capricórnio, câncer

Gratidão pelos morros

[Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante]

“Ele olha em direção aos aos morros, através da porta de vidro e do muro de pedra no fundo do pátio. Tem uma sensação de gratidão, e não sabe direito por quê, talvez seja gratidão pelos morros”. Essa passagem está no primeiro capítulo do Não Diga Noite, um romance do escritor israelense Amós Oz. Sempre achei que há algo de capricorniano nesse personagem, nesse romance, nesse deserto. Porém esse post não é sobre Capricórnio – quer dizer, é também, mas é mais sobre gratidão mesmo. Essa gratidão pelos morros.

É que ontem, quando fui dormir, às cinco e meia da manhã, senti um frio úmido que me fez lembrar a época em que era professor substituto na federal de Ouro Preto, uns nove anos atrás. Mas as semelhanças terminam aí. Naquele tempo eu tinha acabado de me separar, acumulava um monte de dívidas, estava exausto não só de trabalho mas também de ansiedade, e “morava” em um quartinho isolado de uma pequena pousada, que nem sempre tinha cobertores capazes de aguentar o inverno da cidade.

Eu gostava de dar aulas lá, amava os alunos (se alguém estiver lendo: love u), mas estava longe do meu filho, que ficou morando com a mãe no Rio de Janeiro. Essa parte não foi nem um pouco fácil pra ela também. Agora, em 2019, quando não durmo à noite, é felizmente porque estou perto demais do meu outro filho: perto o suficiente para escutar cada respiração, cada ranhetada, cada início de choro. Minhas dívidas estão pagas, vivo em um apartamento bastante confortável. O filho mais velho chega daqui a pouco para ver o irmão. Mesmo dormindo pouco, só sinto frio no instante antes de me aquecer bem sob as cobertas. Apesar de todo o resto que anda acontecendo no Brasil e no mundo, tenho que reconhecer que para mim as coisas andam bem.

Isso me fez lembrar dois poemas do Raymond Carver, um autor estadunidense, que traduzi um tempo atrás. Vou deixá -los aqui no final desse post. Outro dia escrevi sobre a dinâmica do conforto e da privação no eixo Câncer-Capricórnio, a maneira como esses dois arquétipos lidam com as dificuldades e o sofrimento (a justa revolta canceriana contra a dor, a estoica aceitação capricorniana das privações da vida), e só agora percebi como o assunto está presente nesses poemas.

Em um deles, se sucedem alguns sonhos e imagens de uma noite intranquila e mal-dormida. Carver se vê dentro de um avião taxiando pela pista durante uma viagem à Argentina com a mulher. Logo surge a lembrança de uma época anterior, em que morava precariamente em um motel de beira de estrada em Palo Alto. Ele menciona uma manhã em que, sentado na cama do motel, “barbeado”, finalmente conseguiu decidir ligar para um amigo para pedir 75 dólares emprestados (o amigo não tinha o dinheiro).

O poema prossegue com mais uma passagem sobre o avião no lusco-fusco em Buenos Aires; termina com uma menção ao momento presente, na manhã depois do sono atravessado por essas imagens. Ele está na sala se casa, com a mulher. Ambos olham pela janela, está nevando lá fora. Ele diz a ela que não conseguiu dormir bem, ela diz que ela também não. “Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos / um com o outro, como se percebêssemos / o frágil estado de nervos de cada um. / Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós / não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa. / É sobre o cuidado que estou falando. / Essa é a dádiva que hoje de manhã / me fez levantar da cama e começar o dia. / Como em todas as outras manhãs”.

O segundo poema é mais breve. Fala de uma situação em que ele e a mulher estão procurando um par de pantufas pela casa, e da alegria que sentem ao encontrá-lo. O contraste, no caso, é com a situação de um casal que conhecem e que está prestes a se separar. Os versos repetem a situação de “Iniciantes”, também conhecido como “Do que falamos quando falamos de amor”, o conto mais famoso de Carver. Em “Distância”, outro relato desse mesmo livro, ele trata de um jovem casal que passa a noite acordado por causa de um bebê, da maneira como brigam e se reconciliam abraçando-se e dançando na cozinha na manhã seguinte, e de como o pai conta essa história para filha muitos anos depois, quando ele e a mãe dela já estão separados.

