capricórnio, câncer

Gratidão pelos morros

[Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante]

“Ele olha em direção aos morros, através da porta de vidro e do muro de pedra no fundo do pátio. Tem uma sensação de gratidão, e não sabe direito por quê, talvez seja gratidão pelos morros”. Essa passagem está no primeiro capítulo do Não Diga Noite, um romance do escritor israelense Amós Oz. Sempre achei que há algo de capricorniano nesse personagem, nesse romance, nesse deserto. Porém esse post não é sobre Capricórnio – quer dizer, é também, mas é mais sobre gratidão mesmo. Essa gratidão pelos morros.

É que ontem, quando fui dormir, de madrugada, senti um frio úmido que me fez lembrar a época em que era professor substituto na federal de Ouro Preto, uns nove anos atrás. Mas as semelhanças terminam aí. Naquele tempo eu tinha acabado de me separar, acumulava um monte de dívidas, estava exausto não só de trabalho mas também de ansiedade, e “morava” em um quartinho isolado de uma pequena pousada, que nem sempre tinha cobertores capazes de aguentar o inverno da cidade.

Eu gostava de dar aulas lá, gostava da convivência com os alunos e com a cidade, mas estava longe do meu filho, que ficou morando com a mãe no Rio de Janeiro (essa parte não foi nem um pouco fácil pra ela também). Isso me deixava triste e preocupado. Agora, quando não durmo à noite, é felizmente porque estou perto demais do meu outro filho: perto o suficiente para escutar cada respiração, cada ranhetada, cada início de choro. Minhas dívidas estão pagas, vivo em um apartamento bastante confortável. O filho mais velho chega daqui a pouco para ver o irmão. Mesmo dormindo pouco, só sinto frio no instante antes de me aquecer bem sob as cobertas. Apesar de todo o resto que anda acontecendo no Brasil e no mundo, tenho que reconhecer que para mim no momento as coisas andam bem.

Isso me fez lembrar dois poemas do Raymond Carver, um autor estadunidense, que traduzi um tempo atrás. Outro dia escrevi aqui sobre a dinâmica do conforto e da privação no eixo Câncer-Capricórnio, a maneira como esses dois arquétipos lidam com as dificuldades e o sofrimento (a justa revolta canceriana contra a dor, a estoica aceitação capricorniana das privações da vida), e só agora percebi como o assunto está presente nesses poemas.

Em um deles, “Dádiva”, se sucedem alguns sonhos e imagens de uma noite intranquila e mal dormida. Carver se vê dentro de um avião taxiando pela pista durante uma viagem à Argentina com a mulher. Logo surge a lembrança de uma época anterior, em que morava precariamente em um motel de beira de estrada em Palo Alto. Ele menciona uma manhã em que, sentado na cama do motel, “barbeado”, finalmente conseguiu decidir ligar para um amigo para pedir 75 dólares emprestados (o amigo não tinha o dinheiro).

O poema prossegue com mais uma passagem sobre o avião no lusco-fusco em Buenos Aires, e termina com uma menção ao momento presente, na manhã depois do sono atravessado por essas imagens. Ele está na sala se casa, com a mulher. Ambos olham pela janela; está nevando lá fora. Ele diz a ela que não conseguiu dormir bem; ela diz que ela também não. “Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos / um com o outro, como se percebêssemos / o frágil estado de nervos de cada um. / Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós / não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa. / É sobre o cuidado que estou falando. / Essa é a dádiva que hoje de manhã / me fez levantar da cama e começar o dia. / Como em todas as outras manhãs”.

O segundo poema é mais breve, e se chama “Pantufas” [Slippers]. Fala de uma situação em que ele e a mulher estão procurando um par de pantufas pela casa, e da alegria que sentem ao encontrá-lo. O contraste, no caso, é com a situação de um casal que conhecem e que está prestes a se separar. Os versos repetem a situação de “Iniciantes”, também conhecido como “Do que falamos quando falamos de amor”, o conto mais famoso de Carver. Em “Distância”, outro relato desse mesmo livro, ele trata de um jovem casal que passa a noite acordado por causa de um bebê, da maneira como brigam e se reconciliam abraçando-se e dançando na cozinha na manhã seguinte, e de como o pai conta essa história para filha muitos anos depois, quando ele e a mãe dela já estão separados.

Ou seja: essas cenas cancerianas de felicidade doméstica, de conforto e de conciliação, de entendimento e calor humano, sempre surgem em contraste com o frio lá fora, com as circunstâncias mais difíceis de outras pessoas, com as circunstâncias mais difíceis de outros tempos, com as circunstâncias diferentes do longo prazo, do futuro. É o eixo Câncer-Capricórnio, do aconchego e da privação, dos ciclos lunares e saturninos, em pleno funcionamento.

E é esse contraste que nos faz perceber a importância e o valor de coisas pequenas mas inestimáveis, e de outras nem tão pequenas assim. Entende-se que elas também são transitórias, que os tempos mais fáceis também vão passar para uns, enquanto retornam para outros. Casamentos se desfazem aqui e ressurgem ali, o dinheiro desaparece e volta a entrar. Carver tem uma noção clara desses ciclos, talvez por ter vivido todos esses contrastes em sua vida pessoal.

A poesia do final da sua vida é basicamente sobre a gratidão, no período tranquilo em que ele conseguiu sobreviver a uma série de problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Alguns poemas são quase piegas, pra falar a verdade. Capricórnio odeia piegas; para mim a própria palavra “piegas” é de uma pieguice sem tamanho. Mas às vezes eu gostaria de ser piegas que nem o Raymond Carver.

E agora, num momento em que vejo tantos amigos passando momentos difíceis, exaustos de trabalho e de ansiedade, com medo do futuro, enlutados, queria conseguir ser pelo menos um pouco piegas, para dizer a eles que esses ciclos são verdadeiros e que os bons tempos ainda virão, que as coisas vão melhorar, que a gente vai ser feliz se novo. Eu acredito nisso. Capricórnio odeia ser piegas, mas a gente gosta de ser realista, e isso de que a vida tem essas oscilações é pra mim a realidade.

Lembro que, na pousadinha lá em Ouro Preto, às vezes eu não conseguia dormir, e não tinha o que fazer a não ser sair do quarto um pouquinho. Lá fora dava pra ver algumas montanhas de Minas. Acho que já disse isso antes, mas, além de capricorniano, sou mineiro. Tenho uma amiga que disse que isso nem devia ser permitido, mas agora que já nasci tá valendo. Então, mesmo com todos os problemas, era bom ver aquelas montanhas, estar perto delas, sentir que elas estavam ali, imóveis, perenes, silenciosas.

Mas, aqui em casa, quem é especialista nesse sentimento de pertencimento à terra natal é minha mulher, que é mineira e canceriana (permitiram isso também). De minha parte, acabei deixando as montanhas pra trás, sem muito remorso nem sentimentalismo. Se agora lembro daqueles morros, e sinto gratidão por eles, é porque sem eles – e sem aquele momento da minha vida – eu dificilmente saberia como esse momento de agora é bom, porque eles me fizeram entender alguns ciclos, porque tudo que me acontece hoje de certa forma já estava lá.

Sem o frio que senti naquela época, eu não saberia como está quentinho aqui agora. Uma coisa nem existe sem a outra. Então, o Gustavo que levantava no meio da noite naquele quartinho de pousada para olhar as montanhas está olhando para esse que está aqui agora. Nós nos reconhecemos, tristes, capricornianos, mineiros. Mas estamos sorrindo.

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