capricórnio

Relaxa, Capricórnio

[THE GOOD PLACE – Foto de Colleen Hayes/NBC]

Quando comecei esse blog, eu disse que publicaria um texto novo a cada domingo, além de deixar aqui outros que já tinha escrito antes. Mas acho que ninguém espera que eu cumpra essa promessa, e ninguém fica aguardando a publicação dos textos inéditos, pelo menos não em dias específicos. Então seria de se imaginar que agora – em meio a uma intensa rotina conjunta de troca de fraldas, acompanhamento do ritmo de mamadas, e especialização strictu sensu em arrotos e movimentos peristálticos afins – eu me permitisse não cumprir essa promessa. Com certeza, ninguém, ninguém mesmo, ia reclamar se eu deixasse passar esse domingo. E, no entanto, aqui estou eu.

Acontece que eu sou capricorniano, gente. E, se você é capricorniano e assumiu um COMPROMISSO, se você é capricorniano e tem uma RESPONSABILIDADE, se você á capricorniano e tem um DEVER A CUMPRIR, não importa que ninguém mais no mundo esteja lá para fiscalizar se você vai ou não fazer isso. Você está. O problema não é que venham a te cobrar pela omissão, ou que a gente corra o risco de perder o emprego por causa de um lapso. O problema é que a gente sente que algo de muito terrível pode acontecer com a tessitura do universo se a gente relaxar.

Capricornianos têm, sim, uma espécie de identificação megalomaníaca com a divindade. Mas o engraçado é que o Deus capricorniano não é o Criador – esse está em Leão –, mas uma espécie de Grande Gerente do cosmos, que tem a função de supervisionar o bom andamento de todas as coisas para que nada se rompa ou se deteriore. Eu mesmo, que, Capricórnio típico, sou diretor de uma unidade de ensino federal, durante minha licença paternidade agora não deixo de ficar stalkeando contas de e-mail institucionais e grupos de alunos lá da faculdade para conferir se está tudo bem. Não é que me considere insubstituível, não é que eles precisem de mim o tempo inteiro. É que se acontecer alguma coisa errada a culpa vai ser MINHA – e isso pode fazer com que saia TUDO do lugar.

Outro dia eu estava assistindo uma série que a primeira temporada se passa em uma espécie de paraíso, e esse paraíso é tipo um subúrbio americano de casinhas simpáticas e pessoas felizes, gerado por uma espécie de programa de computador. Aí nessa série – chama-se The Good Place – tem um senhor que é meio que um Deus, meio que um arquiteto, e meio que um gerente responsável por tudo aquilo dar certo. Então há um episódio em que um bug na programação faz abrir um buraco nos fundos de uma das casas da vizinhança, e ele sai correndo desesperado para resolver o assunto. Naquela hora tive uma revelação: Deus é capricorniano, pensei. Não qualquer Deus, mas sim esse que vive o inferno de ter que cuidar de cada pequeno detalhe do funcionamento da área de abrangência  de sua deusice.

E ainda tem o fato de que o tal Deus da série era um [trecho censurado pela World Spoiler Police], no final das contas. Nada mais significativo, se estamos falando dessa tendência capricorniana ao gerenciamento do mundo ao redor. Não tem quem aguente; é um flagelo do capeta, eu sei. Mas sei também que é difícil ser capricorniano, sobretudo quando você percebe que o mundo ao redor nem de longe dá a mesma importância que você a promessas e compromissos, e que quando as pessoas perdem um prazo de um trabalho, ou chegam atrasadas para um encontro, não é só o trabalho ou o encontro que sofrem com isso: é o cosmos que de repente se encontra sob a mais grave ameaça de dissolução.

É muito difícil ser capricorniano no Rio de Janeiro, principalmente. Eu pelo menos precisei de um longo período de adaptação para incorporar alguns hábitos e abrir mão de algumas expectativas. Por exemplo: quando as pessoas aqui dizem “a gente se fala”, para o capricorniano isso é o suficiente para sacramentar o dever de se falar em um futuro próximo; quando alguém diz “passa lá em casa depois”, isso já configura um convite formal com peso suficiente para exigir uma resposta adequada. E, pior ainda, quando o capricorniano responde “passo sim”, não é só educação ou retórica rotineira, mas uma declaração solene de que o compromisso de se passar na casa do outro foi assumido, acompanhado da convicção de que ninguém mais vai dormir se isso não acontecer de verdade.

Mas nesse ponto, como disse, já me adaptei. Acho que todo mundo aqui se adaptou. Sério, nem sei se existe capricorniano no Rio. Mas, sério também: acho que consigo admirar esse modo de ser, em suas diferentes manifestações no globo terrestre. Por exemplo. Uma vez eu estava na casa de uma amiga argentina, e ela tinha chamado a mãe para ajudá-la com uma faxina, e aí a mãe chegou, sentou na mesa da sala e ficou falando de milhões de outros assuntos, sem se mexer para pegar um balde ou uma vassoura. Lá pelas tantas, minha amiga reclamou: “Mas, mãe, você disse que vinha ajudar na faxina, e não fez nada ainda…” A mãe respondeu: “Ah, minha filha, isso de ajudar foi o que eu te disse ONTEM!”

Todo meu respeito, toda minha admiração por essa mulher. Ela entende que a promessa feita ontem pode ser perfeitamente descumprida hoje – pelo menos no caso de uma faxina. O universo não desmonta por causa disso. Assim como ele não ia desmontar se eu não publicasse um texto aqui hoje. Mas, por via das dúvidas, está feito. A Cal Garrison uma vez me disse que o grande defeito dos capricornianos é que eles acham que sabem de tudo; a grande virtude é que às vezes eles sabem. Vai que esse é um desses momentos virtuosos em que com uma ação enérgica e providencial eu consegui salvar pelo menos o planeta Terra de um desvio irremediável em sua órbita ao redor do Sol. Enfim, querendo ou não, estou mais tranquilo agora – e já posso, tranquilamente, ir lá trocar a próxima fralda.

Um comentário sobre “Relaxa, Capricórnio

  1. Gustavo querido, o texto é perfeito! Inspirado pela rotina das noites insones. Fiquei pensando também que o Rio impõe uma dificuldade especial para o mineiro capricorniano. Porque o mineiro capricorniano é capricorniano duas vezes. É um pleonasmo. Para os capricornianos nativos do Rio ou já adaptados à cidade como você, eu acho que o compromisso passa a ser com a retórica carioca, que garante o bom funcionamento da sociabilidade local. Nosso compromisso passa a ser com que as expressões “a gente se fala” ou “passa lá em casa depois” sejam proferidas na conversa para garantir o bom funcionamento da vida social e, por tabela, do cosmos. Passamos a nos comprometer com a administração do bom funcionamento da retórica das relações, essa passa ser nossa responsabilidade. Mas pode ser também que essa seja a interpretação típica de uma capricorniana com ascendente em libra, rs…

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