Ou seja: essas cenas cancerianas de felicidade doméstica, de conforto e de conciliação, de entendimento e calor humano, sempre surgem em contraste com o frio lá fora, com as circunstâncias mais difíceis de outras pessoas, com as circunstâncias mais difíceis de outros tempos, com as circunstâncias diferentes do longo prazo, do futuro. É o eixo Câncer-Capricórnio, do aconchego e da privação, dos ciclos lunares e saturninos, em pleno funcionamento.

E é esse contraste que nos faz perceber a importância e o valor de coisas pequenas mas inestimáveis, e de outras nem tão pequenas assim. Entende-se que elas também são transitórias, que os tempos mais fáceis também vão passar para uns, enquanto retornam para outros. Casamentos se desfazem aqui e ressurgem ali, o dinheiro desaparece e volta a entrar. Carver tem uma noção clara desses ciclos, talvez por ter vivido todos esses contrastes em sua vida pessoal.

A poesia do final da sua vida é basicamente sobre a gratidão, no período tranquilo em que ele conseguiu sobreviver a uma série de problemas de saúde decorrentes do alcoolismo. Alguns poemas são quase piegas, pra falar a verdade. Capricórnio odeia piegas; para mim a própria palavra “piegas” é de uma pieguice sem tamanho. Mas às vezes eu gostaria de ser piegas que nem o Raymond Carver.

E agora, num momento em que vejo tantos amigos passando momentos difíceis, exaustos de trabalho e de ansiedade, com medo do futuro, queria conseguir ser pelo menos um pouco piegas, para dizer a eles que esses ciclos são verdadeiros e que os bons tempos ainda virão, que as coisas vão melhorar, que a gente vai ser feliz se novo. Eu acredito nisso. Capricórnio odeia ser piegas, mas a gente gosta de ser realista, e isso de que a vida tem essas oscilações é pra mim a realidade.

Lembro que, na pousadinha lá em Ouro Preto, às vezes eu não conseguia dormir, e não tinha o que fazer a não ser sair do quarto um pouquinho. Lá fora dava pra ver algumas montanhas de Minas. Acho que não disse isso antes, mas, além de capricorniano, sou mineiro. Tenho uma amiga que disse que isso nem devia ser permitido, mas agora que já nasci tá valendo. Então, mesmo com todos os problemas, era bom ver aquelas montanhas, estar perto delas, sentir que elas estavam ali, imóveis, perenes, silenciosas.

Mas, aqui em casa, quem é especialista nesse sentimento de pertencimento à terra natal é minha mulher, que é mineira e canceriana (permitiram isso também). De minha parte, acabei deixando as montanhas pra trás, sem muito remorso nem sentimentalismo. Se agora lembro daqueles morros, e sinto gratidão por eles, é porque sem eles – e sem aquele momento da minha vida – eu dificilmente saberia como esse momento de agora é bom, porque eles me fizeram entender alguns ciclos, porque tudo que me acontece hoje de certa forma já estava lá.

Sem o frio que senti naquela época, eu não saberia como está quentinho aqui agora. Uma coisa nem existe sem a outra. Então, o Gustavo que levantava no meio da noite naquele quartinho de pousada para olhar as montanhas está olhando para esse que está aqui agora. Nós nos reconhecemos, tristes, capricornianos, mineiros. Mas, por um momento, ainda assim, estamos sorrindo.


CUIDADO

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Uma chuva fina começou a cair durante a noite. Gotas

minúsculas escorrendo pela janela, a chuva

cobrindo o horizonte. Observei por um tempo, deitado

na cama. Feliz por estar aqui, e em nenhum outro lugar.

Tinha esfriado. Ajustei o aquecedor, cobri seu ombro.

E voltei para a cama, fechando os olhos em seguida.

