sagitário

Sagitário não faz sentido

Sagitário é a constelação que está alinhada com o centro da Via Láctea, da perspectiva da Terra. Às vezes me pego pensando se isso tem algum significado. Parece fazer sentido que a seta do centauro esteja apontada para a fonte emissora de ondas de rádio situado no núcleo galáctico, que foi adequadamente chamada de Sagittarius A* pelo astrônomo Robert Brown (a fonte de rádio era ‘excitante’, e o asterisco é usado para indicar átomos em estado de excitação).

Parece fazer sentido. Não dá para saber se faz mesmo – mas o interessante é que a questão, ela própria, é sagitariana. A busca pelo significado das coisas e de suas relações encontra-se nesse arquétipo, com ênfase na procura e na exploração, não necessariamente nos próprios significados já obtidos. O sagitariano que alcance um ponto de vista privilegiado no alto de uma montanha vai sempre querer chegar ao cume da montanha seguinte, continuando o movimento que foi tão revitalizante da primeira vez. O que ‘faz sentido’ é a busca pelo sentido, e pela visão mais abrangente do mundo ao redor.

Há quem diga que o ser humano foi uma maneira que o universo encontrou de contemplar a si mesmo. Já no caso da mente sagitariana, creio que foi uma maneira que o universo encontrou de significar a si mesmo, criando relações onde há distâncias, depois que tudo se espalhou em um imenso e vertiginoso carrossel de estrelas, galáxias e planetas. Isso presume um movimento constante de ampliação do conhecimento disponível. A contemplação pura e simples não basta – haverá sempre algo além do que a vista alcança, mas que o corpo e o espírito podem ainda conquistar.

Por isso, em Sagitário, há também quem viaje compulsivamente, quem leia compulsivamente, quem discuta compulsivamente, sempre em busca do conhecimento, da expansão e da excitação que essas experiências oferecem. No entanto, onde de fato há uma dinâmica compulsiva, existe o risco de que ela se sobreponha a uma ‘falta de sentido’ da vida que precisa ser experimentada de vez em quando. Nem tudo precisa ter um significado, nem tudo precisa ter um motivo, nem tudo precisa ter um propósito. Às vezes respiramos o ar da montanha só por respirar.

Acho que por isso existe uma relação de Sagitário com a depressão, ou com a sensação aguda de que as coisas no mundo ‘perderam o sentido’. Pode parecer estranho, em se tratando de um arquétipo tão carismático e luminoso, mas uma coisa tem a ver com a outra. Não é que sagitarianos sejam mais deprimidos; é que os temas que surgem em seu espectro criam condições para essa experiência, e que em Sagitário (ou, com frequência, em trânsitos difíceis na casa 9 de um mapa astrológico) ela segue uma dinâmica específica.

Pensemos, por exemplo, em como as viagens internacionais são um tema sagitariano. É comum que as pessoas tenham agudas crises de depressão justamente durante viagens internacionais. De repente, nada faz sentido: essas ruas, essa língua, essas pessoas.  Justamente quando o mundo se expande criando a possibilidade de inúmeras novas conexões, tudo parece desconectado, e a gente parece desconectado do mundo, transformado em um amontoado de coisas sem razão e sem propósito.

São episódios difíceis inclusive por seu caráter totalmente inesperado. Todos os arquétipos de fogo podem estar relacionados à depressão (em Áries está a energia vital, em Leão está o prazer com a vida); mas é em Sagitário que a última fronteira da motivação para a existência parece ser atingida, e dá-se o golpe fatal no ânimo e na alma, pois envolve a questão do sentido. Por outro lado, sagitarianos são particularmente capazes de se recuperar gloriosamente desses episódios, ressurgindo com esplendor como se nada tivesse acontecido. Ou melhor: como se o nada tivesse acontecido. Porque é por aí mesmo, o nada aconteceu.

Estamos falando de um momento vazio, em que prevaleceu uma sensação hamletiana, de que “vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Uma espécie de intervalo do não-ser entre dois momentos de ser. Ao contrário, por exemplo, das crises de Escorpião, que implicam morte, transformação e renascimento (em Escorpião a crise tem um propósito, ela própria é dotada de sentido), aqui estamos diante de algo como um vagalume que volta brilhar com a mesma luz após um instante de escuridão. Um super-vagalume, é verdade; um vagalume sagitariano.

Sua luz é como as ondas de rádio que chegam até nós desde o centro galáctico: atinge as maiores lonjuras. Por outro lado, ele pode aprender com outros arquétipos a obter algo mais do ambiente imediato. Sagitário é capaz de recorrer aos mais sofisticados sistemas filosóficos para entender algo que esteve disponível aqui o tempo inteiro, ou de viajar até a Ásia para descobrir aquilo que o jardineiro no quintal do vizinho pode estar dizendo ao assoviar uma melodia simples.  

Um momento vazio pode ser um momento do vazio: um instante em que as necessidades de ação e de motivação estão suspensas, e a respiração basta, e a vida é vivida, sem que ninguém se pergunte se ela faz sentido ou não. Ninguém precisa ir até o Himalaia para saber isso. Nós que aqui estamos tal como aqui vivemos podemos não ser plenos de significados, tampouco significados nos faltam; ninguém precisa conquistar o mundo ou desbravar as galáxias que restam quando tudo o que se precisa está ao alcance da mão.

Enfim, estamos agora nos aproximando de uma lua cheia em Sagitário. Isso quer dizer que ela cresce enquanto prepara seu alinhamento com a Terra, com o Sol e com o Centro Galáctico. Não que isso faça algum sentido. Mas o sistema solar como um todo também se move ao redor do centro a uma velocidade de 828.000 km/h, e a própria galáxia se desloca ao se afastar das demais com a expansão do universo, sem falar na rotação da terra sob nossos pés. Nós participamos de todos esses movimentos e não lhes oferecemos resistência alguma. Nem pensamos a respeito. A gente é todo mundo zen e nem sabe.

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