capricórnio, câncer

Saudade e melancolia

[Édouard Manet – Un bar aux Folies-Bergère]

Câncer e Capricórnio. Quando me sugeriram um texto sobre esses dois pensei que a maior dificuldade seria o recorte. Trata-se de um eixo de opostos complementares onde acontece a conexão de algumas dualidades importantes: a memória e a história, a família e o estado, a pátria e a nação, a vida comunitária e a ordem social, o afeto e a responsabilidade. Mas não tinha me tocado ainda de que o maior problema seria de ordem pessoal. Sou capricorniano, casado com uma canceriana, e falar sobre a interação desses dois arquétipos será sempre falar sobre meu casamento, ou pelo menos a partir dele.

Agora talvez mais do que nunca. Porque com o nascimento do Gabriel nós nos tornamos uma mãe canceriana e um pai capricorniano (tradicionalmente, o elemento materno e o paterno estão no eixo Câncer-Capricórnio). E embora a gente não corresponda à imagem estereotípica dessa combinação – cá está o “pai capricorniano” falando de assuntos domésticos num blog sobre astrologia, enquanto a mãe aproveita a soneca do bebê para revisar um artigo sobre questões militares para ser publicado na Cambridge University Press ou algo parecido –, nós, de fato, vestimos a carapuça do arquétipo em alguns aspectos. Ou em muitos, na verdade. O difícil, de novo, é escolher.

Mas anteontem passamos por um desses momentos importantes e decisivos de um casal cuidando de um recém-nascido: as primeiras cólicas. E, naquele momento, acho que fui totalmente capricorniano, e ela, a verdadeira encarnação de Câncer. Não é que eu tenha sido ríspido ou impaciente, e ela excessivamente sentimental; as coisas são mais interessantes e sutis do que isso. A questão é que, enquanto ela se desdobrava em pesquisas e consultas para tentar resolver o problema, eu adotava a postura de quem já viu isso antes, e não vê outra solução que não seja deixar passar.

De fato, já vi isso antes, porque já tive outro filho. Mas faz tempo, e é bem possível que tenha mantido a mesma postura impassível na primeira vez. Aliás, poucas coisas irritam mais o não-capricornianos do que essa nossa tendência manter um certo ar de que está “tudo sob controle” durante a catástrofe, mesmo quando não tem nada sob controle. No caso, não havia; vocês sabem do que estou falando; aquele momento em que a criaturinha mal chegada da maternidade mostra que é capaz de despertar a vizinhança inteira se quiser. E o pai capricorniano lá, plácido e impassível, achando até bonita aquela expressão das forças elementares da natureza no processo de evolução orgânica de um corpo saudável.

Não sei quem é mais maluco, se eu ou ela que achou que ia resolver o assunto com uma massagenzinha milagrosa que descobriu em um canal do youtube (malucos somos todes, é claro). O ponto aqui não é quem tem razão, mas a base de cada uma desses sentimentos e atitudes. Pois creio que, no caso de Câncer, ela está em sua capacidade de considerar a dor algo extraordinário e inaceitável, motivo de revolta inclusive, uma vez que seu vínculo com uma sensação uterina de bem-estar no mundo é imediato, sua lembrança do conforto é recente, e, portanto, o rompimento com esse estado só pode ser visto com assombro (e com a urgência de revertê-lo). Enquanto em Capricórnio o conforto e o bem-estar são apenas reminiscências distantes, incluindo aí o calor humano da família e do lar.

A cabra vive em um território áspero e seco, longe do convívio com os outros bichos. Fatalista, aprendeu a tolerar alguns sofrimentos que considera inevitáveis. E além disso vê o mundo de cima, em uma perspectiva panorâmica que retira singularidade dos objetos e dos fenômenos, reunindo-os em um mesmo conjunto de coisas e acontecimentos. Sua melancolia decorre do sentimento de que não há nada de novo sobre a terra; de que tudo já foi vivido, experimentado, pensado; de que os ciclos se repetem com a força dos ritmos geológicos e planetários, e há pouco que se possa fazer para evitá-los, o jeito é aguentar.

Já do ponto de vista do caranguejo, tudo conta; cada mínimo episódio de sua existência é insubstituível; nada daquilo voltará a acontecer tal como aconteceu, quando aconteceu, onde aconteceu. A saudade canceriana é pungente porque carrega o sentimento de que algo único foi perdido, e pode ser dilacerante quando nela se dá a imprevista percepção do irremediável. Não há argumentos, por mais inteligentes que sejam, que façam Câncer alcançar o ponto de vista da cabra, primeiro porque a inteligência tem muitas faces, e segundo porque vão ser sempre argumentos, contra os quais ele apresentará os fatos de nossa humana condição.

Marcel Proust era canceriano. Em Busca do Tempo Perdido é um título canceriano até demais. Não surpreende que seja um portentoso empreendimento literário de recuperação das sensações mais efêmeras, dos momentos mais prosaicos, das situações mais singulares da vida do narrador – sempre ostentando seu fracasso em reverter a trágica perda de todas as coisas passadas, na medida em que prossegue nos sete volumes de seus sucessos poéticos. Franz Kafka também era canceriano, mas no seu caso, como sempre em Kafka, a questão é aquilo que não está lá: a felicidade doméstica, o pertencimento a um lugar, o conforto em família. Primeiro Amor e Outras Tristezas, de Harold Brodkey, é outro belíssimo livro sobre a perda, cujo título e cujos contos estão no âmbito do arquétipo de Câncer.

Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, obviamente, é um romance capricorniano, assim como são todos esses caudalosos relatos que tratam da passagem do tempo e da transitoriedade das coisas, sem deixar de lembrança nenhuma passagem ou paisagem específica, mas uma melancólica sensação de entrega do indivíduo e seus anseios às forças do inevitável. Seria possível estender essa lista caudalosamente – mas acho que já deu para ter uma ideia.

O ponto mais importante, aqui, é como essas inclinações interagem. A saudade canceriana e seus sentimentos de perda podem envolver doses justificáveis de choro, mas os excessos de drama podem se beneficiar de certa resignação. Já a melancolia de Capricórnio explica em parte sua fama de insensível, mas, sempre que ele se distanciar para platitudes muito ermas, será válido dar uma sacudidela em suas emoções mais imediatas. Um beliscão no braço basta para ele perceber que a dor humana é real, e cada episódio de sofrimento merece nossas atenções e cuidados, por mais transitório que possa ser.

Enfim, a massagenzinha do youtube até que funcionava, ajudou um pouco, nem que fosse pela sensação de que nós estávamos “fazendo alguma coisa” (quem quiser passo o link). Agora, continuo achando que cólica de bebê às vezes não tem remédio mesmo, o jeito é manter a calma e esperar passar. Câncer e Capricórnio são bons exemplos de signos que funcionam bem quando a oração da serenidade é evocada: “Deus me dê coragem para mudar as coisas que posso mudar, paciência para aceitar as que não posso, e sabedoria para saber a diferença”. Coragem. Paciência. Sabedoria. Se a gente conseguir reunir um pouquinho de cada uma dessas virtudes, as cólicas vão passar quando tiverem que passar, vão ser remediadas quanto tiverem remédio, e o Gabriel estará bem.  

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