cosmológicas

Eclipses

Deus criando a Lua e o Sol (1649) | Rafael

Sempre fui fascinado por eclipses. Em um caderno de minha adolescência tem uma anotação/poema que diz assim: “Em dias de chuva, faço sol. Em dias de sol, faço versos. Em dias de versos, eclipses”.

Depois, ao encanto, somou-se a constatação de que eclipses são tão exatos por causa de uma esplêndida coincidência: o Sol e a Lua têm o mesmo tamanho vistos da Terra porque a Lua é 400 vezes menor que o Sol, e o Sol está 400 vezes mais distante.

Acho que a única explicação científica para isso que já foi levantada é a do princípio antrópico. Segundo ele, por algum motivo ainda desconhecido, o fenômeno seria necessário para a existência de vida em um planeta, e, portanto, se estamos aqui para fazer a pergunta, isso já é uma resposta.

É o mesmo princípio que justifica a hipótese dos multiversos. Implica que nosso universo não é o único possível, mas que ele reúne condições muito específicas para existência de planetas e estrelas e constelações harmoniosamente dispostos, e portanto para a existência de um sistema solar como o nosso.

E a Lua que temos, do tamanho que tem, na posição em que está, é indispensável para a existência da vida em nosso planeta. Tanto quanto as constelações, tanto quanto o inteiro universo. Não estou nem falando do aspecto simbólico ou poético. Estou falando de uma questão de equilíbrio mesmo.

Pelo menos assim afirmam os autores do livro Terra Rara, tal como citado por Marcelo Gleiser: “A vida multicelular complexa depende de fatores muito específicos – mesmo se todas as condições químicas forem satisfeitas – para ser comum. Um deles é a existência de uma lua grande. Com exceção de Mercúrio, todos os planetas do sistema solar giram em torno de si mesmos como piões inclinados a um certo ângulo. Se a Terra não tivesse a Lua, sua inclinação de 23,4 graus com relação à vertical variaria caoticamente, com consequências desastrosas para vida complexa” (em Criação Imperfeita, p. 323).

Não deixa de ser irônico que a mesma Lua que mantém a Terra no prumo seja aquela que nos tira dos eixos, uma vez por mês pelo menos. A não ser que você seja do tipo que – como diz o poeta – não muda quando é Lua Cheia (“vamos pedir piedade, Senhor piedade, pra essa gente careta e covarde”).

Por mais que nossos telescópios e sondas evoluam, então, vai ser difícil encontrar em outro lugar as condições que encontramos aqui. Ainda assim, isso não diz nada sobre a equivalência de tamanho da Lua e o Sol vistos da Terra. O princípio antrópico aplicado aqui supõe que por algum motivo isso é necessário para a vida complexa, mas não sabemos qual.

Talvez seja só um coincidência mesmo. Nesse caso, vai ser difícil é encontrar outro planeta com detalhes charmosos como este.

E que coincidência, né? Tenho um amigo que diz que isso deve ser um pequena sacanagem que o universo fez só pra passar a impressão de que as coisas aqui fazem algum sentido.

Herman Melville desenvolveu um argumento semelhante no capítulo XLIX de Moby Dick: “Há certas circunstâncias e ocasiões bizarras neste estranho e caótico negócio que chamamos de vida nos quais um homem considera todo o universo uma grande piada” [ou uma practical joke, no original].

O universo como pegadinha. Parece até título de tese. O universo como pegadinha: a equivalência de tamanho relativo da Lua e do Sol como indício da natureza ardilosa do cosmos.

No entanto, a navalha de Occam (a explicação para qualquer fenômeno deve assumir a menor quantidade de premissas possível) parece claramente privilegiar outra explicação que me deram esses dias. Essas coisas que os astrofísicos às vezes ignoram até porque são evidentes demais.

Nesse caso em particular dos eclipses, pelo menos, o negócio é tão perfeito, tão exato, que é como se quem fez tivesse uma espécie de meticulosa e detalhista obsessão pelo melhor ordenamento do cosmos.

É simples, é claro, é óbvio.

Deus é virginiano.

2 comentários sobre “Eclipses

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