Mas por alguma razão, antes de voltar a dormir,

me lembrei de uma cena no aeroporto de Buenos Aires

na noite em que deixamos a cidade.

Como o lugar estava deserto e parado!

Totalmente quieto, exceto pelo som de nossas turbinas

enquanto o avião colocava-se em movimento

taxiando para a pista de decolagem sob a chuva fina.

As janelas do edifício do aeroporto estavam escuras.

Ninguém por perto, nem mesmo uma equipe de solo.

“É como se o lugar inteiro estivesse de luto”, você disse.

Abri os olhos. Por sua respiração

Percebi que você dormia profundamente. Da Argentina

minha memória me levou para um lugar

em que morei por um tempo em Palo Alto. Não chovia nunca

em Palo Alto. Mas eu tinha um quarto

com duas janelas de frente para a estrada de Bayshore.

Uma geladeira ficava ao lado da cama.

Quando eu ficava desidratado no meio da noite

tudo o que eu tinha que fazer para matar a sede

era esticar o braço e abrir a porta. A luz lá dentro

mostrava o caminho para uma garrafa de água gelada.

Havia uma panela e um ebulidor no banheiro.

Enquanto eu me barbeava, a água fervia

ao lado de um pote de café.

Uma manhã eu estava sentado na cama, vestido, barbeado,

tomando café, adiando o que tinha decidido fazer. Finalmente,

disquei o número de Jim Houston em Santa Cruz.

E pedi 75 dólares emprestados. Ele disse que não tinha.

A mulher dele tinha ido para o México naquela semana.

Ele simplesmente não tinha o dinheiro. Andava apertado

naquele mês. “Tudo bem”, eu disse. “Eu entendo”.

E eu entendia. Nós conversamos um pouco mais,

e então desligamos. Ele não tinha o dinheiro. Terminei

o café mais ou menos enquanto o avião decolava.

Me virei no assento para uma última olhada

nas luzes de Buenos Aires. Então fechei os olhos

para a longa viagem de volta.

Esta manhã uma neblina cobriu tudo. Nós falamos sobre isso.

Você me diz que não dormiu bem. Eu digo

que também não. Você teve uma noite terrível. “Eu também”.

Nós estamos extraordinariamente calmos e cuidadosos

um com o outro, como se percebêssemos

o lamentável estado de espírito de cada um.

Como se um soubesse o que o outro está sentindo. Nós

não sabemos, é claro. Nós nunca sabemos. Mas não importa.

É sobre o cuidado que estou falando.

Essa é a dádiva que hoje de manhã

me fez levantar da cama e começar o dia.

Como em todas outras as manhãs.


PANTUFAS

Raymond Carver (trad. Gustavo Naves)

Quatro de nós conversando naquela tarde.

Caroline contando seu sonho. Como uma noite

ela acordou latindo. E com seu cachorrinho, Teddy,

assistindo tudo ao lado da cama. O homem

que era o marido dela na época também estava lá

enquanto ela contava o sonho.  Ouvia atentamente.

Até sorriu.  Mas havia algo em seus olhos. Um jeito de olhar,

e um semblante. Todos nós já passamos por isso…

Na época ele já estava apaixonado por uma mulher

chamada Jane, embora este não seja um juízo

sobre ele, ou Jane, ou qualquer outra pessoa.

Todos passaram a contar um sonho.

Eu não tinha nenhum para contar.

Olhei para seus pés, recolhidos sobre o sofá,

de pantufas.  Tudo que pude pensar em dizer,

mas não disse, foi em como aquelas pantufas

ainda estavam quentes

na noite em que as peguei

onde você as tinha deixado.

Mas uma colcha caiu e deixou-as cobertas

durante a noite. Na manhã seguinte,

você as procurou por todos os lados.

Até que sorriu e disse, “Achei!”

É uma coisa simples, eu sei, e entre nós.  Ainda assim

é uma coisa importante. Aquelas pantufas perdidas. E

aquele sorriso alegre.

Tudo bem que aconteceu

um ano ou mais atrás. Poderia ter sido ontem,

ou anteontem. Qual a diferença?

alegria, e um sorriso.

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