áries

Iniciantes

Eu estava no meio de uma aula quando minha mulher ligou dizendo que estava a caminho da maternidade. Algumas horas depois o Gabriel tinha nascido, em um parto imprevisto e antecipado, mas normal, e ao mesmo tempo quase fora da normalidade de tão tranquilo (eu diria até “fácil” se não tivesse sido particularmente fácil para mim, que fiz as vezes de chefe de torcida; mas o ânimo da obstetra e da equipe era de uma genuína descontração, e a Maíra fez o trabalho pesado como se já tivesse parido umas dez vezes antes).

É claro que quando ele nasceu eu já tinha quase todo o mapa astrológico natal dele na cabeça. Faltava o ascendente, que muda rápido, de acordo com a rotação da Terra, passando duas horas em cada signo por dia, uns minutinhos em cada grau. O interessante aí é que a posição exata do ascendente influi em todas as outras posições de um mapa, e é uma espécie de princípio organizador do espaço onde vão se distribuir todas as outras informações. O ascendente é para mim o assunto mais fascinante da astrologia, e se ainda não escrevi em detalhes a respeito é porque me faltou tempo para tentar explicar com calma o porquê.

Assim, depois de ter cuidado de assuntos médicos e de saber que ele estava bem, fui conferir qual era o ascendente dele com curiosidade e expectativa. Mas não imaginava que o resultado seria tão singular, improvável mesmo. Ele tem o ascendente o grau zero de Áries, ou seja, no inicinho do zodíaco, que é outro dos meus temas astrológicos favoritos, que foi inclusive o tema de uma incrível troca de mensagens que tive com a Cal Garrison no começo do ano, de um comentário dela em seu blog sobre essas conversas, e de alguns textos e comentários que publiquei.

Seria de se presumir que com isso a imagem do mapa dele teria ficado completa para mim. Mas é aqui que as coisas ficam mais interessantes. Porque o grau zero de Áries é fascinante exatamente porque ele é o ponto do zodíaco do qual nada pode ser dito além do fato de que ali as coisas começam. O que começa, como começa, para onde vai, nada disso importa. É a própria ideia de início que está implicada. E, com ela, a liberdade, pois tudo o que realmente se inicia – ou seja, tudo o que nasce – é livre para tornar-se algo novo, algo que nunca antes veio a ser (a Hannah Arendt fala bastante disso em A Condição Humana).

Qualquer leitura de um mapa astral responde a perguntas que fazemos a ele. Nesse caso, à pergunta sobre “como será o meu filho”, o mapa dele respondeu: você não faz ideia, você não tem como saber. Ele entrou no mundo através de um portal muito específico, que existe durante quatro minutos a cada dia, e que enfatiza o aspecto inédito de cada existência. Um dos motivos pelos quais o ascendente é um ótimo assunto está no fato de que ele está sempre relacionado ao nascimento, à liberdade e à espontaneidade criativa do cosmos; para todo mundo ele é esse portal. Mas, no caso do Gabriel, a coincidência do ascendente com o grau zero de Áries enfatiza que sua liberdade – inclusive perante todos os demais símbolos astrológicos – é absoluta e inegociável.

Em um texto no Facebook sobre Quíron, que ainda vou republicar aqui, escrevi o seguinte no começo do ano: “Quíron está entrando no grau zero de Áries, o local onde aquilo que desconhecemos se inicia”. Em outro texto, sobre o arquétipo de Áries, que já está no blog, comentei o seguinte: “O éden de Áries não é um lugar; é um gesto, um momento de independência e libertação. Mesmo que nos leve ao desconhecido, mesmo que cause incerteza, será preferido a qualquer sensação de segurança que exista às custas da verdadeira vida”. É engraçado perceber agora que de certa forma eu estava escrevendo para mim mesmo, para esse pai que, agora, querendo ou não, estava em busca de alguma previsibilidade e segurança, ao montar o mapa astral do filho na cabeça antes mesmo do parto, para depois arrematá-lo com um dado que desmontava toda a construção anterior.   

Sem dúvida, o que temos aqui em casa agora – essa criaturinha que grita, chora, mama, dorme, quase ri – é a verdadeira vida. Uma vida iniciante inclusive nas artes da respiração, com pais que precisam aprender e reaprender tanta coisa que é como se estivessem eles próprios no princípio de tudo. Os dias vão passando e eu certamente voltarei a olhar para o mapa de meu filho tentando identificar traços de sua personalidade, de seu destino, de suas vidas passadas. Mas esse ascendente no grau zero de Áries estará sempre lá, para me lembrar que que tudo está sujeito à contínua renovação, de que não sabemos de nada com certeza e segurança, e de que estamos sempre apenas no começo.

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