diante do meu assombro com o que ela é capaz, me mostrou tudo o que sabia, nunca me escondeu nada, e me fez entender que a astrologia não é uma coisa de outro mundo.

É desse mundo, e por isso mesmo é tão interessante. Hoje, quando faço uma consulta astrológica, boa parte do trabalho é de verificar o mapa da pessoa e dizer: sim, olha esse Saturno aqui, que coisa, olha aquela conjunção ali, que engraçado, pois é, a vida é mais ou menos isso aí que você está vendo, e olha que legal que é. A partir dessa base, dá até para ajudar a pessoa a tomar algumas decisões. Mas não dá pra dizer, nunca, que a astrologia é algo indispensável para a pessoa, e que sem a astrologia vai haver algo de fundamentalmente errado no que ela fizer.

Enfim, acho que andei pensando nisso porque Quíron esteve ativo esses dias. Quíron, para quem não sabe, é um asteroide/cometa que recentemente foi incorporado ao cânone astrológico (escrevi mais sobre ele aqui). Mitologicamente, trata-se de um centauro que foi tutor de Aquiles (“tutor” é tipo um coach na mitologia). Tem uma relação com a cura, e é muito associado ao arquétipo de Virgem, mas tem também um vínculo com Sagitário, não só por ser um centauro, mas também através dessa figura do orientador que ele encarna. Sagitário tem essa função de apontar caminhos, de explorar possibilidades, de dispensar sabedoria. Tem a ver com conhecimento, mas um conhecimento direcionado, em busca de aprimoramento.

Esse meu amigo que é coach tem o ascendente em Sagitário, e isso na minha opinião confere a ele toda a legitimidade. A moça que veio aqui em casa até parecia competente em seu ofício, quem sabe era sagitariana, se não fosse pelo dinheiro talvez a gente tivesse tentado. O fato de ser coach ou parecer coach não desqualifica ninguém, o fato de ser astrólogo ou parecer astrólogo não desqualifica ninguém, e como em qualquer outra profissão não haveria regulamentação ou fiscalização capaz de impedir vários desvios. O fundamental fica mesmo por canta da sensibilidade interpessoal e da ética (nesse caso, a quem tiver interesse, recomendo assistir no youtube a maravilhosa palestra de Robert Hand intitulada Astrology, Morality, and Ethics).

Mas acho também que a moça devia ter consciência de que seu serviço não é imprescindível. Não devia vendê-lo como se fosse indispensável. Uma das coisas que a gente aprende com Quíron e seus representantes ou avatares é que, se muitas coisas nesse não têm remédio nem solução, é porque nunca foram um problema. “Se não está quebrado, não conserte”, diz um provérbio zen. Foi lindo e não teve nada de errado na maneira como foi feito o parto do Gabriel. O que não quer dizer que a gente não pudesse ter aproveitado o conhecimento e a participação de mais uma profissional. Afinal, tem um outro provérbio zen e sagitariano diz assim: “Você é perfeito – mas se você quiser, você pode melhorar um pouquinho”.

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